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INDÚSTRIA
FARMACÊUTICA
Reviravolta em uma indústria de US$ 3 bi
Novas regras
mudam produção e comércio de alimentos modificados
Estela caparelli
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| IMPACTO:
Adequação às medidas vai provocar aumento de até 20% nos custos
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Os alimentos geneticamente modificados deixaram de ser, definitivamente,
tema de debate exclusivo de cientistas. Pela primeira vez, a indústria
dos transgênicos passará a ser regulada, a exemplo do que ocorre
com outros setores, por um acordo internacional com a mesma importância
dos tratados da Organização Mundial do Comércio, a OMC. O chamado
Protocolo de Biosegurança, assinado em Montreal no dia 29, terá
pesadas repercussões sobre um segmento da economia mundial que
emprega 1 milhão de pessoas e movimenta mais de US$ 3 bilhões
a cada ano. O acordo significa uma verdadeira reviravolta na forma
de produzir e comercializar alimentos geneticamente modificados.
A principal novidade do chamado Protocolo de Montreal parece simples:
as cargas com grãos ou sementes transgênicos terão que apresentar
um rótulo contendo a frase "Pode conter alimentos geneticamente
modificados."
A rotulagem dos alimentos que chegam aos portos, no entanto, vai
exigir uma modificação de toda a cadeia de produção e comercialização
dos alimentos. O agricultor, o comerciante e o transportador terão
que dividir e preparar suas estruturas para lidar, de forma diferenciada,
com alimentos transgênicos e não-transgênicos. É uma transformação
que afeta, principalmente, países que já plantam transgênicos
em larga escala, como é o caso dos EUA e Argentina. Mesmo no Brasil,
porém, cálculos preliminares indicam que a medida pode elevar
os custos de companhias como Cargill entre 10% e 20%."Quem quiser
comprar produtos não-transgênicos terá que pagar mais por isso",
diz o executivo de uma grande empresa de biotecnologia.
O acordo também vai colocar mais lenha na fogueira na questão
da resistência ao produto. Segundo o acordo, os países com "dúvida
razoável" poderão recusar cargas de transgênicos sem se exporem
à retaliações de países como os EUA, como acontece atualmente.
É uma vitória da Europa, principal foco de resistência aos produtos
americanos. E pode ser um golpe duro para empresas como Monsanto
e Novartis, grandes produtoras de sementes geneticamente modificadas.
"As medidas vão reduzir as importações de produtos transgênicos",
diz Marijane Lisboa, consultora do Greenpeace que participou do
encontro no Canadá. A indústria tem uma outra interpretação das
medidas. "O protocolo reconhece a importância da indústria de
biotecnologia e como nós investimos nessas áreas, estamos no caminho
correto do nosso trabalho", diz Wilhemus Uitdewilligen, gerente
de novas tecnologias da Novartis no Brasil.
Ninguém sabe ao certo o que vai acontecer com o consumo
de transgênicos daqui para frente, mas as empresas de biotecnologia
não têm dúvida de que os agricultores brasileiros vão adotar a
novidade. O País é o único grande produtor mundial que ainda não
aderiu ao clube dos transgênicos. A aprovação dos primeiros produtos
- sementes de soja - foi dada pelo Ministério da Agricultura em
setembro de 1998, mas a decisão não foi colocada em prática por
causa de uma ação judicial movida, em seguida, pelo Instituto
de Defesa do Consumidor em setembro de 1998. Desde então a coisa
parou. A Monsanto, a líder mundial no assunto, dá de ombros. Anunciou
um investimento de US$ 800 milhões em três anos numa fábrica em
Camaçari, Bahia, e num laboratório em Uberlândia, Minas Gerais.
"Estamos nos preparando para o lançamento dos produtos geneticamente
modificados no Brasil", diz Gustavo Leite, diretor-executivo da
empresa no Brasil. "Qualquer tecnologia de vanguarda sofre resistência.
Nossa missão é confortar o público." No Brasil, ainda há resistência
aos transgênicos por parte de produtores. Muitos acreditam que
há mercado para sementes convencionais, como é o caso da Europa.
Poucos, no entanto, ainda apostam no mercado 100% tradicional.
"A adesão aos transgênicos é inevitável", diz Blairo Maggi, maior
produtor de soja do Brasil. Pode ser. Um bom termômetro do que
está por vir é o plantio do mês de maio nos EUA. Os produtores
americanos vão mostrar se a semente transgênica veio para ficar
ou não.
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