16 de fevereiro de 2000 - nº 129 

A receita de Júnior
Fábrica de ar
Quem ganha com os genéricos
Acabou a brincadeira na Mattel
Octagon entra na área
Reviravolta em uma indústria de US$ 3 bi
O celular em breve será assim








INDÚSTRIA FARMACÊUTICA
Reviravolta em uma indústria de US$ 3 bi
Novas regras mudam produção e comércio de alimentos modificados

Estela caparelli

IMPACTO: Adequação às medidas vai provocar aumento de até 20% nos custos

Os alimentos geneticamente modificados deixaram de ser, definitivamente, tema de debate exclusivo de cientistas. Pela primeira vez, a indústria dos transgênicos passará a ser regulada, a exemplo do que ocorre com outros setores, por um acordo internacional com a mesma importância dos tratados da Organização Mundial do Comércio, a OMC. O chamado Protocolo de Biosegurança, assinado em Montreal no dia 29, terá pesadas repercussões sobre um segmento da economia mundial que emprega 1 milhão de pessoas e movimenta mais de US$ 3 bilhões a cada ano. O acordo significa uma verdadeira reviravolta na forma de produzir e comercializar alimentos geneticamente modificados. A principal novidade do chamado Protocolo de Montreal parece simples: as cargas com grãos ou sementes transgênicos terão que apresentar um rótulo contendo a frase "Pode conter alimentos geneticamente modificados."
A rotulagem dos alimentos que chegam aos portos, no entanto, vai exigir uma modificação de toda a cadeia de produção e comercialização dos alimentos. O agricultor, o comerciante e o transportador terão que dividir e preparar suas estruturas para lidar, de forma diferenciada, com alimentos transgênicos e não-transgênicos. É uma transformação que afeta, principalmente, países que já plantam transgênicos em larga escala, como é o caso dos EUA e Argentina. Mesmo no Brasil, porém, cálculos preliminares indicam que a medida pode elevar os custos de companhias como Cargill entre 10% e 20%."Quem quiser comprar produtos não-transgênicos terá que pagar mais por isso", diz o executivo de uma grande empresa de biotecnologia.

O acordo também vai colocar mais lenha na fogueira na questão da resistência ao produto. Segundo o acordo, os países com "dúvida razoável" poderão recusar cargas de transgênicos sem se exporem à retaliações de países como os EUA, como acontece atualmente. É uma vitória da Europa, principal foco de resistência aos produtos americanos. E pode ser um golpe duro para empresas como Monsanto e Novartis, grandes produtoras de sementes geneticamente modificadas. "As medidas vão reduzir as importações de produtos transgênicos", diz Marijane Lisboa, consultora do Greenpeace que participou do encontro no Canadá. A indústria tem uma outra interpretação das medidas. "O protocolo reconhece a importância da indústria de biotecnologia e como nós investimos nessas áreas, estamos no caminho correto do nosso trabalho", diz Wilhemus Uitdewilligen, gerente de novas tecnologias da Novartis no Brasil.

Envie esta página para um amigo Ninguém sabe ao certo o que vai acontecer com o consumo de transgênicos daqui para frente, mas as empresas de biotecnologia não têm dúvida de que os agricultores brasileiros vão adotar a novidade. O País é o único grande produtor mundial que ainda não aderiu ao clube dos transgênicos. A aprovação dos primeiros produtos - sementes de soja - foi dada pelo Ministério da Agricultura em setembro de 1998, mas a decisão não foi colocada em prática por causa de uma ação judicial movida, em seguida, pelo Instituto de Defesa do Consumidor em setembro de 1998. Desde então a coisa parou. A Monsanto, a líder mundial no assunto, dá de ombros. Anunciou um investimento de US$ 800 milhões em três anos numa fábrica em Camaçari, Bahia, e num laboratório em Uberlândia, Minas Gerais. "Estamos nos preparando para o lançamento dos produtos geneticamente modificados no Brasil", diz Gustavo Leite, diretor-executivo da empresa no Brasil. "Qualquer tecnologia de vanguarda sofre resistência. Nossa missão é confortar o público." No Brasil, ainda há resistência aos transgênicos por parte de produtores. Muitos acreditam que há mercado para sementes convencionais, como é o caso da Europa. Poucos, no entanto, ainda apostam no mercado 100% tradicional. "A adesão aos transgênicos é inevitável", diz Blairo Maggi, maior produtor de soja do Brasil. Pode ser. Um bom termômetro do que está por vir é o plantio do mês de maio nos EUA. Os produtores americanos vão mostrar se a semente transgênica veio para ficar ou não.

Copyright© 2000 Revista Dinheiro. Todos os direitos reservados. All rights reserved.