16 de fevereiro de 2000 - nº 129 

A receita de Júnior
Fábrica de ar
Quem ganha com os genéricos
Acabou a brincadeira na Mattel
Octagon entra na área
Reviravolta em uma indústria de US$ 3 bi
O celular em breve será assim








INDÚSTRIA FARMACÊUTICA
Quem ganha com os genéricos
Por enquanto, os laboratórios nacionais. Mas os multinacionais também estão de olho neste mercado

Juliana Almeida

Enquanto o setor farmacêutico e o governo lavam roupa suja na CPI, dois laboratórios brasileiros, o Teuto e o EMS, assistem à briga de camarote. Ambos comemoram a chegada de seis medicamentos genéricos com sua marca às farmácias. Além de baixar o preço desses remédios em até 50%, essas indústrias poderão multiplicar suas receitas nos próximos anos. O Teuto espera mais do que quintuplicar suas vendas em três anos, quando elas atingirão US$ 560 milhões anuais. Já o EMS aposta em um crescimento de 50% neste ano sobre os US$ 75 milhões faturados em 1999. "Esta é uma forma de estimular as empresas nacionais, a exemplo do que ocorreu em outros países", diz José Eduardo Bandeira de Mello, presidente da Abifarma, associação que reúne a indústria farmacêutica.

Das vendas de remédios nos EUA e na
EUROPA, os genéricos representam 40%

US$ 7,6 bilhões foi a receita do setor
farmacêutico no Brasil em 1999

Para aproveitar a oportunidade, o EMS e o Teuto começaram a desenvolver os genéricos antes mesmo da aprovação da Lei de Patentes, em 1997. "Investimos US$ 6 milhões a partir de 1996", diz Carlos Eduardo Sanchez, presidente do grupo paulista EMS - Sigma Farma. Com a liberação da venda desse tipo de medicamento, Sanchez prevê um aumento de 1,5% para 2,6% na participação de mercado do EMS. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVS) já aprovou três genéricos produzidos pelo laboratório: Ampicilina, Cafalexina e Ranitidina. Outros 34 medicamentos estão em processo para receber o sinal verde. "Queremos ter 100 genéricos em 2001 e, assim, ser o maior laboratório do segmento no País", diz Sanchez.

Se depender do seu concorrente Teuto, o EMS terá bastante trabalho. O laboratório goiano quer aprovar ainda este ano 120 genéricos. Para comportar um aumento na demanda, está construindo uma nova unidade que produzirá 30 milhões de caixas por mês, três vezes mais do que sua atual capacidade. A obra, orçada em R$ 100 milhões, estará pronta até o fim de 2000, segundo Jailton Batista, superintendente do Teuto. Parte desta produção, até 30%, será destinada ao Mercosul, Estados Unidos e países da Europa. "Em 2003, as vendas de genéricos representarão 70% do nosso faturamento ou algo como US$ 392 milhões", diz Batista.

Laboratórios como o EMS e o Teuto espelham-se no comportamento desse segmento na Europa e nos Estados Unidos. Por lá, os genéricos representam 40% das vendas. O faturamento do setor farmacêutico no Brasil atingiu US$ 7,6 bilhões em 1999. Assim, as vendas de genéricos teriam um potencial de US$ 4 bilhões por ano. Há um outro estímulo para o setor: a carência do mercado brasileiro, onde existem 30 milhões de potenciais consumidores de genéricos e outros 27 milhões que, por falta de recursos, não compram todos os remédios necessários para seu tratamento.

De olho nesses números, 21 laboratórios já solicitaram à ANVS a liberação de 151 produtos com nome genérico, entre antibióticos, antidepressivos e analgésicos. Muitos desses pedidos vêm de empresas nacionais de médio porte, mas há também gigantes multinacionais observando esse filão. O laboratório alemão Knoll, por exemplo, submeteu sua linha Basf Generics, com 36 produtos, à aprovação governamental.

Outras empresas internacionais preferem a cautela. "Neste primeiro ano vamos observar o comportamento do mercado", diz Cintia Piccina, assessora da diretoria da suíça Novartis. A empresa produz genéricos em alguns países, usando marcas locais. Eles representaram 9% de sua receita na área de saúde, de US$ 12,5 bilhões em 1998, último dado disponível. Piccina lembra que a entrada no segmento de genéricos exigirá novos investimentos da empresa. O dinheiro será aplicado ou na construção de uma nova unidade ou, o que é mais provável, na aquisição de algum laboratório nacional. Outras multinacionais do setor também já saíram à caça de seus concorrentes nacionais. "Fomos procurados diversas vezes, mas ainda não era hora de vender", diz Batista, do Teuto.

Envie esta página para um amigo Os fornecedores de matérias-primas importadas também deverão ser beneficiados com a chegada dos genéricos. "Estamos preparados para atender o aumento da demanda", afirma Valdir Magalhães, diretor comercial da Galena, maior importadora e distribuidora de matérias-primas para a indústria farmacêutica do país. Segundo Magalhães, a Galena está em negociação com alguns laboratórios para fornecimento de princípios ativos. O real tamanho deste mercado, no entanto, só será definido quando houver uma campanha governamental orientando a população sobre os novos medicamentos e uma fiscalização eficiente para coibir a venda de remédios falsificados. Até lá, os resultados dos investimentos no setor serão tão misteriosos como aqueles feitos no mundo virtual.

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