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MEIO
AMBIENTE
Fábrica de ar
Na Ilha do
Bananal, oxigênio das plantas serve de filtro para que os países
ricos compensem a emissão de CO2 na atmosfera. Na troca, todos
saem ganhando.
Luiza Pastor
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CENTRO
CANGUÇU: criado pela Ecológica
em parceria com a AES Barry |
Quanto custa reduzir em 5% ao ano as emissões de carbono dos
países industrializados na sofrida atmosfera terrestre? De acordo
com os cálculos mais conservadores, as indústrias desses países
não ficariam muito aquém dos US$ 30 bilhões para cumprir essa
meta, acertada na Convenção de Kyoto, em 1997. Pois foi em função
desses altos custos e das dificuldades de se reduzir tão bruscamente
as emissões de CO2 nos grandes centros produtivos que se criou
uma fórmula pela qual os países em desenvolvimento que efetivem
projetos de manutenção das vegetações locais são remunerados proporcionalmente
pelos mais desenvolvidos. Ou seja: empresas altamente poluentes
cuja competitividade seria afetada pelo custo da adequação ambiental
comprariam créditos de projetos ambientais na medida da redução
exigida para suas emissões. Complicado? Sem dúvida. Mas é exatamente
por causa dessa complicação - e, pior, da dificuldade de se medir
com precisão o grau de compensação possível dessa troca - que
poucos foram até hoje os projetos de seqüestro de carbono, nome
técnico da operação, que saíram do papel em todo o planeta. No
Brasil, por exemplo, o primeiro projeto a apresentar números objetivos
e uma sistemática concreta de avaliação, traduzida em tabelas
e mais tabelas que abrangem da mais alta árvore ao mais ínfimo
tufo de grama, acaba de ser apresentado ao público português pelo
seu coordenador, Divaldo Rezende. Trata-se do projeto Centro Canguçu,
implantado no Parque Nacional do Araguaia, na região da Ilha do
Bananal.
O Projeto Seqüestro de Carbono da Ilha do Bananal, que abrange
200 mil hectares de floresta nativa, 600 mil hectares de regeneração
florestal e 3 mil hectares de agrosilvicultura, foi desenvolvido
por uma pequena empresa brasileira, a Ecológica, que desenvolveu
uma metodologia própria para realizar com custo mínimo, o que
outros fazem com verbas fabulosas. Esse projeto começou a ser
implantado em agosto de 1998 e tem como patrocinadora a Fundação
AES Barry, criada pela empresa exploradora de gás natural do mesmo
nome, sediada no País de Gales, na Grã-Bretanha. Na prática, o
projeto nasceu experimentalmente, com parte do orçamento destinado
a questões sociais da empresa, o que permitiu que os prazos não
fossem muito curtos e os custos fossem reduzidos, algo em torno
de 650 mil libras ou R$ 1,8 milhão para um período de cinco anos.
Só no primeiro ano, segundo Rezende, entraram no País R$ 500 mil,
administrados pela Ecológica com mão de ferro. Um excelente negócio
para quem precisaria desembolsar cerca de US$ 150 para reduzir
uma tonelada de CO2 na sua planta galesa e que, em vez disso,
vai pagar de US$ 2 a US$ 10 por tonelada mantida à custa de manejo
florestal. "O custo é baixo porque não vamos emitir certificados,
mas sim desenvolver uma sistemática de avaliação do potencial
de seqüestro do carbono para aplicação futura", explica o coordenador.
Ele lembra que, para a emissão de certificados, que são os muitos
e complexos documentos que comprovam internacionalmente que a
empresa aderiu a essa regulamentação, o valor do investimento
precisaria ser multiplicado várias vezes: "Os 30 projetos que
existem em todo o mundo oscilam por valores na faixa dos US$ 10
milhões, porque a certificação internacional é, ironicamente,
a parte mais cara da operação", conta ele. Como se alguém imaginasse
o contrário...
A proposta desenvolvida pela Ecológica, que coordena os trabalhos
do Cambuçu e encabeça a atividade de várias entidades, como o
Ibama e a Naturatins (órgão ambiental de Tocantins), além de organizações
não-governamentais que atuam na região, tem um aspecto que a diferencia
da maioria dos projetos internacionais: a preocupação em integrar
a população local ao espírito da coisa, despertando a atenção
para o problema do desmatamento, e a preservação de mata nativa.
Segundo Rezende, o estoque de carbono disponível e contabilizado
na região abrangida pelo projeto é de aproximadamente 25 milhões
de toneladas para 25 anos. O programa como um todo, para atender
aos interesses da Barry, pretende abranger um estoque total de
não menos de 7 milhões de toneladas de CO2 ao longo de 25 anos,
equivalentes ao total de emissões de poluentes realizadas pela
planta em sua vida útil. Ou seja: ainda ficamos com o troco. Para
isso, está previsto o ingresso de mais 600 mil libras (R$ 1,7
milhão) nesse período, a serem injetadas pela Barry na região.
"Nos perguntam como conseguimos realizar os cálculos de emissão
e absorção com uma verba tão curta, mas é tudo uma questão de
parcerias e criatividade", diz Rezende. Ele cita como exemplo
a utilização habitual, nesse tipo de projeto, de um equipamento
que mede o fluxo de emissão e absorção de CO2 na vegetação, e
que custa US$ 100 mil. "Nós achamos outro que é muito mais barato,
cerca de US$ 4 mil, mas que mede o fluxo de planta em planta,
o que com certeza dá muito mais trabalho, demora fantasticamente
mais, mas também gera empregos e nos permite economizar para outras
coisas". No total, com a ramificação do projeto em programas de
educação ambiental, incentivo à produção de artesanato e ao ecoturismo,
o Canguçu, segundo Rezende, está beneficiando cinco municípios
de Tocantins, 250 pequenos produtores e mais de 30 mil pessoas,
direta e indiretamente. "E tudo isso com apenas 18 funcionários,
porque como somos uma empresa à frente do projeto, conseguimos
manter a estrutura enxuta, o que dificilmente ocorre em programas
oficiais", diz o diretor-executivo da Ecológica.
Os resultados do projeto foram reunidos no livro Seqüestro
de carbono: uma experiência concreta, escrito por Rezende e lançado
na aula inaugural que deu na semana passada na Universidade de
Coimbra, em Portugal. O lançamento no Brasil está previsto para
abril próximo, começando por São Paulo. "O interesse despertado
pelos resultados do projeto foi tanto que já estamos trabalhando
em mais três programas diferentes em outras regiões do País",
conta ele. Quer dizer: tudo indica que há, sim, alguma chance
de começarmos a receber algo dos países industrializados em troca
do velho e surrado rótulo que nos impingiram, de "pulmão do mundo"...
Ao menos isso.
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