16 de fevereiro de 2000 - nº 129 

A receita de Júnior
Fábrica de ar
Quem ganha com os genéricos
Acabou a brincadeira na Mattel
Octagon entra na área
Reviravolta em uma indústria de US$ 3 bi
O celular em breve será assim








MEIO AMBIENTE
Fábrica de ar
Na Ilha do Bananal, oxigênio das plantas serve de filtro para que os países ricos compensem a emissão de CO2 na atmosfera. Na troca, todos saem ganhando.

Luiza Pastor

CENTRO CANGUÇU: criado pela Ecológica
em parceria com a AES Barry

Quanto custa reduzir em 5% ao ano as emissões de carbono dos países industrializados na sofrida atmosfera terrestre? De acordo com os cálculos mais conservadores, as indústrias desses países não ficariam muito aquém dos US$ 30 bilhões para cumprir essa meta, acertada na Convenção de Kyoto, em 1997. Pois foi em função desses altos custos e das dificuldades de se reduzir tão bruscamente as emissões de CO2 nos grandes centros produtivos que se criou uma fórmula pela qual os países em desenvolvimento que efetivem projetos de manutenção das vegetações locais são remunerados proporcionalmente pelos mais desenvolvidos. Ou seja: empresas altamente poluentes cuja competitividade seria afetada pelo custo da adequação ambiental comprariam créditos de projetos ambientais na medida da redução exigida para suas emissões. Complicado? Sem dúvida. Mas é exatamente por causa dessa complicação - e, pior, da dificuldade de se medir com precisão o grau de compensação possível dessa troca - que poucos foram até hoje os projetos de seqüestro de carbono, nome técnico da operação, que saíram do papel em todo o planeta. No Brasil, por exemplo, o primeiro projeto a apresentar números objetivos e uma sistemática concreta de avaliação, traduzida em tabelas e mais tabelas que abrangem da mais alta árvore ao mais ínfimo tufo de grama, acaba de ser apresentado ao público português pelo seu coordenador, Divaldo Rezende. Trata-se do projeto Centro Canguçu, implantado no Parque Nacional do Araguaia, na região da Ilha do Bananal.

O Projeto Seqüestro de Carbono da Ilha do Bananal, que abrange 200 mil hectares de floresta nativa, 600 mil hectares de regeneração florestal e 3 mil hectares de agrosilvicultura, foi desenvolvido por uma pequena empresa brasileira, a Ecológica, que desenvolveu uma metodologia própria para realizar com custo mínimo, o que outros fazem com verbas fabulosas. Esse projeto começou a ser implantado em agosto de 1998 e tem como patrocinadora a Fundação AES Barry, criada pela empresa exploradora de gás natural do mesmo nome, sediada no País de Gales, na Grã-Bretanha. Na prática, o projeto nasceu experimentalmente, com parte do orçamento destinado a questões sociais da empresa, o que permitiu que os prazos não fossem muito curtos e os custos fossem reduzidos, algo em torno de 650 mil libras ou R$ 1,8 milhão para um período de cinco anos. Só no primeiro ano, segundo Rezende, entraram no País R$ 500 mil, administrados pela Ecológica com mão de ferro. Um excelente negócio para quem precisaria desembolsar cerca de US$ 150 para reduzir uma tonelada de CO2 na sua planta galesa e que, em vez disso, vai pagar de US$ 2 a US$ 10 por tonelada mantida à custa de manejo florestal. "O custo é baixo porque não vamos emitir certificados, mas sim desenvolver uma sistemática de avaliação do potencial de seqüestro do carbono para aplicação futura", explica o coordenador. Ele lembra que, para a emissão de certificados, que são os muitos e complexos documentos que comprovam internacionalmente que a empresa aderiu a essa regulamentação, o valor do investimento precisaria ser multiplicado várias vezes: "Os 30 projetos que existem em todo o mundo oscilam por valores na faixa dos US$ 10 milhões, porque a certificação internacional é, ironicamente, a parte mais cara da operação", conta ele. Como se alguém imaginasse o contrário...

A proposta desenvolvida pela Ecológica, que coordena os trabalhos do Cambuçu e encabeça a atividade de várias entidades, como o Ibama e a Naturatins (órgão ambiental de Tocantins), além de organizações não-governamentais que atuam na região, tem um aspecto que a diferencia da maioria dos projetos internacionais: a preocupação em integrar a população local ao espírito da coisa, despertando a atenção para o problema do desmatamento, e a preservação de mata nativa. Segundo Rezende, o estoque de carbono disponível e contabilizado na região abrangida pelo projeto é de aproximadamente 25 milhões de toneladas para 25 anos. O programa como um todo, para atender aos interesses da Barry, pretende abranger um estoque total de não menos de 7 milhões de toneladas de CO2 ao longo de 25 anos, equivalentes ao total de emissões de poluentes realizadas pela planta em sua vida útil. Ou seja: ainda ficamos com o troco. Para isso, está previsto o ingresso de mais 600 mil libras (R$ 1,7 milhão) nesse período, a serem injetadas pela Barry na região. "Nos perguntam como conseguimos realizar os cálculos de emissão e absorção com uma verba tão curta, mas é tudo uma questão de parcerias e criatividade", diz Rezende. Ele cita como exemplo a utilização habitual, nesse tipo de projeto, de um equipamento que mede o fluxo de emissão e absorção de CO2 na vegetação, e que custa US$ 100 mil. "Nós achamos outro que é muito mais barato, cerca de US$ 4 mil, mas que mede o fluxo de planta em planta, o que com certeza dá muito mais trabalho, demora fantasticamente mais, mas também gera empregos e nos permite economizar para outras coisas". No total, com a ramificação do projeto em programas de educação ambiental, incentivo à produção de artesanato e ao ecoturismo, o Canguçu, segundo Rezende, está beneficiando cinco municípios de Tocantins, 250 pequenos produtores e mais de 30 mil pessoas, direta e indiretamente. "E tudo isso com apenas 18 funcionários, porque como somos uma empresa à frente do projeto, conseguimos manter a estrutura enxuta, o que dificilmente ocorre em programas oficiais", diz o diretor-executivo da Ecológica.

Envie esta página para um amigo Os resultados do projeto foram reunidos no livro Seqüestro de carbono: uma experiência concreta, escrito por Rezende e lançado na aula inaugural que deu na semana passada na Universidade de Coimbra, em Portugal. O lançamento no Brasil está previsto para abril próximo, começando por São Paulo. "O interesse despertado pelos resultados do projeto foi tanto que já estamos trabalhando em mais três programas diferentes em outras regiões do País", conta ele. Quer dizer: tudo indica que há, sim, alguma chance de começarmos a receber algo dos países industrializados em troca do velho e surrado rótulo que nos impingiram, de "pulmão do mundo"... Ao menos isso.

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