16 de fevereiro de 2000 - nº 129 

A receita de Júnior
Fábrica de ar
Quem ganha com os genéricos
Acabou a brincadeira na Mattel
Octagon entra na área
Reviravolta em uma indústria de US$ 3 bi
O celular em breve será assim








PERSONAGEM
A receita de Júnior
Ele vendeu a Arisco por US$ 490 milhões e começa a traçar novos rumos empresariais.
Na mira, o E-Business e a distribuição de gás

Darcio Oliveira e Mariza Cavalcanti

(Ilustraçào: CARLINHOS
Fotomontagem: ZILBERMAN)

Enquanto a seleção brasileira goleava a Argentina no último dia 6, o executivo Braulio Marchio, com um olho na telinha e outro na calculadora, refazia, pela última vez, as contas de uma das maiores transações do setor de alimentos no Brasil. "Parei de assistir a partida por várias vezes para os arranjos finais", lamenta o executivo. "Eu precisava correr". De fato. No dia seguinte, cedo, Marchio teria de fazer uma transferência bancária de US$ 490 milhões em favor dos ex-controladores da Arisco e selar uma negociação que vem se arrastando há anos entre a empresa que representa, a americana Best-Foods, e a companhia brasileira. Além do passe de quase meio bilhão de dólares, a Best-Foods assumiu uma dívida de US$ 262 milhões. Apesar do peso do débito, o negócio mereceu comemorações. Para a Best-Foods, surge a oportunidade de ampliar seus domínios no País. A empresa é dona da Refinações de Milho Brasil (RMB) e com a Arisco nas mãos, além de conquistar a quinta posição do ranking nacional, agrega ao seu mix de produtos uma linha completa de atomatados e refrescos em pó, duas das maiores estrelas da companhia recém-adquirida. Do outro lado, a certeza de que a Arisco finalmente terá a chance de ganhar o mundo, aproveitando-se da distribuição impecável da Best-Foods em 110 países. "Este grande detalhe pesou na hora de escolher o comprador", revela João Alves de Queiroz Filho, o Júnior, dono da Arisco até a semana passada. "Éramos uma multinacional do Mercosul e agora somos uma multinacional global", comemora.

Satisfeito com o destino da empresa, Júnior tem, agora, US$ 500 milhões para gastar. Seus planos? "Por enquanto, vou me dedicar à Best-Foods", esquiva-se o empresário, pouco afeito a aparições públicas. Ele foi convidado a prestar consultoria aos novos executivos da companhia e durante três anos estará participando de todas as decisões estratégicas do grupo no País. "Júnior está muito animado com esta função. É uma forma de continuar sua obra", diz Marchio, escolhido para assumir a presidência da companhia brasileira. Mas não pense que o homem que revolucionou a Arisco vai ficar satisfeito com um cargo burocrático. Júnior dará, sim, sua contribuição ao crescimento da empresa e não medirá esforços para isso. Mas, aos 47 anos de idade, no auge profissional e com US$ 500 milhões no bolso, não vai perder a chance de dar novos saltos. Nas conversas com amigos, o empresário - que, apesar do jeito simplório, não dispensa ternos da grife Ermenegildo Zegna, carrões importados (tem uma Ferrari, um jipe Cherokee e uma Mercedes-Benz) e até um jato particular Lear 55 - revelou suas preferências: entrar de sola nos programas de privatização e pegar a onda dourada dos negócios da Internet.

No primeiro caso, sua vontade é participar do que ele chama de privatizações de menor porte. "Não teria bala para entrar em algo como telecomunicações, por exemplo." Uma das opções seria a distribuição de gás natural. O processo de abertura do setor iniciou-se a partir de São Paulo. Duas regiões já foram privatizadas: a Central e a Noroeste. Até março, a área Sul deve estar sendo leiloada, mas as inscrições dos grupos interessados serão aceitas até a próxima semana - o que, em tese, impede a possível participação do ex-dono da Arisco. O que Júnior poderá fazer é esperar pela privatização nos demais Estados. Boas oportunidades se abrem com a Sulgas (RS), Santa Catarina Gás e Copagás (MG).

Vôos tecnológicos também seduzem o empresário. Em várias ocasiões, Júnior manifestou sua vontade de embarcar no comércio eletrônico. Uma parceria com a Best-Foods neste campo seria bem-vinda. Há chance de investir no chamado business to business, transações comerciais entre companhias por meio da rede. A idéia seria montar uma operação entre os fornecedores da Arisco e a empresa. O conceito é novo e as perspectivas são das melhores: calcula-se que 70% das transações comerciais da Internet virão das operações corporativas. Traduzindo em números, algo como US$ 1,9 bilhão somente no Brasil.

No acordo que fez com a Best-Foods, Júnior repassou tudo o que refere à área de alimentos. Somente os negócios de comunicação ficaram de fora. Estamos falando das TVs Serra Dourada - retransmissoras do SBT - e de duas emissoras de rádio. "Estas são operações pequenas", diz Júnior. Em Goiânia, onde funciona a sede da empresa e onde ele trabalha ao som da cantora americana Mariah Carrey, há quem garanta que o ex-dono da Arisco esteja negociando com a Rede Globo o direito de representá-la em Goiás e Tocantins. "Isto é conversa", diz o empresário. Outra história diz respeito ao interesse em comprar uma rede local de farmácias, provavelmente a Panarelo. "Tá louco? Eu nem gosto de remédio!", afirma Júnior.

Mas gosta, e muito, de novos desafios. Quando diz que está pensando em determinados setores para dar prosseguimento a sua vida profissional, ele na verdade já estudou cada opção detalhadamente. Pode apostar que neste momento Júnior tem todos os passos de suas novas empreitadas cuidadosamente planejados. "Não quero ser o sócio capitalista em um novo ramo. Quero gerir o negócio", diz. Foi assim, com a mão na massa, que ele transformou a empresa fundada pelo pai, João Alves de Queiroz, em uma das mais agressivas companhias brasileiras. Sob seu comando, a Arisco saltou de um faturamento de R$ 279 milhões em 1989, para R$ 987 milhões no ano passado.

A empresa conquistou mercado com uma estratégia agressiva de preços combinada a uma rápida diversificação de suas linhas de produtos. O pulo do gato veio quando mudou a sede de São Paulo para Goiás. O governo local a brindou com vantagens fiscais que contribuíram para o crescimento da empresa. Foi este apoio que Júnior teve o cuidado de reforçar quando os executivos da Best-Foods bateram o martelo. No dia 4 de fevereiro, foi pessoalmente ao Palácio das Esmeraldas fazer uma visita ao governador Marconi Perillo.

Com as bênçãos do Estado, a Best-Foods tratou de resolver o maior problema da Arisco, as dívidas. Debruçados sobre os números, o novo presidente Bráulio Marchio e o executivo da Best-Foods, Thom Fallon, tomaram a primeira decisão: um aporte de US$ 60 milhões da matriz para cobrir parte do rombo. Marchio acredita, porém, que com e estabilidade econômica, os resultados devem melhorar naturalmente, reduzindo o impacto da dívida sobre as operações da empresa.

A disposição da Best-Foods em engolir a Arisco pode ser explicada. Segundo Oscar Imbellone, presidente do grupo para a América Latina, a empresa não tinha mais como ganhar participação de mercado nos setores em que atua - como temperos, molhos, óleos, amido de milho, sopas e sucos prontos. Na Arisco, ele encontrou a receita praticamente pronta, sem necessidade de novos ingredientes. Com a aquisição, as operações da Best-Foods no Brasil passam a representar quase 50% do faturamento obtido na América Latina e 10% da receita global. Em 2000, o faturamento mundial da corporação subirá dos US$ 8,6 bilhões para US$ 10 bilhões.

Envie esta pįgina para um amigoA programação de investimentos inclui para até 2003 recursos de US$ 15 milhões anuais na modernização das fábricas localizadas em Goiás, São Paulo e Pernambuco, ampliação da linha de produção, capacitação da mão-de-obra, melhoria da logística e propaganda. Com essas ações, a Best-Foods quer crescer a um ritmo de 15% ao ano. A unificação da Arisco e da Refinações de Milho Brasil não está descartada, segundo Imbellone, "mas é uma medida a ser pensada". Por fim, os americanos pretendem dobrar, em três anos, as exportações - que somaram no ano passado US$ 30 milhões. A idéia é privilegiar produtos como atomatados, milho, ervilha, achocolatados e suco em pó para o Exterior. Júnior sorri, satisfeito.

Fome de crescer

Existem duas coisas que o ex-dono da Arisco não pode ver pela frente: gravadores e câmeras fotográficas. Dizem seus amigos que a chance de entrevistar o empresário é tão "grande" quanto flagrá-lo em coquetéis ou badalações. Na tarde da quinta-feira 10, depois de muita insistência, o arredio João Alves de Queiroz Filho - o Júnior da Arisco - falou à DINHEIRO. Eis os principais trechos:

DINHEIRO - O sr. sempre teve uma ligação emocional muito forte com a Arisco e sempre afastou possíveis interessados na sua empresa. O que mudou para que o sr. cedesse aos encantos da Bestfoods?
JÚNIOR
- A Arisco já havia cumprido seu papel no Brasil e no Mercosul. Fomos a primeira empresa brasileira de alimentos a entrar na Argentina, Uruguai e Paraguai. Só nos faltava conquistar países em outros continentes e para isso é necessária uma forte distribuição mundial, como a da Bestfoods. Deixamos de ser uma multinacional do Mercosul para virar uma multinacional global.

DINHEIRO - O que o sr. pretende fazer agora com os US$ 490 milhões?
JÚNIOR - Ainda não sei.

DINHEIRO - Há informações de que sua idéia é investir na área de radiodifusão, com suas emissoras de tevê e de rádio.
JÚNIOR - Isto é um negócio pequeno. Quando for aprovada a lei que libera a participação de 30% para estrangeiros neste setor, como eu poderei competir?

DINHEIRO - E sobre os projetos na Internet?
JÚNIOR - Olha, no momento eu estou pensando em contribuir com a Bestfoods e a Arisco. Fui convidado a ser consultor da empresa e aceitei. Terei muito prazer em ajudar os americanos.

DINHEIRO - O que será da Arisco daqui para frente?
JÚNIOR - Uma empresa com os produtos espalhados por mais de 100 países. A Bestfoods tem, assim como eu tive, uma fome de crescer impressionante. Fui até onde dava. Agora é com eles. E eu sei que o plano deles é aumentar significativamente a base de exportação da Arisco. Estou muito satisfeito com o acordo.

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