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PERSONAGEM
A receita de Júnior
Ele vendeu
a Arisco por US$ 490 milhões e começa a traçar
novos rumos empresariais.
Na
mira, o E-Business e a distribuição de gás
Darcio Oliveira e Mariza Cavalcanti
(Ilustraçào:
CARLINHOS
Fotomontagem: ZILBERMAN) |
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Enquanto a seleção brasileira goleava a Argentina
no último dia 6, o executivo Braulio Marchio, com um olho
na telinha e outro na calculadora, refazia, pela última
vez, as contas de uma das maiores transações do
setor de alimentos no Brasil. "Parei de assistir a partida
por várias vezes para os arranjos finais", lamenta
o executivo. "Eu precisava correr". De fato. No dia
seguinte, cedo, Marchio teria de fazer uma transferência
bancária de US$ 490 milhões em favor dos ex-controladores
da Arisco e selar uma negociação que vem se arrastando
há anos entre a empresa que representa, a americana Best-Foods,
e a companhia brasileira. Além do passe de quase meio bilhão
de dólares, a Best-Foods assumiu uma dívida de US$
262 milhões. Apesar do peso do débito, o negócio
mereceu comemorações. Para a Best-Foods, surge a
oportunidade de ampliar seus domínios no País. A
empresa é dona da Refinações de Milho Brasil
(RMB) e com a Arisco nas mãos, além de conquistar
a quinta posição do ranking nacional, agrega ao
seu mix de produtos uma linha completa de atomatados e refrescos
em pó, duas das maiores estrelas da companhia recém-adquirida.
Do outro lado, a certeza de que a Arisco finalmente terá
a chance de ganhar o mundo, aproveitando-se da distribuição
impecável da Best-Foods em 110 países. "Este
grande detalhe pesou na hora de escolher o comprador", revela
João Alves de Queiroz Filho, o Júnior, dono da Arisco
até a semana passada. "Éramos uma multinacional
do Mercosul e agora somos uma multinacional global", comemora.
Satisfeito com o destino da empresa, Júnior tem, agora,
US$ 500 milhões para gastar. Seus planos? "Por enquanto,
vou me dedicar à Best-Foods", esquiva-se o empresário,
pouco afeito a aparições públicas. Ele foi
convidado a prestar consultoria aos novos executivos da companhia
e durante três anos estará participando de todas
as decisões estratégicas do grupo no País.
"Júnior está muito animado com esta função.
É uma forma de continuar sua obra", diz Marchio, escolhido
para assumir a presidência da companhia brasileira. Mas
não pense que o homem que revolucionou a Arisco vai ficar
satisfeito com um cargo burocrático. Júnior dará,
sim, sua contribuição ao crescimento da empresa
e não medirá esforços para isso. Mas, aos
47 anos de idade, no auge profissional e com US$ 500 milhões
no bolso, não vai perder a chance de dar novos saltos.
Nas conversas com amigos, o empresário - que, apesar do
jeito simplório, não dispensa ternos da grife Ermenegildo
Zegna, carrões importados (tem uma Ferrari, um jipe Cherokee
e uma Mercedes-Benz) e até um jato particular Lear 55 -
revelou suas preferências: entrar de sola nos programas
de privatização e pegar a onda dourada dos negócios
da Internet.
No primeiro caso, sua vontade é participar do que ele
chama de privatizações de menor porte. "Não
teria bala para entrar em algo como telecomunicações,
por exemplo." Uma das opções seria a distribuição
de gás natural. O processo de abertura do setor iniciou-se
a partir de São Paulo. Duas regiões já foram
privatizadas: a Central e a Noroeste. Até março,
a área Sul deve estar sendo leiloada, mas as inscrições
dos grupos interessados serão aceitas até a próxima
semana - o que, em tese, impede a possível participação
do ex-dono da Arisco. O que Júnior poderá fazer
é esperar pela privatização nos demais Estados.
Boas oportunidades se abrem com a Sulgas (RS), Santa Catarina
Gás e Copagás (MG).
Vôos tecnológicos também seduzem o empresário.
Em várias ocasiões, Júnior manifestou sua
vontade de embarcar no comércio eletrônico. Uma parceria
com a Best-Foods neste campo seria bem-vinda. Há chance
de investir no chamado business to business, transações
comerciais entre companhias por meio da rede. A idéia seria
montar uma operação entre os fornecedores da Arisco
e a empresa. O conceito é novo e as perspectivas são
das melhores: calcula-se que 70% das transações
comerciais da Internet virão das operações
corporativas. Traduzindo em números, algo como US$ 1,9
bilhão somente no Brasil.
No acordo que fez com a Best-Foods, Júnior repassou tudo
o que refere à área de alimentos. Somente os negócios
de comunicação ficaram de fora. Estamos falando
das TVs Serra Dourada - retransmissoras do SBT - e de duas emissoras
de rádio. "Estas são operações
pequenas", diz Júnior. Em Goiânia, onde funciona
a sede da empresa e onde ele trabalha ao som da cantora americana
Mariah Carrey, há quem garanta que o ex-dono da Arisco
esteja negociando com a Rede Globo o direito de representá-la
em Goiás e Tocantins. "Isto é conversa",
diz o empresário. Outra história diz respeito ao
interesse em comprar uma rede local de farmácias, provavelmente
a Panarelo. "Tá louco? Eu nem gosto de remédio!",
afirma Júnior.
Mas gosta, e muito, de novos desafios. Quando diz que está
pensando em determinados setores para dar prosseguimento a sua
vida profissional, ele na verdade já estudou cada opção
detalhadamente. Pode apostar que neste momento Júnior tem
todos os passos de suas novas empreitadas cuidadosamente planejados.
"Não quero ser o sócio capitalista em um novo
ramo. Quero gerir o negócio", diz. Foi assim, com
a mão na massa, que ele transformou a empresa fundada pelo
pai, João Alves de Queiroz, em uma das mais agressivas
companhias brasileiras. Sob seu comando, a Arisco saltou de um
faturamento de R$ 279 milhões em 1989, para R$ 987 milhões
no ano passado.
A empresa conquistou mercado com uma estratégia agressiva
de preços combinada a uma rápida diversificação
de suas linhas de produtos. O pulo do gato veio quando mudou a
sede de São Paulo para Goiás. O governo local a
brindou com vantagens fiscais que contribuíram para o crescimento
da empresa. Foi este apoio que Júnior teve o cuidado de
reforçar quando os executivos da Best-Foods bateram o martelo.
No dia 4 de fevereiro, foi pessoalmente ao Palácio das
Esmeraldas fazer uma visita ao governador Marconi Perillo.
Com as bênçãos do Estado, a Best-Foods tratou
de resolver o maior problema da Arisco, as dívidas. Debruçados
sobre os números, o novo presidente Bráulio Marchio
e o executivo da Best-Foods, Thom Fallon, tomaram a primeira decisão:
um aporte de US$ 60 milhões da matriz para cobrir parte
do rombo. Marchio acredita, porém, que com e estabilidade
econômica, os resultados devem melhorar naturalmente, reduzindo
o impacto da dívida sobre as operações da
empresa.
A disposição da Best-Foods em engolir a Arisco
pode ser explicada. Segundo Oscar Imbellone, presidente do grupo
para a América Latina, a empresa não tinha mais
como ganhar participação de mercado nos setores
em que atua - como temperos, molhos, óleos, amido de milho,
sopas e sucos prontos. Na Arisco, ele encontrou a receita praticamente
pronta, sem necessidade de novos ingredientes. Com a aquisição,
as operações da Best-Foods no Brasil passam a representar
quase 50% do faturamento obtido na América Latina e 10%
da receita global. Em 2000, o faturamento mundial da corporação
subirá dos US$ 8,6 bilhões para US$ 10 bilhões.
A programação de investimentos inclui
para até 2003 recursos de US$ 15 milhões anuais
na modernização das fábricas localizadas
em Goiás, São Paulo e Pernambuco, ampliação
da linha de produção, capacitação
da mão-de-obra, melhoria da logística e propaganda.
Com essas ações, a Best-Foods quer crescer a um
ritmo de 15% ao ano. A unificação da Arisco e da
Refinações de Milho Brasil não está
descartada, segundo Imbellone, "mas é uma medida a
ser pensada". Por fim, os americanos pretendem dobrar, em
três anos, as exportações - que somaram no
ano passado US$ 30 milhões. A idéia é privilegiar
produtos como atomatados, milho, ervilha, achocolatados e suco
em pó para o Exterior. Júnior sorri, satisfeito.
| Fome
de crescer
Existem duas coisas que o ex-dono da Arisco não
pode ver pela frente: gravadores e câmeras fotográficas.
Dizem seus amigos que a chance de entrevistar o empresário
é tão "grande" quanto flagrá-lo
em coquetéis ou badalações. Na tarde
da quinta-feira 10, depois de muita insistência, o
arredio João Alves de Queiroz Filho - o Júnior
da Arisco - falou à DINHEIRO. Eis os principais trechos:
DINHEIRO - O sr. sempre teve uma ligação
emocional muito forte com a Arisco e sempre afastou possíveis
interessados na sua empresa. O que mudou para que o sr.
cedesse aos encantos da Bestfoods?
JÚNIOR - A Arisco já havia cumprido seu
papel no Brasil e no Mercosul. Fomos a primeira empresa
brasileira de alimentos a entrar na Argentina, Uruguai e
Paraguai. Só nos faltava conquistar países
em outros continentes e para isso é necessária
uma forte distribuição mundial, como a da
Bestfoods. Deixamos de ser uma multinacional do Mercosul
para virar uma multinacional global.
DINHEIRO - O que o sr. pretende fazer agora com os US$
490 milhões?
JÚNIOR - Ainda não sei.
DINHEIRO - Há informações de que
sua idéia é investir na área de radiodifusão,
com suas emissoras de tevê e de rádio.
JÚNIOR - Isto é um negócio pequeno.
Quando for aprovada a lei que libera a participação
de 30% para estrangeiros neste setor, como eu poderei competir?
DINHEIRO - E sobre os projetos na Internet?
JÚNIOR - Olha, no momento eu estou pensando
em contribuir com a Bestfoods e a Arisco. Fui convidado
a ser consultor da empresa e aceitei. Terei muito prazer
em ajudar os americanos.
DINHEIRO - O que será da Arisco daqui para frente?
JÚNIOR - Uma empresa com os produtos espalhados
por mais de 100 países. A Bestfoods tem, assim como
eu tive, uma fome de crescer impressionante. Fui até
onde dava. Agora é com eles. E eu sei que o plano
deles é aumentar significativamente a base de exportação
da Arisco. Estou muito satisfeito com o acordo.
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