16 de fevereiro de 2000 - nº 129 

Quem vai levar?
Peixe grande na rede
Pintou sujeira
Faça o que eu digo...








CRIME
Pintou sujeira
Em menos de um ano, instituições financeiras comunicam ao Banco Central 841 operações suspeitas de lavagem de dinheiro

(Foto: BIÔ BARREIRA
Fotomontagem: TATO)

A lavagem de dinheiro é uma atividade tão antiga quanto o crime organizado. O combate a ela, porém, é coisa recente. Em março do ano passado, o Banco Central determinou que todos os bancos seriam obrigados a informar sobre operações suspeitas realizadas por seus clientes. Mas somente no final do ano é que as instituições, o BC e o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) conseguiram se entender sobre como funcionaria o sistema de denúncia e apuração. Apesar da demora, o BC acaba de divulgar os primeiros resultados, e eles são animadores. Desde a primeira comunicação, em dezembro, foram registradas 841 operações suspeitas. É um número e tanto. Na Suíça, um dos países com maior concentração de contas correntes por metro quadrado no planeta, são feitas 128 comunicações anuais. Na França, no primeiro ano após a regulamentação sobre o assunto, houve 200 relatos.

Das comunicações feitas ao BC, seis são consideradas "fortes indícios de crime" e já estão sendo investigadas pelo Coaf. As operações suspeitas são, na maioria, depósitos (principalmente DOCs vindos de cidades da fronteira) e saques elevadíssimos de pessoas ou empresas que não parecem ter condições de movimentar tanto dinheiro. Mas a falcatrua da moda são operações de importação ou exportação fajutas, com antecipação de pagamentos, em quantias muito grandes. A mercadoria virtual nunca chega ao seu destino, e o suposto comerciante, quando procurado, diz que a empresa com a qual fez negócio abriu falência. "Estamos identificando alguns perfis típicos", explica a advogada Marcia Klinke, representante da Febraban no Faft, o comitê internacional de combate à lavagem de dinheiro. "Um deles é o correntista que não se importa em perder dinheiro. Ele mantém valores enormes em conta corrente. E não quer investir, porque pode precisar sacar a qualquer momento." Há até casos curiosos, como aquele em que a movimentação suspeita foi denunciada por um dos sócios da empresa envolvida. "O outro sócio havia transferido uma bolada para o Exterior", conta o chefe do Departamento de Combate a Ilícitos Cambiais do BC, Ricardo Lial.

Envie esta página para um amigo Acertados os regulamentos da fiscalização interna dos bancos, o BC começará a visitá-los, para conferir o tipo de acompanhamento feito pelos funcionários e verificar se são verdadeiras as informações prestadas sobre os softwares usados, os critérios de triagem de informações e as pessoas encarregadas do assunto. "As instituições estrangeiras, que já tinham esse tipo de controle em seus países de origem, estão um pouco mais avançadas nesse acompanhamento", diz Lial. Para as instituições brasileiras, especialmente as que atuam no varejo, criar um sistema de controle é um esforço hercúleo. Afinal, o Brasil tem 18 tipos de documentos de identidade diferentes e, segundo a própria Receita Federal, há cerca de 40 milhões de CPFs fajutos em circulação. O Unibanco, por exemplo, foi a quinze bancos americanos pesquisar como funcionavam seus sistemas de compliance (departamentos encarregados de checar se todas as operações estão sendo feitas de acordo com o manual). Desenvolveu programas de computador para identificar negociações esquisitas e treinou uma tropa de elite de vinte funcionários subordinados ao vice-presidente executivo de auditoria, Lucas Melo (ex-sócio da Price-Waterhouse do Brasil). Gerentes de agências de fronteira, das áreas de câmbio e de private banking foram todos chamados a São Paulo para fazer cursos sobre o assunto. É um bom começo. Mas todo esse esforço será inútil se o cerco não for fechado junto às outras pontas amplamente conhecidas pelos lavadores de dinheiro - como imobiliárias, loterias e bingos.

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