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CRIME
Pintou
sujeira
Em menos de
um ano, instituições financeiras comunicam ao Banco Central 841
operações suspeitas de lavagem de dinheiro
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(Foto:
BIÔ BARREIRA
Fotomontagem:
TATO)
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A lavagem de dinheiro é uma atividade tão antiga quanto o crime
organizado. O combate a ela, porém, é coisa recente. Em março
do ano passado, o Banco Central determinou que todos os bancos
seriam obrigados a informar sobre operações suspeitas realizadas
por seus clientes. Mas somente no final do ano é que as instituições,
o BC e o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf)
conseguiram se entender sobre como funcionaria o sistema de denúncia
e apuração. Apesar da demora, o BC acaba de divulgar os primeiros
resultados, e eles são animadores. Desde a primeira comunicação,
em dezembro, foram registradas 841 operações suspeitas. É um número
e tanto. Na Suíça, um dos países com maior concentração de contas
correntes por metro quadrado no planeta, são feitas 128 comunicações
anuais. Na França, no primeiro ano após a regulamentação sobre
o assunto, houve 200 relatos.
Das comunicações feitas ao BC, seis são consideradas "fortes
indícios de crime" e já estão sendo investigadas pelo Coaf. As
operações suspeitas são, na maioria, depósitos (principalmente
DOCs vindos de cidades da fronteira) e saques elevadíssimos de
pessoas ou empresas que não parecem ter condições de movimentar
tanto dinheiro. Mas a falcatrua da moda são operações de importação
ou exportação fajutas, com antecipação de pagamentos, em quantias
muito grandes. A mercadoria virtual nunca chega ao seu destino,
e o suposto comerciante, quando procurado, diz que a empresa com
a qual fez negócio abriu falência. "Estamos identificando alguns
perfis típicos", explica a advogada Marcia Klinke, representante
da Febraban no Faft, o comitê internacional de combate à lavagem
de dinheiro. "Um deles é o correntista que não se importa em perder
dinheiro. Ele mantém valores enormes em conta corrente. E não
quer investir, porque pode precisar sacar a qualquer momento."
Há até casos curiosos, como aquele em que a movimentação suspeita
foi denunciada por um dos sócios da empresa envolvida. "O outro
sócio havia transferido uma bolada para o Exterior", conta o chefe
do Departamento de Combate a Ilícitos Cambiais do BC, Ricardo
Lial.
Acertados os regulamentos da fiscalização interna dos
bancos, o BC começará a visitá-los, para conferir o tipo de acompanhamento
feito pelos funcionários e verificar se são verdadeiras as informações
prestadas sobre os softwares usados, os critérios de triagem de
informações e as pessoas encarregadas do assunto. "As instituições
estrangeiras, que já tinham esse tipo de controle em seus países
de origem, estão um pouco mais avançadas nesse acompanhamento",
diz Lial. Para as instituições brasileiras, especialmente as que
atuam no varejo, criar um sistema de controle é um esforço hercúleo.
Afinal, o Brasil tem 18 tipos de documentos de identidade diferentes
e, segundo a própria Receita Federal, há cerca de 40 milhões de
CPFs fajutos em circulação. O Unibanco, por exemplo, foi a quinze
bancos americanos pesquisar como funcionavam seus sistemas de
compliance (departamentos encarregados de checar se todas as operações
estão sendo feitas de acordo com o manual). Desenvolveu programas
de computador para identificar negociações esquisitas e treinou
uma tropa de elite de vinte funcionários subordinados ao vice-presidente
executivo de auditoria, Lucas Melo (ex-sócio da Price-Waterhouse
do Brasil). Gerentes de agências de fronteira, das áreas de câmbio
e de private banking foram todos chamados a São Paulo para fazer
cursos sobre o assunto. É um bom começo. Mas todo esse esforço
será inútil se o cerco não for fechado junto às outras pontas
amplamente conhecidas pelos lavadores de dinheiro - como imobiliárias,
loterias e bingos.
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