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PRIVATIZAÇÃO
Quem
vai levar?
Estrangeiros
são a maioria entre os inscritos para o leilão do Banespa - e
podem até comprar outros bancos pelo caminho
Está aberta a temporada de caça ao Banespa, a privatização que,
em uma única batida de martelo, promete mudar a cara do sistema
financeiro nacional. Na semana passada, encerrado o período de
pré-qualificação, nove concorrentes se inscreveram para a disputa.
E deram início ao que pode ser a cabeça de ponte para a chegada
de um banco multinacional ao topo do ranking brasileiro. Há bons
motivos para esperar esse desembarque. Além dos candidatos estrangeiros
formarem maioria de cinco contra quatro, o assunto do momento
são as possíveis alianças de concorrentes nacionais com grupos
do Exterior. A nova investida do lobby nacionalista no Congresso
ou a tentativa de se impugnar na Justiça o processo de venda do
banco ficam em segundo plano.
Dois dos inscritos, os espanhóis BBV e Santander, deixaram bem
claro que partem para a disputa com a disposição dos touros que
entram na arena. Para eles, não se trata apenas de aumentar sua
participação no mercado brasileiro, mas de crescer para não serem
engolidos por peixes ainda maiores. Os jornais espanhóis têm falado
recentemente da possibilidade do Santander sofrer uma oferta hostil
de um gigante como o Deutsche Bank. Considerando que a melhor
defesa é o ataque, e que é mais fácil e barato se expandir na
América Latina que na Europa, o Santander fez uma oferta de US$
750 milhões para adquirir a totalidade das ações do argentino
Rio de La Plata, do qual já possui uma participação. O Banespa
seria o passo seguinte. Executivos do BBV também consideram o
Banespa um atalho para crescer mais rapidamente. Tomados de surpresa
com a compra do Meridional pelo rival madrilenho, os diretores
do BBV querem recuperar o espaço perdido. Seu objetivo é crescer
das atuais 260 para pelo menos 1.000 agências até o final do ano.
Se não conseguirem abocanhar o banco paulista, os estrategistas
bascos têm um Plano B: querem comprar três bancos privados de
menor porte. A lista teria pelo menos dois alvos favoritos: o
Safra e o Finasa.
Mais silenciosos sobre seus planos são os executivos do Citibank.
Com apenas 50 agências no Brasil, o Citi quer aumentar sua penetração
no varejo, seguindo o perfil que possui nos Estados Unidos. Durante
a semana passada, porém, seus assessores atenderam a imprensa
para dar apenas duas informações: confirmar que enviaram os documentos
para a pré-qualificação e negar os boatos de que o banco se associaria,
no leilão, ao brasileiro Safra. "Esperávamos que o Safra entrasse,
e o Citi, não. Esperávamos que o banco brasileiro seria a cabeça-de-ponte
do americano", diz o diretor de um banco brasileiro que está na
disputa. Boatos sobre a aquisição do Safra pelo Citibank não são
novos, e representantes das duas instituições têm de fato conversado.
Falar sobre o assunto em público, porém, é tabu de ambos os lados.
A semana também foi de silêncio no prédio do Unibanco. Isso porque
o banco foi outro que brilhou nos boatos do mercado. Seus concorrentes
dão como certo que ele receba uma mãozinha do Exterior para poder
entrar no jogo. Associado a um estrangeiro e comprando o Banespa,
o Unibanco poderia se tornar o número um do País - o que preocupa
Bradesco e Itaú. A fonte dos boatos é o recente aumento de capital
da instituição. Sem saber ao certo quem foram os responsáveis
pelo aporte de dólares, os diretores de dois bancos estrangeiros
sussurram o nome do Bank of America.
Nas fileiras do BankBoston, o vice-presidente financeiro Alex
Zornig explica que já tem até prateleira para guardar o troféu
Banespa, depois de arrebatá-lo no leilão. "Vamos navegar sob duas
bandeiras. Continuamos com as 64 agências do BankBoston no País,
e transformamos as do Banespa em pontos do Fleet Group, nossa
operação de varejo", explica. Perguntado sobre as conversações
Citibank-Safra e sobre a possibilidade de aliar-se com outro concorrente,
ele desconversa. "Ainda nem conhecemos em detalhe o pacote que
está à venda. Mas, de princípio, não estamos fechados a nenhuma
composição".
Revelado quem participará do combate, cada oponente se põe a
medir o outro. "Espanhóis e brasileiros estão realmente interessados
em comprar. Não acredito que os americanos tenham tanta disposição
assim para se aventurar no mercado nacional", raciocina um dos
banqueiros brasileiros inscritos para a briga. "O HSBC também
está seguro com o tamanho que tem." No quartel-general do banco
inglês, o que se ouve é diferente. Lá, o banco é cobiçado por
preencher uma lacuna decisiva - o mercado de São Paulo - em seu
mapa de agências. Segundo um executivo do HSBC, o Banespa é apetitoso
porque engordaria em 50% o total de correntistas da instituição.
Mais do que isso, os clientes do estatal paulista são em grande
parte funcionários públicos, com renda média bem maior que a da
população em geral, e não raro com mais de uma fonte de renda.
"Essa avaliação, porém, pode durar apenas até a abertura da sala
de dados", observa o executivo. "Porque o Banespa é hoje uma caixa-preta".
Apesar da iminente entrada dos estrangeiros, o lobby nacionalista
continuou fazendo barulho na semana passada. O presidente da câmara,
Michel Temer, voltou a falar sobre o perigo da desnacionalização,
e um grupo de procuradores da República entrou com uma ação na
Justiça Federal tentando impedir o leilão. Os próprios concorrentes
brasileiros, porém, já não acreditam mais na possibilidade de
fechar a porta para o Exterior. Em sua avaliação, o máximo que
pode acontecer é atrasar o processo.
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