16 de fevereiro de 2000 - nº 129 

Quem vai levar?
Peixe grande na rede
Pintou sujeira
Faça o que eu digo...








PRIVATIZAÇÃO
Quem vai levar?
Estrangeiros são a maioria entre os inscritos para o leilão do Banespa - e podem até comprar outros bancos pelo caminho

(Ilustração: ZILBERMAN)

Está aberta a temporada de caça ao Banespa, a privatização que, em uma única batida de martelo, promete mudar a cara do sistema financeiro nacional. Na semana passada, encerrado o período de pré-qualificação, nove concorrentes se inscreveram para a disputa. E deram início ao que pode ser a cabeça de ponte para a chegada de um banco multinacional ao topo do ranking brasileiro. Há bons motivos para esperar esse desembarque. Além dos candidatos estrangeiros formarem maioria de cinco contra quatro, o assunto do momento são as possíveis alianças de concorrentes nacionais com grupos do Exterior. A nova investida do lobby nacionalista no Congresso ou a tentativa de se impugnar na Justiça o processo de venda do banco ficam em segundo plano.

Dois dos inscritos, os espanhóis BBV e Santander, deixaram bem claro que partem para a disputa com a disposição dos touros que entram na arena. Para eles, não se trata apenas de aumentar sua participação no mercado brasileiro, mas de crescer para não serem engolidos por peixes ainda maiores. Os jornais espanhóis têm falado recentemente da possibilidade do Santander sofrer uma oferta hostil de um gigante como o Deutsche Bank. Considerando que a melhor defesa é o ataque, e que é mais fácil e barato se expandir na América Latina que na Europa, o Santander fez uma oferta de US$ 750 milhões para adquirir a totalidade das ações do argentino Rio de La Plata, do qual já possui uma participação. O Banespa seria o passo seguinte. Executivos do BBV também consideram o Banespa um atalho para crescer mais rapidamente. Tomados de surpresa com a compra do Meridional pelo rival madrilenho, os diretores do BBV querem recuperar o espaço perdido. Seu objetivo é crescer das atuais 260 para pelo menos 1.000 agências até o final do ano. Se não conseguirem abocanhar o banco paulista, os estrategistas bascos têm um Plano B: querem comprar três bancos privados de menor porte. A lista teria pelo menos dois alvos favoritos: o Safra e o Finasa.

Mais silenciosos sobre seus planos são os executivos do Citibank. Com apenas 50 agências no Brasil, o Citi quer aumentar sua penetração no varejo, seguindo o perfil que possui nos Estados Unidos. Durante a semana passada, porém, seus assessores atenderam a imprensa para dar apenas duas informações: confirmar que enviaram os documentos para a pré-qualificação e negar os boatos de que o banco se associaria, no leilão, ao brasileiro Safra. "Esperávamos que o Safra entrasse, e o Citi, não. Esperávamos que o banco brasileiro seria a cabeça-de-ponte do americano", diz o diretor de um banco brasileiro que está na disputa. Boatos sobre a aquisição do Safra pelo Citibank não são novos, e representantes das duas instituições têm de fato conversado. Falar sobre o assunto em público, porém, é tabu de ambos os lados.

A semana também foi de silêncio no prédio do Unibanco. Isso porque o banco foi outro que brilhou nos boatos do mercado. Seus concorrentes dão como certo que ele receba uma mãozinha do Exterior para poder entrar no jogo. Associado a um estrangeiro e comprando o Banespa, o Unibanco poderia se tornar o número um do País - o que preocupa Bradesco e Itaú. A fonte dos boatos é o recente aumento de capital da instituição. Sem saber ao certo quem foram os responsáveis pelo aporte de dólares, os diretores de dois bancos estrangeiros sussurram o nome do Bank of America.

Nas fileiras do BankBoston, o vice-presidente financeiro Alex Zornig explica que já tem até prateleira para guardar o troféu Banespa, depois de arrebatá-lo no leilão. "Vamos navegar sob duas bandeiras. Continuamos com as 64 agências do BankBoston no País, e transformamos as do Banespa em pontos do Fleet Group, nossa operação de varejo", explica. Perguntado sobre as conversações Citibank-Safra e sobre a possibilidade de aliar-se com outro concorrente, ele desconversa. "Ainda nem conhecemos em detalhe o pacote que está à venda. Mas, de princípio, não estamos fechados a nenhuma composição".

Revelado quem participará do combate, cada oponente se põe a medir o outro. "Espanhóis e brasileiros estão realmente interessados em comprar. Envie esta página para um amigoNão acredito que os americanos tenham tanta disposição assim para se aventurar no mercado nacional", raciocina um dos banqueiros brasileiros inscritos para a briga. "O HSBC também está seguro com o tamanho que tem." No quartel-general do banco inglês, o que se ouve é diferente. Lá, o banco é cobiçado por preencher uma lacuna decisiva - o mercado de São Paulo - em seu mapa de agências. Segundo um executivo do HSBC, o Banespa é apetitoso porque engordaria em 50% o total de correntistas da instituição. Mais do que isso, os clientes do estatal paulista são em grande parte funcionários públicos, com renda média bem maior que a da população em geral, e não raro com mais de uma fonte de renda. "Essa avaliação, porém, pode durar apenas até a abertura da sala de dados", observa o executivo. "Porque o Banespa é hoje uma caixa-preta".

Apesar da iminente entrada dos estrangeiros, o lobby nacionalista continuou fazendo barulho na semana passada. O presidente da câmara, Michel Temer, voltou a falar sobre o perigo da desnacionalização, e um grupo de procuradores da República entrou com uma ação na Justiça Federal tentando impedir o leilão. Os próprios concorrentes brasileiros, porém, já não acreditam mais na possibilidade de fechar a porta para o Exterior. Em sua avaliação, o máximo que pode acontecer é atrasar o processo.

Copyright© 2000 Revista Dinheiro. Todos os direitos reservados. All rights reserved.