16 de fevereiro de 2000 - nº 129 

Indústria do leilão
Reação verde-amarela
Confusão do euro
Vinte anos parados









CRESCIMENTO
Vinte anos parados
PIB de 1999 coroa duas décadas de desempenho econômico pífio e de renda per capita estagnada

Edson Porto

(Foto: ANDRÉ DUSEK)

Para os investidores que trabalham com um horizonte de 30 minutos, os números do Produto Interno Bruto brasileiro, revelados na semana passada, foram motivo de comemoração - as bolsas chegaram a subir embaladas pela notícia. Não que o crescimento pífio de 0,82% do PIB em 1999, sustentado basicamente na força da agricultura, tenha sido considerado bom por quem quer que seja. Mas, em comparação com as catastróficas previsões do início do ano passado, o resultado azul agradou ao mercado. Quando se olha em perspectiva, porém, o dado é desalentador. Com o desempenho de 1999, o País fecha a década com um crescimento médio ainda mais medíocre do que o dos anos 80: 2,3% contra 2,9%. O mais dramático, no entanto, não está nessa comparação, e sim no desempenho da renda per capita. No ano passado, a renda por cidadão caiu 0,4%. É o segundo ano consecutivo do governo Fernando Henrique em que isso ocorre - em 1998, a queda foi de 1,45%. "A renda per capita é um dos indicadores básicos do desenvolvimento e, no Brasil, ela está parada há 20 anos", diz Antônio Prado, economista do Dieese. Na década de 1980, a taxa média de crescimento da renda per capita ficou em 0,84% e, nos últimos dez anos, ela não passou de 0,34%. "Isso mostra que não estamos conseguindo superar o subdesenvolvimento", completa Prado.

Os resultados do País seriam ainda piores se a taxa de natalidade brasileira não estivesse caindo rapidamente nos últimos anos. Hoje, estima-se que a população cresça 1,4% ao ano. No início dos anos 90, o crescimento estava perto dos 2% e, há quinze anos, era de 2,5%. Isto que dizer que a renda per capita está caindo apesar de o crescimento demográfico ter se reduzido - ao contrário do que diz a tese neomalthusiana de que a raiz de todos os problemas no Terceiro Mundo é o crescimento demográfico. "O problema brasileiro é mesmo de desempenho econômico, não demográfico", diz Marcio Holland, economista da Universidade Federal de Uberlândia.

Envie esta página para um amigo O número anunciado na semana passada animou o governo a voltar a falar de crescimento de 4% do PIB este ano. Mesmo que essa expectativa se concretize, a maioria da população vai demorar a sentir os efeitos. De acordo com um levantamento feito pelo Dieese, há dez anos o crescimento do PIB se refletia integralmente no aumento do emprego. Entre 1986 e 1987, por exemplo, o Brasil cresceu 10% e a ocupação cresceu também 10%. Mas entre 1994 e 1995, o crescimento foi 10%, e os empregos só subiram 5%. A explicação é que houve uma mudança estrutural na relação entre o crescimento do PIB e a oferta de trabalho, por conta da tecnologia e das novas formas de gestão.

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