16 de fevereiro de 2000 - nº 129 

Indústria do leilão
Reação verde-amarela
Confusão do euro
Vinte anos parados









COMÉRCIO EXTERIOR
Reação verde-amarela
Como o setor de eletrônicos reduziu seu déficit comercial

Nelson Rocco

(Foto: CIETE SILVÉRIO)
GISELA, DA MOLINEX: liquidificadores e cafeteiras fabricados no País.

Os fabricantes eletroeletrônicos, conhecidos vilões da balança comercial, estão aderindo à campanha nacionalista. Não, não há nenhum motivo político envolvido na questão. As empresas do setor estão deixando de importar produtos e componentes e passando a fabricá-los em território brasileiro por uma razão econômica: a perda de valor do real tornou o produto local mais vantajoso. Para o resto dos brasileiros, a boa notícia é que o impacto da nova postura das empresas bateu em cheio nas contas do País. No ano passado, o déficit comercial do setor caiu para US$ 6,6 bilhões. E mais: com exceção de agosto, todos os outros meses de 1999 as vendas externas de auto-rádios, geradores, componentes para informática e telefones celulares foram superiores às compras em outros mercados. Nada mau para um setor que em 1997 apresentou um saldo negativo de quase US$ 9 bilhões. "Essa mudança começou em 1998 com a queda da vendas e foi reforçada no ano passado com a crise cambial", diz o economista Antônio Correia de Lacerda.

Um exemplo da nova onda verde-amarela é a francesa Molinex, que comprou a Mallory em abril de 1998. A empresa veio para o Brasil com o objetivo de vender produtos fabricados em suas unidades de outros países. Teve que mudar idéia quando a crise cambial jogou para as alturas os preços dos importados. "Depois da desvalorização do real, não pudemos repassar o aumento de custos aos clientes. A saída foi acelerar nossa produção nacional", conta Gisela Almeida, diretora de marketing. A empresa investiu R$ 2 milhões na produção de cafeteiras nacionais e começou a vendê-las logo em setembro. Deu tão certo que a solução acabou agradando a matriz. Os executivos na França decidiram autorizar a fabricação de liqüidificadores em Itapevi, no interior de São Paulo. A Molinex, que vai conseguir vender o produto 15% e 20% mais barato em relação aos similares importados.

O setor de telecomunicações, em ebulição após a privatização do sistema Telebras, não ficou atrás na troca do importado pelo nacional. As importações para atender as empresas privatizadas encolheram mais de 26% no ano passado, segundo dados da Abinee, a entidade que reúne os fabricantes de eletroeletrônicos. A Motorola, por exemplo, nacionalizou o aparelho telefônico sem fio usado pela Vésper, a concorrente da Telefonica em São Paulo. José Maurício Gomes, diretor comercial, conta que a nacionalização foi uma exigência dos clientes, que agora pagam 50% mais barato. Ainda em 1998, a Philips também decidiu fabricar em Manaus os produtos na área de áudio fabricados no Exterior. A idéia era driblar a burocracia da alfândega e a demora na entrega dos produtos. "A decisão mostrou-se acertada", diz o porta-voz da empresa no Brasil, Guilherme Penteado. Segundo o executivo, as vendas de rádio-gravadores com CD cresceram 140% no ano passado. Outra ação da Philips é o acordo fechado com a Samsung para a fabricação de tubos de imagem para monitores de computador. A linha de montagem da Samsung em Manaus, que estava com capacidade ociosa, vai fornecer para a Philips 7,2 milhões de peças em cinco anos.

Envie esta página para um amigo Mas a onda de valorização do eletrônico nacional tem limites. A abertura comercial atabalhoada dos anos 90 fez terra devastada de vários setores industriais, entre os quais o de componentes eletroeletrônicos. Os especialistas dizem que boa parte dessa perda é irrecuperável, e que a recuperação de outras áreas será demorada. Benjamin Funari Neto, presidente da Abinee, diz que os empresários têm se encontrado com membros do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) para estudar as formas de sair do fundo do poço. As conversas indicaram três níveis de dificuldades. O primeiro inclui os fabricantes de artigos como auto-falantes e circuitos impressos, que podem ter uma produção viável no Brasil imediatamente. Outro, no qual estão circuitos integrados e capacitores, precisaria conquistar mercado externo, para ganhar volume que compense a fabricação no País. No terceiro nível estão os produtos fabricados globalmente - como os chips - cuja fabricação local é claramente antieconômica. A conclusão de Funari Neto é que a recuperação de boa parte da fabricação de componentes é viável. "Economizaríamos US$ 1 bilhão por ano", diz ele.

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