16 de fevereiro de 2000 - nº 129 

Indústria do leilão
Reação verde-amarela
Confusão do euro
Vinte anos parados









PRIVATIZAÇÃO
Indústria do leilão
Um grupo de empresas de consultoria faturou US$ 190 milhões preparando a venda de estatais.
Veja como foi ganho esse dinheiro.

Estela Caparelli

(Foto: BIÔ BARREIRA)
CALABI, DO BNDES: gestor da venda faz parceria com empresas

A cada batida de martelo dos leilões de estatais brasileiras, uma indústria milionária e pouco conhecida vem se fortalecendo: a de consultorias de privatização. São escritórios de advocacia, auditorias, empresas de engenharia e bancos contratados pelo governo exclusivamente para avaliar as estatais e criar modelos de venda. Pelos serviços prestados entre 1991 e 1998, essas empresas receberam dos cofres públicos US$ 187 milhões, segundo DINHEIRO apurou. O número consta de um levantamento feito pelo BNDES, o principal gerente do programa de privatizações brasileiro. A cifra é insignificante se comparada aos U$ 89 bilhões arrecadados com a venda de estatais no mesmo período. O valor, no entanto, é relevante tendo em vista que os recursos foram distribuídos por cerca de 100 companhias nacionais e estrangeiras. Na lista dos conselheiros, figuram as auditorias Deloitte Touche e KPMG, bancos Fator e Graphus, consultoria Rotschild e companhias pouco conhecidas como Projeta e NMR. "É um negócio importante, que vem crescendo nos últimos anos. Agora, nos preparamos para participar da nova fase da venda das estatais, que inclui as geradoras federais e as empresas de saneamento", diz André Castello Branco, sócio da divisão da KPMG, que participou ativamente de privatizações como a da Vale do Rio Doce, Banco do Estado da Bahia e Copesul.

  • 69,7% dos US$ 187 milhões levantados entre 1991 e 1998 pelas consultorias de privatização são referentes ao pagamento de um trabalho conhecido no meio como serviço B. É a tarefa mais complexa porque inclui, além de avaliação econômico-financeira da estatal, a preparação da venda. Esse trabalho é complementado pelo serviço A, que rendeu US$ 15,5 milhões no mesmo período. Trata-se de uma nova avaliação econômico-financeira, usada com uma segunda opinião sobre a empresa analisada.
  • O melhor ano dos negócios foi 1997, quando o governo desembolsou US$ 67,7 milhões para os trabalhos de privatização. O valor é três vezes maior que o faturamento do ano anterior, de US$ 20,8 milhões. Em 1998, os gastos caíram para US$ 10,8 milhões, mesmo com a venda do Sistema Telebras.
  • O negócio de consultoria de privatização surgiu em 1991, com o lançamento do programa nacional de privatização. Naquele ano, rendeu apenas US$ 1,1 milhão. Em 1992, o trabalho ganhou força e, no ano seguinte, US$ 19,4 milhões foram arrecadados.
  • Hoje, pelo menos 100 empresas estão dedicadas ao aconselhamento na privatização. Entre elas, estão as auditorias KPMG e Ernst & Young, bancos Fator e Graphus e as consultorias Projeta e NMR.
  • O pico dos negócios dos consultores de privatizações aconteceu em 1997. Naquele ano, eles faturaram US$ 67,7 milhões. Um ano depois, a receita despencou para US$ 10,8 milhões, mesmo com a venda do Sistema Telebras por R$ 22 bilhões. "Podemos ficar um ano sem participar de um trabalho", afirma Luiz Carlos Passetti, sócio da Ernst & Young. Desde 1998, Passetti e sua equipe cuidam da avaliação econômico-financeira da Cesp, empresa de energia de São Paulo. No chamado serviço A, as empresas - que trabalham em consórcios - recebem um determinado valor por horas trabalhadas para levantar a real situação da empresa. Para isso, vasculham balanços, avaliam o mercado potencial, traçam perspectivas. Até hoje, 8,2% dos US$ 187 milhões arrecadados foram destinados ao pagamento dessa tarefa.

    O trabalho mais caro - e mais complexo - dos conselheiros é o chamado serviço B. Entre 1991 e 1998, US$ 130 milhões foram arrecadados pelos profissionais para fazer uma nova avaliação econômico-financeira e elaborar todo o plano de venda da estatal em questão. É uma longa empreitada que inclui conversas com potenciais compradores, apresentações da empresa à venda em outros países, provisionamento de dívida e conversas com fornecedores. No início de 1998, Passetti, da KPMG, teve que viajar num trem da Rede Ferroviária Federal pelo interior do Mato Grosso para avaliar as condições da locomotiva. Envie esta página para um amigoNo final da viagem, teve que dormir em um casebre afastado da cidade porque o outro trem só sairia no dia seguinte. "Fomos pegos de surpresa. Faz parte do trabalho", brinca Passetti. Deve valer a pena. Pelo trabalho completo, as empresas recebem um pequeno percentual sobre o que é arrecadado nos leilões. Se depender das privatizações que vêm por aí, o negócio deve render alguns milhões de dólares a mais.

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