16 de fevereiro de 2000 - nº 129 

A nova vitrine da Americanas
Nó na internet?
Janela para a rede








CAPA
Janela para a rede
Windows 2000 abrirá a Internet à Microsoft. Ou...

Ivan Martins e Lino Rodrigues

(Foto: BIÔ BARREIRA)
TUDO PRONTO: A contagem regressiva está no final. Começa a corrida para a distribuição do novo produto.

Na festa de garagem com que três mil programadores da Microsoft celebraram a conclusão do Windows 2000, em 15 de dezembro passado, Bill Gates tomou a palavra e anunciou, peremptoriamente, que o novo sistema operacional iria "mudar a maneira como se faz computação". Havia muita cerveja no recinto e a euforia corria solta em Redmond, depois de quatro anos de trabalho ininterrupto. Mas não foi por isso que Gates exagerou. Além de afagar os dedicados criadores do seu novo carro-chefe, o auto nomeado arquiteto-chefe de programas da Microsoft queria anunciar uma batalha. O lançamento mundial do Windows 2000, nesta Quinta-feira 17, põe na rua o mais ambicioso projeto da Microsoft desde 1995, quando foi apresentado ao mundo o navegador Internet Explorer. Com este novo programa, desenhado para substituir o Windows NT no controle de redes de computadores corporativas, a maior empresa de software do mundo pretende abrir uma trincheira no terreno mais promissor da indústria de informática - o dos programas empresariais para a Internet. O Windows 2000 foi desenhado para colocar as empresas na rede de forma fácil e segura, permitindo comércio eletrônico, montagem e gerenciamento de sites. Além disso, oferece uma série de comodidades para que as empresas transacionem entre si pela rede - ou para que seus funcionários trabalhem em qualquer lugar do mundo, com acesso pela Internet aos seus arquivos pessoais. Se o programa for aceito, colocará a Microsoft em uma posição dominante no mundo bilionário do .com. Se for recusado, ou tiver uma aceitação inferior à dos produtos concorrentes da Sun, Oracle e Novell, a empresa estará em apuros.

"Isto é a própria vida para a Microsoft", afirma Steve Ballmer, o novo presidente da companhia. Com um faturamento anual de US$ 25 bilhões e controle quase monopolístico do mercado mundial de programas para microcomputadores - o que lhe vale suspeitas e processos da justiça americana -, a empresa de Ballmer e Gates é um gigante na encruzilhada. Os lucros da Microsoft no último trimestre de 1999 cresceram 22% e a empresa tem em caixa reservas de US$ 19 bilhões, mas há um problema: em plena Era da Internet, o grosso do seu faturamento vem da venda de programas como o Windows e o Office, que funcionam desconectados da rede. Se a Internet é o futuro, a Microsoft está com o pé no passado. É por isso que Gates enviou recentemente um memorando aos seus 31 mil funcionários exortando para que eles abraçassem a tarefa de criar software "que melhore a maneira como as pessoas se relacionam com a Internet", explicando que essa é "uma revolução ainda mais importante do que foram as interfaces gráficas (do Windows)". Gates quer que a empresa mais bem-sucedida do mundo reinvente a si mesma e embarque numa cruzada para levar seus programas à Internet. O objetivo final é tornar os programas da Microsoft tão importantes na rede como já são fora dela. Gates espera vê-los instalados em aparelhos de comunicação de vários tamanhos e utilidades, regidos por um novo sistema operacional que funcionaria distribuído entre os nós da Internet. Seria, nas palavras de Ballmer, uma "versão do Windows que habita a Web e que todo mundo compartilha". O embrião dessa criatura virtual é o Windows 2000.

"O novo sistema facilita a administração da rede interna de computadores e sua ligação à Internet", afirma Francisco Manuel Coelho, gerente-geral de tecnologia do banco BBA, de São Paulo. O BBA foi uma das mais de 100 empresas brasileiras que receberam uma versão semifinal do produto para testes. No mundo todo, foram distribuídas 450 mil dessas cópias beta, como são conhecidas no jargão do mercado. A idéia era descobrir e corrigir os erros antes do lançamento final. Até o dia 17, quando a atriz Carolina Ferraz subirá ao palco da casa de espetáculos paulistana Via Funchal para apresentar o Windows 2000, o programa terá de estar rodando como bicicleta em piso de mármore - ao menos é o que esperam Luiz Marcelo Moncau e João Bortone, respectivamente diretor e gerente de marketing da Microsoft do Brasil. Os dois estão desde dezembro em contagem regressiva para o lançamento, que vai custar R$ 7 milhões e envolver os 250 funcionários da filial brasileira. Na semana passada, a máquina de distribuição já estava em movimento para colocar o novo produto em 3 mil revendas do País. Na outra ponta, 100 atendentes de telemarketing contratados para a ocasião ultimavam os preparativos para resolver as dúvidas e problemas dos clientes. Quem pagar os R$ 500 que serão cobrados pelo produto nas lojas - ou R$ 900 na versão usada nos computadores que comandam as redes empresariais - vai exigir suporte. "Essa mudança será menos traumática do que foi a do Windows 95", prevê Moncau. Explica-se: o Windows NT, que será substituído pelo 2000, tem uma base de usuários empresariais infinitamente menor que os mais de 200 milhões que usam as versões populares do Windows ao redor do mundo. Para essa massa de clientes, o substituto do Windows 98 virá no segundo semestre, com o nome de Windows Millennium.

"Marketing agressivo e milionário funciona com leigos, mas os técnicos nas empresas não se deixam levar pela propaganda", afirma Paulo Delegá, diretor de marketing da Novell no Brasil, a mais tradicional fornecedora de software para redes empresariais e concorrente feroz da criadora do Windows. Na verdade, o NT da Microsoft já controla mais de 40% das redes corporativas brasileiras - em números da Fundação Getúlio Vargas - e tem crescido com muito rapidez desde 1993, quando foi lançado. A Microsoft afirma que 70% dos computadores que controlam redes corporativas, os chamados servidores, já estão saindo de fábrica com o NT. Logo, o 2000 começa vida com uma boa herança. Ao mesmo tempo, porém, o mercado brasileiro aponta uma tendência de crescimento do Linux, o programa de rede criado por um estudante finlandês que se tornou uma espécie de bandeira libertária entre os especialistas que não gostam da Microsoft e do seu poderio. O Linux pode ser apanhado de graça na rede e, no Brasil, tem suporte técnico da paranaense Conectiva. "O Windows 2000 é para empresas americanas, que não se preocupam com o preço dos equipamentos", diz Sandro Nunes Henrique, presidente da Conectiva. Ele bate na tecla de que para abrigar os 30 milhões de linhas de instrução do novo programa da Microsoft, as empresas terão de comprar computadores mais potentes e mais caros do que os que atualmente usam o NT ou seus concorrentes. A Microsoft diz que isso não é verdade, e que as mesmas máquinas suportam bem os dois programas. Veja o que diz Coelho, responsável pelo teste do Windows 2000 no BBA: "Estamos investindo US$ 240 mil na troca de 100 máquinas que ficaram lentas com a instalação do Windows 2000".

Envie esta página para um amigo Isso não seria novidade. Em todas as ocasiões em que a Microsoft fez evolução de programas, as empresas tiveram que meter a mão no bolso para comprar novos equipamentos. Esse fenômeno, do qual todo mundo reclama, nunca impediu que os novos produtos da empresa de Gates triunfassem. Os clientes fazem as contas e decidem que é mais barato gastar do que ficar para trás. O risco agora é outro - e muito maior. Com o deslocamento do eixo de negócios para a Internet, as empresas podem estar menos propensas a investir na produtividade do computador de mesa, que sempre foi o grande apelo dos produtos da Microsoft. Para conquistar os corações e mentes corporativos, o Windows 2000 terá de aumentar a produtividade da Internet. Só assim poderá mudar o fato de que apenas 5% do comércio eletrônico é feito com programas da Microsoft. Ou superar a constatação em pesquisa de que a marca que inspira mais confiança aos comerciantes da rede é a IBM. Trata-se, como já disse Ballmer, de uma questão de vida ou morte. Mais uma, nos 20 anos da Microsoft.

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