09 de fevereiro de 2000 - nº 128 








DINHEIRO DA REDAÇÃO
Caldo de cultura

Luiz Fernando Sá

A indústria farmacêutica, com orçamentos que deixam doente o nosso ministro da Saúde, é capaz de feitos extraordinários. Com investimentos bilionários em pesquisas, os grandes laboratórios mantêm cientistas em ação nas grandes universidades, financiam a nobre missão de procurar, à exaustão, curas para os males que assolam bilhões de pessoas em todo o mundo. Têm conseguido vitórias espetaculares e merecem crédito quando se comprova o quanto a medicina contribuiu para aumentar a qualidade de vida no planeta nas últimas décadas. Mas há que se debitar em sua conta parte do deprimente cenário de desigualdade entre países ricos e pobres. Quando deixam de lado seu papel humanitário e agem apenas como indústria, apresentam a nota de sua pujança aos povos do Terceiro Mundo, por meio de práticas comerciais duvidosas e preços absurdos. Assim, aqueles que mais necessitam são os que menos têm acesso aos medicamentos.

Qualquer cientista juvenil, em seu laboratório doméstico, sabe que pragas se proliferam mais facilmente onde encontram um caldo de cultura favorável. Não é por outro motivo que os brasileiros são obrigados hoje a assistir o lamentável desenrolar da chamada CPI dos medicamentos, em que representantes da indústria e do governo apresentam seus números no afã de provar se os preços dos remédios à venda no País são ou não justos - do ponto de vista estritamente comercial, é claro. Quem vai às farmácias já sabe a resposta há muito tempo, poderia ser poupado dessa discussão. Deveriam nos poupar também do triste espetáculo protagonizado pelo presidente FHC. Ao ver seus ministros usando a questão dos medicamentos como mote para seus embates políticos, ele primeiro estimulou o confronto. Depois, interveio. Não tomou partido, dando uma solução para o caso em favor dos seus eleitores, como era de se esperar. Vítima de um mal congênito, que o impede de tomar decisões, apenas pediu que o assunto fosse esquecido. É incurável.

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