09 de fevereiro de 2000 - nº 128 

Pré-datado de plástico
O cerco aperta sobre Chico Lopes
O dínamo da E * Trade
Fundo perdido
O touro pula a cerca







INVESTIMENTO
Fundo perdido
Taxas de administração gigantes podem tomar todo o lucro dos investidores

(Foto: TATO)

Lucia Kassai

Para que serve um fundo de investimentos? Para dar dinheiro para o investidor e o administrador, responderão todos. Ao entregar seu dinheiro a especialistas, o cliente espera uma rentabilidade minimamente razoável, acima de investimentos banais como a poupança. E os gestores, que conduzirão a bolada por mares turbulentos da economia, garantem sua remuneração cobrando taxas de administração e performance (geralmente em torno dos 2,5%). Até aí, tudo funciona bem. O problema é quando as taxas parecem escandalosamente altas e a rentabilidade ridiculamente baixa. Um fundo como o Agenda Carteira Livre, da Agenda Corretora, cobra 8% para cuidar do dinheiro dos clientes, mas dificilmente há quem reclame ao constatar que a rentabilidade foi de 153,42% no ano passado, superando o Ibovespa. Mas o que dirão os clientes do Banrisul Automático, que rendeu 3,66% (menos de um terço do rendimento da poupança) e levou os clientes a morrer com 12% de taxa de administração? Em alguns casos, o susto pode ser ainda maior. A fatia dos administradores às vezes chega a 20%, engolindo todo o lucro que o cotista poderia ter. Com os juros de hoje, um fundo rende, no máximo, 19% por ano. Ou seja, quem entrar em janeiro com R$ 100 sairá em dezembro com R$ 95,20 no bolso e um gosto amargo de prejuízo na boca. "Se a taxa de administração estiver próxima da taxa de juros, o investidor é candidato certo a perder dinheiro", explica Cássio Bariani, da consultoria InvestTracker.

Quem cobra mais
As taxas mais altas do mercado

Banco Cidade FIF Curto Prazo
Taxa de administração: 20%
Rentabilidade em 1999: 0,18%
Patrimônio: R$ 36,6 milhões

Rend (BBV)
Taxa de administração: 15%
Rentabilidade em 1999: 2,11%
Patrimônio: R$ 55,6 milhões

BNL Ações
Taxa de administração: 12%
Rentabilidade: 27,69%
Patrimônio: R$ 1,5 milhão

Banrisul Automático
Taxa de administração: 12%
Rentabilidade: 3,66%
Patrimônio: R$ 531,8 milhões

Banespa Curto Prazo Plus
Taxa de Administração: 6,5%
Rentabilidade: 8,69%
Patrimônio: R$ 95,2 milhões

Para atrair o investidor, os bancos têm apelado para táticas de guerra. O artifício da moda é não cobrar a famigerada CPMF, de 0,38%. Mas essa aparente vantagem pode não passar de propaganda. O Cidade Asset Management, do Banco Cidade, poupa a freguesia do valor do imposto, mas seu FIF Curto Prazo cobra 20% para jogar com os 36 milhões de reais de seu patrimônio. "Este fundo é ideal para quem movimenta muito a conta. A taxa de administração parece alta, mas é compensada pela isenção do CPMF", garante Isaac Kafif, diretor da administradora. Não é o que mostram os números do ano passado. Em 1999, quem deixou R$ 100 investidos no Cidade FIF Curto Prazo festejou a chegada do milênio com lucro de R$ 0,18.

Os gestores são rápidos no gatilho para aumentar as taxas de administração quando lhes é conveniente. Infelizmente, não fazem questão de baixá-las quando isso seria possível. Veja-se o caso do Banespa. Quando os juros subiram, no começo do ano passado, os gestores convocaram assembléias e quadruplicaram a proporção que era descontada do Banespa Curto Prazo Plus - de 1,5% para 6,5%. Quando os juros caíram, não houve a mesma agilidade para reduzir o quinhão do administrador. "Poderíamos ter convocado uma assembléia para sugerir uma redução, mas não fizemos", admite Orlando Zainaghi, administrador do fundo, evitando entrar em maiores detalhes. O mesmo banco oferece outra opção de investimento com o mesmo perfil, o Banespa Top, que cobra taxa de apenas 3,5%. "Por que alguém iria aplicar num fundo que cobra uma taxa de 6,5% quando outro, semelhante, cobra 3,5%?", diz o próprio Zainaghi. De fato, há R$ 408 milhões aplicados no Top, contra R$ 95 milhões no Curto Prazo Plus. Não se sabe se todos os cotistas do time dos 6,5% estão informados da existência da opção mais barata.

O Banco Central chegou a cogitar a limitação da taxa de performance, que poderia ser cobrada apenas de grandes investidores. A medida não chegou a entrar em vigor, mas muitos operadores, por conta própria, eliminaram a cobrança - e aumentaram a taxa de administração. Foi o raciocínio do HSBC Asset Management, que elevou a proporção descontada do PoupMais e PoupMais 30 Diário de 1,5% para 2,5%, no ano passado. "A taxa de performance causava muita confusão", diz Renato Ramos, diretor da empresa. Envie esta página para um amigo Perguntados, os administradores listam uma infinidade de motivos para explicar por que cobram taxas acima da média. Há os custos de envio das informações, das taxas de fiscalização da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), da publicação do balanço e das auditorias - que, dependendo da composição do fundo, são mais complicadas. Mas não adiante. Para os cotistas, fica sempre a desconfiança de que o que aumentou foi a margem de lucro do operador.

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