09 de fevereiro de 2000 - nº 128 








(Foto: GUSTAVO LOURENÇÃO)

FRANCISCO LOUREIRO
“Internet é como hambúrger”
O homem que trouxe a AOL para o Brasil e hoje está na StarMedia diz que para vencer na rede é preciso tratá-la como mais um produto de consumo

Lino Rodrigues

O carioca Francisco Alberto Loureiro, 47 anos, protagonizou um dos episódios mais surpreendentes na recente trajetória da Internet brasileira. Com uma vasta experiência adquirida nas principais empresas de telecomunicações do planeta - Embratel, Sprint, IntelSat, Global Telecon e Global One -, Loureiro foi guindado ao posto de presidente da AOL Brasil em meados do ano passado, um dos cargos mais cobiçados na época. Com a missão de montar no País toda a operação da America OnLine, maior provedora de acesso à rede no mundo, Loureiro mal esquentou a cadeira de presidente local. Oito meses após assumir o cargo e 15 dias depois de colocar o provedor no ar, o mercado foi surpreendido com a notícia de sua saída da companhia - até hoje mal explicada. Nessa entrevista a DINHEIRO, em que fala pela primeira vez abertamente sobre o caso, ele dá a entender que mantinha um relacionamento complicado com os homens de Steve Case e com os venezuelanos do Grupo Cisnero, parceiro da AOL na empreitada latino-americana. Apesar da experiência mal-sucedida, não faltaram convites para trabalhar no lado da concorrência. Na semana passada, a StarMedia anunciou uma ampla reestruturação na companhia para abrigar Loureiro e Luis Mário Bilenky, ex-Blockbuster. A dupla vai tocar toda a operação da StarMedia na região e se reportar diretamente a Fernando Espuelas e Jack Chen, os fundadores da empresa. Com as malas prontas para embarcar para Nova York, Loureiro recebeu DINHEIRO na segunda-feira 31.

DINHEIRO - Como foi a sua saída da AOL?
FRANCISCO LOUREIRO - Existe uma questão que é como a direção da empresa se relaciona com os seus funcionários e acionistas. Eu sempre tive um relacionamento extremamente positivo com todas as áreas da empresa. Tanto com os colegas quanto com a diretoria, os acionistas, o chefe e todo o pessoal que carrega realmente a empresa. O que aconteceu é que em algum momento comecei a sentir que o meu posicionamento dentro da empresa não era apreciado no nível que eu gostaria que fosse. Comecei a achar que, no longo prazo, não teria muito espaço dentro da companhia. Comecei a pensar também que o modelo daquele negócio não me empolgava mais. Um modelo baseado em fórmulas pré-determinadas se torna muito vulnerável. Eu trabalho envolvido nesse negócio de acesso há mais de quatro anos, desde o começo da Global One. Para sobreviver nele é preciso ser muito agressivo.

DINHEIRO - A empresa não se mostrou aberta para as suas alternativas?
LOUREIRO - A AOL é uma empresa extremamente bem-sucedida no mundo todo e com um modelo determinado. É compreensível que reaja a qualquer idéia nova. O que aconteceu é que chegou uma certa hora que achei que a coisa não ia funcionar bem. Eles davam pouco crédito às minhas posições. Nesse momento, chegamos a conclusão que a relação não tinha mais futuro, e rompemos.

DINHEIRO - Chegou-se a comentar no mercado que o sr. tinha um estilo próprio para tocar a operação no Brasil, sem aceitar muito as determinações da matriz.
LOUREIRO - É claro que qualquer relação de empresa com o seu principal executivo há uma questão de estilo. Mas não tivemos conflito de poder ou por causa de meu jeito independente. Eu trabalho para a empresa, sempre foi assim.

DINHEIRO - O sr. chegou a falar com o presidente da empresa, Steve Case, sobre a sua saída?
LOUREIRO - Não. Eu não tinha acesso ao Steve Case.

DINHEIRO - A chegada da AOL ao Brasil causou uma verdadeira revolução e mudou rapidamente a dinâmica desse mercado. Depois foi a vez dos provedores de acesso gratuito. Como o sr. avalia esse momento do mercado brasileiro de Internet?
LOUREIRO - Eu achava que a AOL tinha que começar oferecendo um acesso bem barato e preparada para atuar no mercado de acesso gratuito. Essa mudança da estrutura de mercado e a criação de um novo modelo de negócio ainda está transcorrendo e é difícil saber o que vai acontecer. O fato é que a Internet gratuita é uma nova realidade. E vai ter efeitos extremamente positivos para o mercado, principalmente no que diz respeito à expansão da base de usuários. A barreira do custo era um componente que diminuía a velocidade de entrada de novos usuários. Toda vez que existe uma nova oferta, o mercado consumidor em geral tem um foco de atenção muito maior e, portanto, capta mais informações e se motiva a participar dele. Então, esse é o momento de um inflexão da curva e do mercado brasileiro reagir positivamente à Internet.

DINHEIRO - Há pouco mais de seis meses se falava que esse mercado de provedores acabaria se reduzindo a cinco grandes empresas de acesso à rede. E agora? O que mudou com a chegada dessas companhias de acesso livre?
LOUREIRO - Certamente os grandes provedores vão continuar a oferecer serviços pagos e baseados em conteúdo exclusivo. Não acredito que o modelo de Internet paga vá desaparecer totalmente ou muito rapidamente, seja em função do poder de fogo de algumas dessas grandes empresas, seja pela falta de atratividade econômica para que os provedores gratuitos se dirijam aos pequenos mercados. Então, vão continuar existindo alguns provedores grandes com conteúdo exclusivo como AOL, UOL, ZAZ, mas com uma participação bem menor no mercado em relação à que tinham antes do advento da Internet gratuita. É uma posição frágil e, portanto, uma ameaça séria para quem cobra pelo acesso. Já os negócios baseados em conteúdo vão se beneficiar dessa aceleração da Internet.

DINHEIRO - A StarMedia, empresa em que o sr. acaba de assumir o cargo de vice-presidente, é considerada um divisor de águas no mercado de Internet latino-americano. O que muda com a sua chegada?
LOUREIRO - Temos uma das marcas mais conhecidas da região. Somos um portal horizontal, temos conteúdo variado, cobrimos as áreas de maior interesse do consumidor e temos nossas ofertas de correio eletrônico, bate-papo. Também temos outras marcas adquiridas pela companhia como Cade?, Zeek, LatinRed e OpenChile, que continuaremos explorando. Essa combinação de marcas é que fortalece a StarMedia. Mas já estamos trabalhando em novas ofertas verticais para a Internet. Vamos oferecer a Internet através do telefone celular, da banda larga em qualquer que seja o meio de acesso (cabo, fibra, set-up-box). Estamos desenvolvendo conteúdos específicos para cada uma dessas formas de acesso, com o objetivo de estender continuamente a nossa base de usuários. Na medida que se tem usuários que podem vir para a StarMedia quando estão em movimento, utilizando celular fora da base deles ou quando estão em ambientes que exigem conteúdo mais avançado, temos que ampliar nossos serviços e fazer a nossa divisão de banda larga uma grande operação. Queremos estar na cabeça das pessoas em qualquer que seja a situação.

DINHEIRO - A idéia da StarMedia de juntar dois executivos de áreas diferentes, o sr. com experiência em telecomunicações, e o Luiz Mário Bilenky, um homem do varejo que passou pela Fotóptica, Blockbuster e McDonald’s, é uma forma de focar a companhia em serviços de Internet fora do PC?
LOUREIRO - O conceito que existe é que o negócio Internet é consumo, e o consumidor está em qualquer lugar. O consumidor da Internet é o mesmo que almoça no McDonald’s, aluga um filme na Blockbuster. Na Internet, esse consumidor se comporta com os mesmo valores e padrões de referência. É essa idéia que eu e o Luiz Mário queremos implantar na companhia: fazer com que qualquer pessoa tenha uma experiência agradável na Internet com comércio eletrônico. Queremos que ele se sinta como se estivesse dentro de uma loja, mas dentro de um ambiente com qualidade uniforme. A idéia do Fernando (Espuelas) e do Jack (Chen), os donos da companhia, é que a combinação entre nós dois trará uma nova vantagem competitiva para a StarMedia. Não deixa de ser uma inovação dentro de uma empresa de Internet do ponto de vista de gerência, como já aconteceu com Michel Dell, da Dell, e Jeff Bezos, da Amazon, que contrataram profissionais para levar as companhias adiante. Vamos tocas a empresa e abrir espaço para a criação de outros negócios fora dessa unidade que estamos gerindo, que, na verdade, é a companhia toda.

DINHEIRO - Quando o sr. fala em abrir espaço fora da empresa está falando em criar novas companhias?
LOUREIRO - Não. A idéia é criar novas unidades de negócios.

DINHEIRO - A StarMedia é vista pelo mercado como uma empresa criada pelo marketing. Uma fachada para ganhar visibilidade em Wall Street.
LOUREIRO - Eu acho extremamente positivo ser muito marketing. Esse é um negócio de mercado de consumo e o marketing é a ferramenta fundamental para que isso funcione. Existem, e agora estando dentro da empresa sei que é completamente infundado, comentários de que a StarMedia tem interesse apenas em Wall Street. Para fazer marketing para Wall Street, primeiro pressupõe-se que Wall Street é composto por pessoas inocentes. Ao contrário, as pessoas mais argutas e que colocam a maior quantidade de dinheiro do mundo em negócios estão lá. Eles são extremamente cuidadosos. E, segundo, se fosse para criar só uma fachada, a StarMedia não teria operações em dez países, 14 escritórios e 750 funcionários. Daria para fazer isso bem mais barato. Então, essa percepção não é verdadeira. Essa empresa, e o Fernando me disse isso, tem o objetivo de ser líder de mercado e estabelecer um novo referencial de negócio na Internet.

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