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CRÉDITO
ILEGAL
Sob
a amarra dos agiotas
A prática de emprestar dinheiro ilegalmente e a
juros escorchantes se transforma em complemento de renda da classe
média, avança pelo interior do Brasil e já atinge 2 milhões de
pessoas
Estela Caparelli e Sérgio Lírio
Em meio ao desaquecimento econômico, pelo menos uma atividade
está em plena expansão no Brasil: a agiotagem. A velha prática,
que tradicionalmente estava concentrada nas mãos de grupos de
foras-da-lei nas principais capitais, se alastra pelo interior
do País e ganha uma nova função: a de complemento de renda da
classe média. Por conta disso, tranformou-se em uma verdadeira
epidemia. “A agiotagem atinge dois milhões de brasileiros e movimenta
R$ 10 bilhões anualmente”, revela Rui Coutinho, ex-diretor da
Secretaria de Direito Ecônomico, coordenador do mais completo
estudo já realizado sobre o assunto no País. O levantamento, ao
qual DINHEIRO teve acesso em primeira mão, aponta as principais
praças de atuação dos agiotas, a partir de dados coletados no
Banco Central. A cartografia dos juros escorchantes mostra que,
sem sofrer qualquer ameaça do Banco Central ou da Justiça, eles
deixaram de se concentrar nas regiões metropolinas de São Paulo
e Rio de Janeiro e hoje operam ilegalmente em cidades como Araçatuba
(SP), Ubá (MG) e Goiânia (GO).
“A falta de crédito para agricultores e as dificuldades enfrentadas por pessoas que migraram do campo para a cidade acabam estimulando os empréstimos irregulares”, diz Miguel Ribeiro, presidente da Associação Nacional dos Executivos de Finanças (Anefac). A agricultura realmente sofre com a falta de recursos. Para se ter uma idéia, os RS 11 bilhões emprestados pelo governo ao campo representam 15% de tudo o que era concedido no início da década de 90. “Mesmo sabendo dos riscos, eu precisava do dinheiro. Não conseguiria de outra forma porque já estava endividado”, diz um agricultor de Goiânia, que preferiu não ser identificado. Ele emprestou R$ 10 mil, mas, com os juros, a dívida subiu para R$ 30 mil. “Agora, realmente não tenho como pagar”.
Ainda no Interior, fora de áreas agrícolas, os agiotas aproveitam a desinformação da clientela. Um exemplo disso aconteceu no ano passado em Itapira, cidade de 70 mil habitantes próxima a Campinas. Uma empresa, conhecida como Unita Factoring, quebrou em junho depois de financiar dívidas do grupo ao qual pertencia, o VF. Com a falência da empresa, mais de R$ 38 milhões depositados por clientes em forma de garantias ou de investimentos desapareceram da noite para o dia. Os escritórios do grupo, que funcionavam em cidades como São Paulo e Ribeirão Preto, fora fechados, mas os donos continuam foragidos.
Ninguém arrisca dizer quais são as taxas de crescimento do negócio no Brasil, mas técnicos do governo confirmam a tendência de expansão. “O número de denúncias é muito maior hoje, mas é impossível organizar os dados de uma prática marginal como essa”, diz um técnico do Banco Central especializado no assunto. Nas grandes cidades, o quadro é ainda mais preocupante. O aumento do desemprego - que está em 19%, segundo o Dieese - deixou muitas famílias endividadas. Alia-se a esse fato a queda na renda dos brasileiros. O resultado pode ser constatado todos os dias nas portas das grandes fábricas de veículos da região do ABC paulista. No portão principal da Volkswagen, em São Bernardo do Campo, seis agiotas comandam a movimentação financeira ilegal, em meio a barracas de produtos contrabandeados. “Há dois anos, os negócios estão crescendo. Só ajudo o pessoal que está em dificuldades”, diz um agiota, que cobra 10% de juros da sua clientela. “Já consegui comprar duas casinhas com o dinheiro emprestado.” Os juros cobrados, realmente, são um bom investimento. Estudo da Anefac mostra que a taxa média de juros é de 28% ao mês, mas pode chegar a 35%.
Mini-bancos
O mais grave é que a agiotagem deixou de ser vista como uma prática
criminosa para se transformar em uma forma de engordar a renda
familiar. É cada vez mais comum encontrar pessoas que decidem
emprestar dinheiro - inclusive para parentes e amigos -- para
aumentar seus rendimentos. Resultado: padeiros, secretárias, funcionários
públicos transformam-se em mini-bancos. “Os juros cobrados pelos
empréstimos são uma forma de compensar a queda do retorno oferecido
por investimentos como a poupança”, confirma Miguel Ribeiro, vice-presidente
da Associação Nacional de Executivos de Finanças (Anefac). Foi
assim que o taxista M.R. tornou-se um agiota, há três anos. Hoje,
ele tem 25 clientes e ganha R$ 7 mil cobrando juros, R$ 2 mil
a mais do que seus ganhos como taxista. A poupança feita com o
dinheiro da agiotagem permitiu que M.R. comprasse um outro táxi,
alugado para outro colega. “Tenho que indicar clientes para outros
agiotas porque não dou conta dos pedidos”, diz o agiota. “Quero
continuar emprestando para comprar casas e alugá-las.” O taxista
costuma indicar clientes para agiotas que trabalham em um conjunto
de edifícios de negócios na avenida Juscelino Kubitscke, na Zona
Sul de São Paulo. “Há secretárias e funcionários que emprestam
dinheiro”, diz.
Os agiotas agem livremente porque sabem que não há
nenhuma fiscalização. Com a extinção das Delegacias do Consumidor,
só resta às vítimas as delegacias comuns. Isso porque o Banco
Central, que costumava tratar do assunto, lavou as mãos para o
problema. No Ministério da Justiça, o assunto foi deixado de lado
após a queda do ex-ministro Renan Calheiros, em ... Será retomado
nos próximos meses, segundo Paulo de Tarso, diretor da SDE, ligada
à pasta. “O País precisa enfrentar a agiotagem”, diz. A atuação
do ministério, no entanto, é criticada por quem passou por lá.
“O fato é que o combate à agiotagem tem que ser contínuo e esse
não parece ser um tema que interessa ao ministro da Justiça, José
Carlos Dias”, alfineta Rui Coutinho, que hoje assessora o BNDES.
Coutinho lembra que foi na gestão de Calheiro que uma Medida Provisória
foi lançada para eliminar a prática. Dois anos depois de edição
da MP, a agiotagem continua se espalhando pelo país. Não é considerada
crime porque, para que isso aconteça, seria necessária a aprovação
de um projeto de lei que está parado na Câmara dos Deputados.
Os agiotas, cada vez mais ricos, agradecem.
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