09 de fevereiro de 2000 - nº 128 

Sob a amarra dos agiotas
E agora, AmBev?
Eureka!
O cerco alemão ao FMI







(Foto: KEYSTONE)

CRÉDITO ILEGAL
Sob a amarra dos agiotas
A prática de emprestar dinheiro ilegalmente e a juros escorchantes se transforma em complemento de renda da classe média, avança pelo interior do Brasil e já atinge 2 milhões de pessoas

Estela Caparelli e Sérgio Lírio

Em meio ao desaquecimento econômico, pelo menos uma atividade está em plena expansão no Brasil: a agiotagem. A velha prática, que tradicionalmente estava concentrada nas mãos de grupos de foras-da-lei nas principais capitais, se alastra pelo interior do País e ganha uma nova função: a de complemento de renda da classe média. Por conta disso, tranformou-se em uma verdadeira epidemia. “A agiotagem atinge dois milhões de brasileiros e movimenta R$ 10 bilhões anualmente”, revela Rui Coutinho, ex-diretor da Secretaria de Direito Ecônomico, coordenador do mais completo estudo já realizado sobre o assunto no País. O levantamento, ao qual DINHEIRO teve acesso em primeira mão, aponta as principais praças de atuação dos agiotas, a partir de dados coletados no Banco Central. A cartografia dos juros escorchantes mostra que, sem sofrer qualquer ameaça do Banco Central ou da Justiça, eles deixaram de se concentrar nas regiões metropolinas de São Paulo e Rio de Janeiro e hoje operam ilegalmente em cidades como Araçatuba (SP), Ubá (MG) e Goiânia (GO).

“A falta de crédito para agricultores e as dificuldades enfrentadas por pessoas que migraram do campo para a cidade acabam estimulando os empréstimos irregulares”, diz Miguel Ribeiro, presidente da Associação Nacional dos Executivos de Finanças (Anefac). A agricultura realmente sofre com a falta de recursos. Para se ter uma idéia, os RS 11 bilhões emprestados pelo governo ao campo representam 15% de tudo o que era concedido no início da década de 90. “Mesmo sabendo dos riscos, eu precisava do dinheiro. Não conseguiria de outra forma porque já estava endividado”, diz um agricultor de Goiânia, que preferiu não ser identificado. Ele emprestou R$ 10 mil, mas, com os juros, a dívida subiu para R$ 30 mil. “Agora, realmente não tenho como pagar”.

Ainda no Interior, fora de áreas agrícolas, os agiotas aproveitam a desinformação da clientela. Um exemplo disso aconteceu no ano passado em Itapira, cidade de 70 mil habitantes próxima a Campinas. Uma empresa, conhecida como Unita Factoring, quebrou em junho depois de financiar dívidas do grupo ao qual pertencia, o VF. Com a falência da empresa, mais de R$ 38 milhões depositados por clientes em forma de garantias ou de investimentos desapareceram da noite para o dia. Os escritórios do grupo, que funcionavam em cidades como São Paulo e Ribeirão Preto, fora fechados, mas os donos continuam foragidos.

Ninguém arrisca dizer quais são as taxas de crescimento do negócio no Brasil, mas técnicos do governo confirmam a tendência de expansão. “O número de denúncias é muito maior hoje, mas é impossível organizar os dados de uma prática marginal como essa”, diz um técnico do Banco Central especializado no assunto. Nas grandes cidades, o quadro é ainda mais preocupante. O aumento do desemprego - que está em 19%, segundo o Dieese - deixou muitas famílias endividadas. Alia-se a esse fato a queda na renda dos brasileiros. O resultado pode ser constatado todos os dias nas portas das grandes fábricas de veículos da região do ABC paulista. No portão principal da Volkswagen, em São Bernardo do Campo, seis agiotas comandam a movimentação financeira ilegal, em meio a barracas de produtos contrabandeados. “Há dois anos, os negócios estão crescendo. Só ajudo o pessoal que está em dificuldades”, diz um agiota, que cobra 10% de juros da sua clientela. “Já consegui comprar duas casinhas com o dinheiro emprestado.” Os juros cobrados, realmente, são um bom investimento. Estudo da Anefac mostra que a taxa média de juros é de 28% ao mês, mas pode chegar a 35%.

Mini-bancos
O mais grave é que a agiotagem deixou de ser vista como uma prática criminosa para se transformar em uma forma de engordar a renda familiar. É cada vez mais comum encontrar pessoas que decidem emprestar dinheiro - inclusive para parentes e amigos -- para aumentar seus rendimentos. Resultado: padeiros, secretárias, funcionários públicos transformam-se em mini-bancos. “Os juros cobrados pelos empréstimos são uma forma de compensar a queda do retorno oferecido por investimentos como a poupança”, confirma Miguel Ribeiro, vice-presidente da Associação Nacional de Executivos de Finanças (Anefac). Foi assim que o taxista M.R. tornou-se um agiota, há três anos. Hoje, ele tem 25 clientes e ganha R$ 7 mil cobrando juros, R$ 2 mil a mais do que seus ganhos como taxista. A poupança feita com o dinheiro da agiotagem permitiu que M.R. comprasse um outro táxi, alugado para outro colega. “Tenho que indicar clientes para outros agiotas porque não dou conta dos pedidos”, diz o agiota. “Quero continuar emprestando para comprar casas e alugá-las.” O taxista costuma indicar clientes para agiotas que trabalham em um conjunto de edifícios de negócios na avenida Juscelino Kubitscke, na Zona Sul de São Paulo. “Há secretárias e funcionários que emprestam dinheiro”, diz.

Envie esta página para um amigo Os agiotas agem livremente porque sabem que não há nenhuma fiscalização. Com a extinção das Delegacias do Consumidor, só resta às vítimas as delegacias comuns. Isso porque o Banco Central, que costumava tratar do assunto, lavou as mãos para o problema. No Ministério da Justiça, o assunto foi deixado de lado após a queda do ex-ministro Renan Calheiros, em ... Será retomado nos próximos meses, segundo Paulo de Tarso, diretor da SDE, ligada à pasta. “O País precisa enfrentar a agiotagem”, diz. A atuação do ministério, no entanto, é criticada por quem passou por lá. “O fato é que o combate à agiotagem tem que ser contínuo e esse não parece ser um tema que interessa ao ministro da Justiça, José Carlos Dias”, alfineta Rui Coutinho, que hoje assessora o BNDES. Coutinho lembra que foi na gestão de Calheiro que uma Medida Provisória foi lançada para eliminar a prática. Dois anos depois de edição da MP, a agiotagem continua se espalhando pelo país. Não é considerada crime porque, para que isso aconteça, seria necessária a aprovação de um projeto de lei que está parado na Câmara dos Deputados. Os agiotas, cada vez mais ricos, agradecem.

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