29 de dezembro de 1999 - nº 122 
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FORÇA MOTORA
HENRY FORD
Com o carro, ele inventou a fábrica moderna e a indústria automobilística, um dos grandes negócios do século

GÊNIO DETESTÁVEL
Inovador, mas mau administrador, Ford gostava mais do chão da fábrica do que do escritório. Era também um homem autoritário e racista

O automóvel é um dos produtos mais populares do século, mas no início pouca gente apostava nele. Os primeiros carros eram muito caros, davam um defeito atrás do outro e era difícil dirigi-los. Henry Ford (1863-1947) mudou tudo isso. Com o carro, ele criou a fábrica moderna e transformou a indústria automobilística em um dos empreendimentos mais importantes do século. Ford convenceu as pessoas de que precisavam do automóvel e lhes apresentou um carro simples, fácil de usar, acessível. Lançado em 1908 com o preço de US$ 850, o Modelo T foi um sucesso instantâneo. Não era um carro para os ricos se exibirem em passeios de fim de semana. Era feito para o homem comum usar todos os dias. Nas quase duas décadas em que Ford produziu o Modelo T, ele vendeu 15 milhões de automóveis.

Para conseguir isso, ele teve que virar pelo avesso a fábrica. No início do século, carros eram produzidos de forma quase artesanal pelos operários, um de cada vez. Ford inventou a linha de montagem. Reorganizou a produção para que mais automóveis pudessem ser feitos ao mesmo tempo, dispondo as várias etapas da fabricação de um carro ao longo de uma esteira rolante. Em 1909, a fábrica de Ford produziu 14 mil automóveis. Cinco anos depois, fez 230 mil. Sem a linha de montagem, teria sido impossível produzir em massa os carros que os americanos estavam comprando. Ela também provocou grandes transformações no mundo do trabalho. Para os operários, o trabalho na fábrica tornou-se repetitivo e extenuante. A linha de montagem tinha velocidade própria e azar de quem não a acompanhasse. Para segurar seu pessoal, Ford aumentou o salário dos operários. Oferecendo US$ 5 por dia, o dobro do que a indústria pagava na época, atraiu gente do país inteiro para trabalhar com ele. O trabalho era simples, pagava bem e não exigia nenhuma qualificação especial.

O nascimento da indústria automobilística e da produção em massa também tiveram conseqüências em outros campos. Ford fez os negócios se multiplicarem ao redor de sua empresa. Em 1912, ele já tinha 7 mil revendedores associados à Ford nos Estados Unidos. O crescimento das vendas de automóveis estimulou o aparecimento de postos de gasolina e a construção de estradas asfaltadas. Com o avanço de Ford e de seus concorrentes, fornecedores de peças, revendedores e oficinas de reparos se multiplicaram. Houve também uma revolução nos costumes. Com o carro, as pessoas puderam viajar mais. As cidades cresceram, e elas podiam morar em bairros mais tranquilos, longe das áreas centrais. Com o tempo, também surgiram a poluição, o barulho, acidentes e congestionamentos. Mas poucos lembram hoje de como a vida nas cidades era difícil antes do carro. No início do século, os cavalos deixavam nas ruas de Nova York mais de uma tonelada de esterco e mais de 200 mil litros de urina por dia. Todo ano, era preciso remover 15 mil cavalos mortos das ruas.

Envie esta página para um amigoO empresário que promoveu tantas transformações no mundo dos negócios e na vida das pessoas foi também um homem detestável. Era autoritário e cruel com os empregados. Vivia cercado de capangas que espionavam os operários na fábrica, livravam-se dos agitadores e mantinham o sindicato do lado de fora dos portões. Era um racista, que não gostava de judeus nem de negros e tinha amigos na Ku Klux Klan. Nascido numa fazenda, Ford cresceu no ambiente rural e gostava de montar e desmontar coisas quando criança. Tinha predileção por relógios, e aos 13 anos conseguiu montar pela primeira vez um que funcionava. Produziu o primeiro carro uma década depois, um veículo que chamou de Quadriciclo e que só saiu da garagem depois que ele destruiu uma parte da parede para abrir caminho.

Ford era um homem de negócios intuitivo e genial, mas era mau administrador. Gostava de andar pela fábrica e passava muito pouco tempo no escritório. Não tinha paciência para examinar balanços financeiros, detestava banqueiros e mantinha enormes quantias de dinheiro no cofre para não ter que tomá-lo emprestado dos bancos. Seu império era quase auto-suficiente, mas era uma máquina pesada. Ford tinha uma frota de navios, uma ferrovia, minas de carvão e até uma fazenda na Amazônia para produzir borracha. Uma vez deu US$ 1,5 milhão ao inventor Thomas Alva Edison, seu amigo, para que criasse uma bateria elétrica para seus carros. Como Edison não conseguiu produzir uma bateria que funcionasse direito, foi dinheiro jogado fora. Ford também não era muito bom em marketing. Durante 19 anos, ele produziu apenas um tipo de carro, o Modelo T, todos iguais e pretos. Só em 1927 achou que era hora de introduzir mudanças e lançou o Modelo A. Era tarde. A concorrência estava prestes a ultrapassá-lo. Em 1931, a General Motors virou a número 1 da indústria automobilística e nunca mais abandonou o posto.

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