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O IMIGRANTE
FRANCISCO
MATARAZZO
Ele
construiu uma fábrica para cada dia do ano e ganhou dinheiro produzindo
para o mercado interno, num tempo em que ninguém acreditava nisso
| Foto:
FIESP |
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O VELHO
CONDE
No auge, até ele se confundia com os negócios:
Comerciante de farinha, bacalhau, algodão...
Não entendo de mais nada |
Houve um momento em que os negócios do conde Francisco
Matarazzo (1854-1937) no Brasil tinham se diversificado tanto
que até ele parecia confuso. Sou comerciante de farinha,
de bacalhau, de algodão... Não entendo de mais nada,
brincou certa vez. Não era à toa. Nas cinco décadas
que levou para erguer seu império industrial, Matarazzo
pôs o dedo numa variedade de empreendimentos e atividades
impressionante até para os dias de hoje. Dizia-se em seu
tempo que o conde tinha 365 fábricas, uma para cada dia
do ano, e é bem possível que isso tenha sido verdade.
No auge, as Indústrias Reunidas F. Matarazzo produziam
tecidos, latas, óleos comestíveis, açúcar,
sabão, presunto, pregos, velas, louças, azulejos.
Matarazzo tinha um banco, uma frota particular de navios, um terminal
exclusivo no porto de Santos e duas locomotivas para transportar
mercadorias no pátio da sede do complexo industrial, em
São Paulo. Quando o conde fez 80 anos, suas empresas faturavam
350 mil contos de réis por ano, dinheiro equivalente na
época à arrecadação de São
Paulo, o Estado mais rico da Federação. Se a conta
fosse feita hoje, nenhum dos conglomerados nacionais conseguiria
bater Matarazzo.
Ele não foi apenas um pioneiro da industrialização.
Matarazzo foi um dos primeiros empresários a se voltar
prioritariamente para o mercado interno, numa época em
que a economia brasileira era dominada pela exportação
de café. Matarazzo descobria consumidores onde ninguém
mais enxergava oportunidades de negócio. Ele achava possível
ganhar dinheiro produzindo mercadorias que a maioria dos brasileiros
consumia aqui mesmo, no dia-a-dia. Arroz, vinho, queijo, quase
tudo que aparecia na mesa dos brasileiros era importado na virada
do século. Matarazzo foi dos primeiros a enriquecer produzindo
esse tipo de coisa no Brasil. Foi assim desde 1881, quando ele
chegou da Itália e abriu uma venda em Sorocaba, no interior
paulista. A maior parte das mercadorias que expunha nas prateleiras
era importada. A primeira que ele começou a produzir aqui
foi a banha de porco, que era importada dos Estados Unidos e as
pessoas usavam para cozinhar e conservar alimentos. Matarazzo
escolhia seus porcos pessoalmente em viagens pelo interior e vendia
a banha em barris de madeira que levava à freguesia de
porta em porta.
Matarazzo
levantou seu império aos poucos. Mudou-se para São
Paulo dez anos depois de chegar ao Brasil e só inaugurou
a primeira fábrica, um moinho de trigo, uma década
mais tarde, em 1900. O sucesso de sua trajetória é
uma mistura de esperteza e oportunidade. Como importador, Matarazzo
tinha uma visão privilegiada da paisagem econômica.
Conhecia os preços das mercadorias e os interesses dos
consumidores, tinha acesso a crédito e relações
com uma rede de pequenos revendedores. Com tanta informação,
ele conseguia saber a hora certa de reduzir as importações
de um determinado produto e começar a produzi-lo aqui.
Além disso, Matarazzo tinha dinheiro para investir. Especulava
com o câmbio e lucrava com o banco, que monopolizava a remessa
das economias que os imigrantes italianos despachavam para a terra
natal. Como outros pioneiros da industrialização
brasileira, ele também teve uma bela ajuda do governo,
cuja política de proteção alfandegária
reduzia o custo de importação de algumas matérias-primas
e impunha tarifas elevadas a produtos estrangeiros que poderiam
competir com os nacionais.
As grandes fortunas do início do século foram cevadas
nas fazendas de café. Seus proprietários davam as
cartas nos negócios, na política e no governo. Matarazzo
não fez feio nesse ambiente. Um dos homens mais ricos de
seu tempo, tinha mansão na Avenida Paulista e ia para o
trabalho de limusine, mas sempre foi visto como uma espécie
de novo-rico pela elite da época. O título de conde,
recebeu do imperador Vitorio Emmanuele por ter enviado à
Itália mantimentos durante a Primeira Guerra Mundial. Matarazzo
tinha admiração por Benito Mussolini, a ponto de
contribuir com o fascismo financeiramente, e era um sujeito popular
entre os italianos que viviam no Brasil. A maioria dos operários
em suas fábricas era formada por italianos, e eram feitos
em italiano os discursos do patrão aos empregados. Fora
da colônia, Matarazzo era visto com desconfiança
pelos fazendeiros e pela nascente classe média urbana,
e o comportamento da família só fez a antipatia
crescer depois de sua morte. Com o velho conde fora de cena, seu
império começava a ruir.
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