29 de dezembro de 1999 - nº 122 
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O DOMINADOR
BILL GATES
Com talento para adaptar e vender idéias dos outros, ele tornou os computadores fáceis de usar e agora corre o risco de ver a empresa ser feita em pedaços

JANELAS PARA O MUNDO
Gates construiu a empresa mais valiosa do planeta, mas levou dois anos para se dar conta da transformação que a Internet começava a promover

Embora tenha mantido o olhar inofensivo de bom moço, William Henry Gates III (1955-) mudou de cara muitas vezes nos últimos 25 anos. Já foi pintado como um gênio da informática, criador de programas de computador admirados por todos, um estrategista capaz de se antecipar às tendências do mercado e um chefe-modelo, que dá liberdade aos funcionários e os ajuda a enriquecer. Nos últimos tempos, apareceu também como um crápula, capaz de usar a liderança conquistada por seus produtos para esmagar a concorrência. Qual imagem corresponde melhor à do verdadeiro Bill Gates, hoje o homem mais rico do mundo, com uma fortuna pessoal de US$ 85 bilhões? Isoladamente, nenhuma delas é suficiente. A melhor maneira de entender Gates é misturar um pouco de cada coisa no retrato.

Gates foi um adolescente que lia muito e passava boa parte do tempo às voltas com máquinas estranhas, precursoras dos atuais computadores. Foi nessa época que se tornou amigo de Paul Allen, o sócio com quem fundou a Microsoft, em 1975. Ele e Allen eram bons programadores, mas não eram gênios. O primeiro programa com o qual obtiveram algum sucesso era apenas razoável. O sistema operacional que impulsionou a empresa, o MS-DOS, foi comprado de outra empresa e adaptado pela Microsoft antes de virar um sucesso. Quando ficou pronto o Windows, a estrela da companhia, já fazia seis anos que a concorrente Apple tinha lançado um software semelhante, mais sofisticado.

Uma das grandes idéias que Gates teve foi a de montar a primeira empresa dedicada exclusivamente à produção de programas. Na época, os fabricantes de computador dominavam o mercado e não viam na comercialização dos programas um negócio à parte. Gates achava que o futuro estava aí, e tinha razão. Hoje a Microsoft é a empresa com o maior valor de mercado em todo o mundo: perto de US$ 500 bilhões. Gates conseguiu isso com talento empresarial e sorte. Em 1980, a IBM era a maior empresa de informática do mundo e percebeu que seria esmagada pelos computadores pessoais, que não produzia. A companhia resolveu entrar no ramo às pressas, mas não teve tempo para desenvolver um sistema operacional próprio. A solução foi contratar Gates, um dos únicos a oferecer o serviço. A parceria durou pouco mais de dois anos, mas foi suficiente para a Microsoft dar o grande salto.

Depois disso, Gates fez novas parcerias com gigantes do setor e passou a viajar pelo mundo propagandeando seus produtos. Nascia aí também seu estilo singular de gestão. Uma novidade era a forma de remuneração na Microsoft. Boa parte de seus empregados ganhava, além dos salários, ações da empresa. Muitos acabaram milionários. Outra diferença estava na liberdade: até hoje os funcionários de Gates podem praticar esporte nas quadras da empresa, vestem-se como quiserem e têm grande flexibilidade de horário. Tudo para manter o ambiente permeável à criatividade. Essa heterodoxia esconde, porém, um patrão que sabe ser muito exigente e duro com seus funcionários. Eles trabalham às vezes 80 horas por semana e não é raro ouvir do chefe frases como “Nunca ouvi uma idéia tão estúpida em minha vida”, toda vez que Gates não gosta de um projeto.

Envie esta página para um amigoFoi com essa energia que ele se recuperou do maior erro estratégico de sua vida. Gates demorou a perceber a importância da Internet para a indústria quando ela começou a se popularizar, em 1994. Por dois anos, a Microsoft ignorou olimpicamente a rede e rivais ferozes como a Nestcape, a empresa que inventou os navegadores. Quando se deu conta do problema, Gates mudou a estratégia da empresa de um dia para outro. O número de funcionários trabalhando com a rede foi multiplicado por dez e a companhia passou a investir pesado em programas para a Internet. Em poucos meses, os produtos da Microsoft começaram a devorar a concorrência. Gates usou o domínio exercido por seus programas no mercado para forçar os consumidores a engolir também seu navegador, o Explorer. Ameaçou fabricantes de computador e empresas da Internet que não aceitassem suas condições. O jogo bruto lhe rendeu sucesso e fortuna, mas o custo foi alto. Processado pelo governo americano por abusar do monopólio exercido pela Microsoft, Gates pode ser obrigado pela Justiça a fazer sua empresa em pedaços nos próximos meses.

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