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CAPA
Na
rede, de graça
Bradesco oferece
Internet sem custos aos clientes e agita os negócios virtuais
Milton Gamez
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(Foto:RÉGIS
FILHO)
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Cypriano, o presidente: "A Internet é uma tendência irreversível
e não poderíamos ficar fora dessa revolução"
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As ondas da Internet estão revoltas na pacata Cidade
de Deus, em Osasco (SP), sede do maior banco privado do País.
A partir desta semana, o Bradesco irá oferecer aos clientes
acesso grátis à rede mundial de computadores. É
a primeira empresa brasileira a conceder o benefício aos
surfistas eletrônicos. Quem tiver conta corrente ou caderneta
de poupança no banco poderá entrar na Internet sem
pagar nada, exceto a própria conta telefônica. Um
sistema de banco de horas, semelhante aos programas de milhagem
das companhias aéreas, garantirá a navegação
gratuita aos correntistas e poupadores do Bradesco. O serviço
começa em São Paulo e deverá ser estendido,
no ano que vem, às demais capitais. "Queremos democratizar
a Internet", diz Márcio Cypriano, presidente da instituição.
Quem conhece o Bradesco sabe o que isso significa no mundo virtual
- foi com o atendimento popular que o banco deixou tradicionais
concorrentes para trás. Agora, a revolução
extrapola os limites do mercado financeiro. A estratégia
coloca o poderoso Bradesco numa briga que envolve gigantes como
AOL, UOL, ZAZ, StarMedia e outros provedores de acesso. Todos
brigam por um pedaço num mercado que já tem pelo
menos 3,5 milhões de usuários e cresce sem parar.
Não é exagero pensar que, com a investida do Bradesco,
a Internet nunca mais será a mesma no Brasil. Só
pelo tamanho que tem, o banco poderá se tornar o maior
portal do País, forçando as empresas a seguir a
mesma tendência e reduzir ainda mais o preço da conexão.
Atenção para os números. O banco tem mais
de oito milhões de correntistas. Destes, 830 mil clientes
usam seus serviços financeiros pela Internet - mais que
a soma dos internautas ligados às duas maiores empresas
locais, o UOL e o ZAZ. Diariamente, cerca de 1.800 pessoas cadastram-se
no seu Internet Banking. Outras 2.400 já compram e vendem
R$ 8 milhões mensais de ações pelo ShopInvest,
responsável por 25% dos negócios remotos fechados
pelos investidores na Bovespa. O banco, um dos cinco primeiros
do mundo a colocar um site financeiro no ar, quer agora que seus
clientes façam não só investimentos on line,
mas também compras em seu shopping eletrônico e naveguem
a partir de seu portal. Eles já fazem cinco mil encomendas
virtuais por dia e já movimentaram R$ 170 milhões
nos últimos oito meses. Daí o acesso gratuito, que
passa obrigatoriamente pela home page do Bradesco (www.bradesco.com.br)
e coloca a instituição na dianteira do chamado e-business.
Na Internet, o surfista Cypriano é ambicioso. Nos primeiros
dois meses, a meta do Bradesco é conquistar 200 mil clientes
pela nova porta de entrada. Como cada usuário da rede tem
um valor de mercado de US$ 1.500, está sendo criado um
novo braço de negócios do Bradesco, de saída
avaliado em US$ 300 milhões. É apenas o começo.
Até o final do ano 2000, serão 500 mil surfistas
não-pagantes. Somados aos que terão acesso pelos
provedores convencionais, o banco terá 1,5 milhão
de clientes fazendo negócios em seu site na rede eletrônica
até o final do ano que vem. "A Internet é uma
tendência irreversível. Não poderíamos
ficar de fora dessa revolução", diz o presidente
do Bradesco.
O curioso é que ele contratou um serviço da Telefonica
- cuja matriz espanhola é proprietária do ZAZ -
para montar a sua entrada própria na Internet. Em São
Paulo, o banco irá usar a Rede IP, que permite o tráfego
de dados. A rede da Telefonica já atinge 27 cidades e estará
presente em 100 municípios no ano 2000. Nos outros Estados,
o banco fará convênios semelhantes com as demais
teles regionais. Em vez de fazer a conexão usando o telefone
do provedor habitual, o cliente paulistano do Bradesco poderá
entrar na Internet usando o número 1500, especialmente
criado pela Telefonica. No programa de discagem (rede dial up),
bastará alterar o nome do usuário para bradesco@bradesco
e colocar a nova senha de acesso (bradesco). Uma vez conectado,
o internauta poderá entrar no site do banco (que pede o
número da conta e a senha do cartão eletrônico)
e, de lá, navegar na Internet.
A novidade custará, inicialmente, R$ 5 milhões,
referentes aos pagamentos à Telefonica. Conforme o serviço
for estendido ao interior paulista e ao resto do País,
o investimento do banco será maior. Para os clientes, a
economia será proporcional ao custo do acesso pelos provedores
habituais, que cobram de R$ 20 a R$ 60 para uso ilimitado. No
Bradesco, o acesso grátis será limitado. Cada cliente
ganhará inicialmente 20 horas para navegar na Internet,
mas esse tempo poderá ser aumentado. Se possuir um cartão
de crédito do banco, levará mais 5 horas. Se indicar
um amigo e este abrir uma conta pela Internet, ganha mais 10 horas.
Cada novo cartão dá direito a 5 horas adicionais.
"Queremos aumentar a fidelidade da nossa clientela",
diz Odécio Grégio, diretor de produtos de informática
da instituição.
Tempo somado, o cliente poderá gastá-lo como quiser.
A boa notícia é que a navegação pelo
site do banco não conta. Os débitos no estoque de
horas só ocorrem quando o surfista parte para outras praias
virtuais. Normalmente, os internautas comuns navegam 16 horas
por mês, em média. Para que o acesso gratuito não
acabe no primeiro ou no segundo mês, o banco dará
mais meia hora por dia àqueles que entrarem na rede pelo
Bradesco Net, o que adicionará 10 horas extras por mês.
"É tempo suficiente para assegurar a gratuidade do
serviço à maioria dos nosso clientes plugados na
rede", aposta Grégio. Os chamados heavy users (usuários
compulsivos) não serão atraídos pelo novo
serviço. Também não haverá e-mail
gratuito, fornecido por sites especializados como hotmail e yahoo.
Com a Internet gratuita, o Bradesco espera desafogar ainda mais
sua rede de agências. Em 2.400 pontos, o banco recebe a
visita diária de 3,4 milhões de pessoas. A rede
virtual permite o atendimento remoto e simultâneo de milhares
de clientes. Na última quinta-feira, às 12h45, haviam
2.350 internautas usando o Internet Banking em operações
diversas (são mais de 90 opções de serviços).
Nos momentos de pico, o número já chegou perto de
6.000. "É como se tivéssemos quase seis mil
caixas a mais para atender os clientes", compara Grégio.
A mudança no atendimento é tão radical que
até usuários cegos (1.500 em todo o Brasil) navegam
na Internet a partir do site do Bradesco, usando um programa para
deficientes visuais inventado pelo próprio banco. Outra
vantagem, para ambas as partes, é o custo menor das transações.
Na Internet, um pagamento de um boleto de cobrança sai
por R$ 0,12. Numa agência, custa R$ 1,23. As vantagens da
Net não páram por aí. O Bradesco a utiliza
como um túnel, por onde passa sua intranet, rede particular
usada para distribuir circulares e fazer treinamentos. Mais de
9.000 gerentes já usam este canal para se comunicar com
a matriz, em Osasco.
No
quartel-general do Bradesco.com, a ordem é usar a Internet
ao máximo em todos os departamentos. Na grande sala de
reuniões da diretoria, onde Márcio Cypriano e Lázaro
Brandão (presidente do conselho de administração)
dirigem a instituição, todo mundo tem acesso à
rede mundial em seus terminais de última geração.
Apesar de todo esse aparato e da Internet grátis, o banco
nega que esteja entrando no mercado de acesso para concorrer com
o UOL e o ZAZ, entre outros. "Não temos o objetivo
de tirar clientes dos outros provedores, mas sim de ampliar o
uso dos nossos serviços eletrônicos", diz Cândido
Leonelli, diretor de produtos especiais. "Alguma migração
será natural." Diga o que disserem, o fato é
que o Bradesco está dando início a um fenômeno
que já começa a ser notado no Exterior. "A
popularização da Internet é inevitável
no País. Quando chegar, o acesso grátis será
bom para todos", avalia Márcio Castro, diretor do
Citibank. A concorrência que se cuide. "Os provedores
habituais vão ter que investir cada vez mais em conteúdo
(notícias e serviços) se quiserem sobreviver",
avalia o consultor Mordejai Goldenberg, da AT Kearney.
Com reportagem de Lucia Kassai
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