15 de dezembro de 1999 - nº 120 

Na rede, de graça
Idéias opostas, discurso igual
O que aconteceu com o lucro?
Crescer 2%? 4%? quanto?
Levante no Rio Grande
Rebeldes com causa
Gustavo vai virar banqueiro







CAPA
Na rede, de graça
Bradesco oferece Internet sem custos aos clientes e agita os negócios virtuais

Milton Gamez

(Foto:RÉGIS FILHO)

Cypriano, o presidente: "A Internet é uma tendência irreversível e não poderíamos ficar fora dessa revolução"

As ondas da Internet estão revoltas na pacata Cidade de Deus, em Osasco (SP), sede do maior banco privado do País. A partir desta semana, o Bradesco irá oferecer aos clientes acesso grátis à rede mundial de computadores. É a primeira empresa brasileira a conceder o benefício aos surfistas eletrônicos. Quem tiver conta corrente ou caderneta de poupança no banco poderá entrar na Internet sem pagar nada, exceto a própria conta telefônica. Um sistema de banco de horas, semelhante aos programas de milhagem das companhias aéreas, garantirá a navegação gratuita aos correntistas e poupadores do Bradesco. O serviço começa em São Paulo e deverá ser estendido, no ano que vem, às demais capitais. "Queremos democratizar a Internet", diz Márcio Cypriano, presidente da instituição.

Quem conhece o Bradesco sabe o que isso significa no mundo virtual - foi com o atendimento popular que o banco deixou tradicionais concorrentes para trás. Agora, a revolução extrapola os limites do mercado financeiro. A estratégia coloca o poderoso Bradesco numa briga que envolve gigantes como AOL, UOL, ZAZ, StarMedia e outros provedores de acesso. Todos brigam por um pedaço num mercado que já tem pelo menos 3,5 milhões de usuários e cresce sem parar. Não é exagero pensar que, com a investida do Bradesco, a Internet nunca mais será a mesma no Brasil. Só pelo tamanho que tem, o banco poderá se tornar o maior portal do País, forçando as empresas a seguir a mesma tendência e reduzir ainda mais o preço da conexão.

Atenção para os números. O banco tem mais de oito milhões de correntistas. Destes, 830 mil clientes usam seus serviços financeiros pela Internet - mais que a soma dos internautas ligados às duas maiores empresas locais, o UOL e o ZAZ. Diariamente, cerca de 1.800 pessoas cadastram-se no seu Internet Banking. Outras 2.400 já compram e vendem R$ 8 milhões mensais de ações pelo ShopInvest, responsável por 25% dos negócios remotos fechados pelos investidores na Bovespa. O banco, um dos cinco primeiros do mundo a colocar um site financeiro no ar, quer agora que seus clientes façam não só investimentos on line, mas também compras em seu shopping eletrônico e naveguem a partir de seu portal. Eles já fazem cinco mil encomendas virtuais por dia e já movimentaram R$ 170 milhões nos últimos oito meses. Daí o acesso gratuito, que passa obrigatoriamente pela home page do Bradesco (www.bradesco.com.br) e coloca a instituição na dianteira do chamado e-business.

Na Internet, o surfista Cypriano é ambicioso. Nos primeiros dois meses, a meta do Bradesco é conquistar 200 mil clientes pela nova porta de entrada. Como cada usuário da rede tem um valor de mercado de US$ 1.500, está sendo criado um novo braço de negócios do Bradesco, de saída avaliado em US$ 300 milhões. É apenas o começo. Até o final do ano 2000, serão 500 mil surfistas não-pagantes. Somados aos que terão acesso pelos provedores convencionais, o banco terá 1,5 milhão de clientes fazendo negócios em seu site na rede eletrônica até o final do ano que vem. "A Internet é uma tendência irreversível. Não poderíamos ficar de fora dessa revolução", diz o presidente do Bradesco.

O curioso é que ele contratou um serviço da Telefonica - cuja matriz espanhola é proprietária do ZAZ - para montar a sua entrada própria na Internet. Em São Paulo, o banco irá usar a Rede IP, que permite o tráfego de dados. A rede da Telefonica já atinge 27 cidades e estará presente em 100 municípios no ano 2000. Nos outros Estados, o banco fará convênios semelhantes com as demais teles regionais. Em vez de fazer a conexão usando o telefone do provedor habitual, o cliente paulistano do Bradesco poderá entrar na Internet usando o número 1500, especialmente criado pela Telefonica. No programa de discagem (rede dial up), bastará alterar o nome do usuário para bradesco@bradesco e colocar a nova senha de acesso (bradesco). Uma vez conectado, o internauta poderá entrar no site do banco (que pede o número da conta e a senha do cartão eletrônico) e, de lá, navegar na Internet.

A novidade custará, inicialmente, R$ 5 milhões, referentes aos pagamentos à Telefonica. Conforme o serviço for estendido ao interior paulista e ao resto do País, o investimento do banco será maior. Para os clientes, a economia será proporcional ao custo do acesso pelos provedores habituais, que cobram de R$ 20 a R$ 60 para uso ilimitado. No Bradesco, o acesso grátis será limitado. Cada cliente ganhará inicialmente 20 horas para navegar na Internet, mas esse tempo poderá ser aumentado. Se possuir um cartão de crédito do banco, levará mais 5 horas. Se indicar um amigo e este abrir uma conta pela Internet, ganha mais 10 horas. Cada novo cartão dá direito a 5 horas adicionais. "Queremos aumentar a fidelidade da nossa clientela", diz Odécio Grégio, diretor de produtos de informática da instituição.

Tempo somado, o cliente poderá gastá-lo como quiser. A boa notícia é que a navegação pelo site do banco não conta. Os débitos no estoque de horas só ocorrem quando o surfista parte para outras praias virtuais. Normalmente, os internautas comuns navegam 16 horas por mês, em média. Para que o acesso gratuito não acabe no primeiro ou no segundo mês, o banco dará mais meia hora por dia àqueles que entrarem na rede pelo Bradesco Net, o que adicionará 10 horas extras por mês. "É tempo suficiente para assegurar a gratuidade do serviço à maioria dos nosso clientes plugados na rede", aposta Grégio. Os chamados heavy users (usuários compulsivos) não serão atraídos pelo novo serviço. Também não haverá e-mail gratuito, fornecido por sites especializados como hotmail e yahoo.

Com a Internet gratuita, o Bradesco espera desafogar ainda mais sua rede de agências. Em 2.400 pontos, o banco recebe a visita diária de 3,4 milhões de pessoas. A rede virtual permite o atendimento remoto e simultâneo de milhares de clientes. Na última quinta-feira, às 12h45, haviam 2.350 internautas usando o Internet Banking em operações diversas (são mais de 90 opções de serviços). Nos momentos de pico, o número já chegou perto de 6.000. "É como se tivéssemos quase seis mil caixas a mais para atender os clientes", compara Grégio. A mudança no atendimento é tão radical que até usuários cegos (1.500 em todo o Brasil) navegam na Internet a partir do site do Bradesco, usando um programa para deficientes visuais inventado pelo próprio banco. Outra vantagem, para ambas as partes, é o custo menor das transações. Na Internet, um pagamento de um boleto de cobrança sai por R$ 0,12. Numa agência, custa R$ 1,23. As vantagens da Net não páram por aí. O Bradesco a utiliza como um túnel, por onde passa sua intranet, rede particular usada para distribuir circulares e fazer treinamentos. Mais de 9.000 gerentes já usam este canal para se comunicar com a matriz, em Osasco.

Envie esta página para um amigoNo quartel-general do Bradesco.com, a ordem é usar a Internet ao máximo em todos os departamentos. Na grande sala de reuniões da diretoria, onde Márcio Cypriano e Lázaro Brandão (presidente do conselho de administração) dirigem a instituição, todo mundo tem acesso à rede mundial em seus terminais de última geração. Apesar de todo esse aparato e da Internet grátis, o banco nega que esteja entrando no mercado de acesso para concorrer com o UOL e o ZAZ, entre outros. "Não temos o objetivo de tirar clientes dos outros provedores, mas sim de ampliar o uso dos nossos serviços eletrônicos", diz Cândido Leonelli, diretor de produtos especiais. "Alguma migração será natural." Diga o que disserem, o fato é que o Bradesco está dando início a um fenômeno que já começa a ser notado no Exterior. "A popularização da Internet é inevitável no País. Quando chegar, o acesso grátis será bom para todos", avalia Márcio Castro, diretor do Citibank. A concorrência que se cuide. "Os provedores habituais vão ter que investir cada vez mais em conteúdo (notícias e serviços) se quiserem sobreviver", avalia o consultor Mordejai Goldenberg, da AT Kearney.

Com reportagem de Lucia Kassai

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