24 de novembro de 1999 - nº 117 









Dinheiro da Redação
Pacto, de novo?

Carlos José Marques

Uma velha lorota correu solta em discursos oficiais na semana passada. A de que um pacto - unindo empresários, trabalhadores e governo - seria necessário para barrar a ressurreição inflacionária. Pacto! Por enésimas vezes governos recorreram à proposta, sem que do papel saísse uma única ação concreta. Pacto virou vacina para acalmar a turba em períodos grevistas. Pacto só foi pedido e acionado quando estatais completaram o realinhamento tarifário periódico a que estavam acostumadas. Produtos e serviços continuaram a aumentar indiscriminadamente, ignorando pactos, e a espiral inflacionária tomou forma. Hoje, o ambiente em que se volta a falar de pacto tem, de novo, a inflação repicando via tarifas públicas generosamente majoradas - e, de quebra, dólar desvairado. A bandeira do pacto moderno restabelece, como no passado, que trabalhadores deveriam resistir à tentação de reajustes salariais enquanto empresários garantiriam preços, para não comprometer a meta de inflação. Resposta sensata foi dada pelo sindicalista Luiz Marinho, que sugeriu ao governo primeiro fazer a sua parte, acenar com medidas para a retomada do crescimento, alargamento do mercado de trabalho, juros civilizados. A inflação atual possui efetiva diferença da antiga, para o bem e para o mal. Para o bem: por não ser uma inflação de demanda, mas de custo - onde o aumento da virada do dólar e dos juros asfixiantes comprometeram seriamente a produção -, o atual fenômeno permite e até reforça a necessidade de o governo buscar medidas incentivadoras do crescimento. A meta de 4% para o ano 2000 é a melhor terapia em uma economia que já vem de anos com o PIB arrastado. Para o mal: a inflação que está aí demonstra, cristalinamente, que todo o aperto enfrentado em prol da estabilidade da moeda e dos preços foi outro conto da carochinha. Daqui para a frente, qualquer remédio recessivo, na direção de juros altos, aperto de crédito e que tais levará, decerto, ao colapso produtivo e, por tabela, social. Quem não aprendeu ameaça, de novo, com juros altos. Quem usar de sensatez vai buscar o desenvolvimento. Já não é sem tempo.

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