24 de novembro de 1999 - nº 117 

A Guerra dos anões
Vira vira na RTP
Internet à mineira
Nova rota do lucro de Cabral

Santos desembarca no futuro

Pokemón invade o planeta

A regente do Mozarteum

Reduto de mulher bonita

A nova trilha de Duda

Esteé Lauder vem às compras no Brasil

Quem constrói o mosáico?

A máquina de idéias da Citroën
Terra faz estréia bilionária
A fraude das margarinas







TRANSPORTE
Santos desembarca no futuro
Terminais, como o da Santos Brasil, investem milhões em equipamentos e começam a apagar a imagem de ineficiência do maior porto do País

Isabel Cristina Campos, de Santos

(Foto: GUSTAVO LOURENÇÃO)

CUSTO BRASIL: preço do carregamento caiu pela metade

Ponto para as privatizações. Depois de dois anos nas mãos da iniciativa privada, o Tecon - Terminal de Contêineres de Santos - é uma prova de que o porto de Santos, no litoral paulista, que já foi símbolo da ineficiência estatal, está dando a volta por cima. Há, ainda, um longo caminho a ser percorrido. Mas os resultados obtidos nos últimos meses mostram uma revolução. Nesse período, a velocidade do serviço prestado pelo Tecon triplicou. Em 1997, o terminal movimentava, em média, 11 contêineres por hora. Em agosto último, a média foi de 33,6. O tempo de espera de um navio na barra do porto, que era de 22 horas, caiu para 1,6 hora. Os preços de carregamento e descarregamento, que variavam entre US$ 550 e US$ 600 por contêiner, hoje oscilam entre US$ 220 e US$ 250. A desvalorização cambial certamente ajudou na redução dos custos, mas o que realmente está por trás desses números é uma ampla e profunda reestruturação operacional e administrativa.

O Tecon foi o que se pode chamar de jóia da coroa da privatização do porto de Santos. Não foi à toa que a Santos Brasil S. A. - formada pelo Opportunity (40%), Fundação Previ do Banco do Brasil (20%), Fundação Sistel da Telebrás (15%), Fundo 525 Participações (15%) e Multiterminais Alfandegados do Brasil (10%) - pagou, em setembro de 1997, US$ 250 milhões pela sua concessão, investiu US$ 25 milhões nesses dois anos e planeja uma nova injeção de US$ 100 milhões para os próximos três anos. O Tecon é o maior terminal da costa leste da América do Sul. Tem 366 mil metros quadrados de área total e 510 metros de cais. "Responde por 38% a 40% do movimento de contêineres do porto santista e recebe mais carga que os portos do Rio de Janeiro ou do Rio Grande do Sul", afirma com orgulho Wady Jasmin, presidente da Santos Brasil. Além disso, o potencial do porto de Santos é gigantesco. Tem características físicas adequadas para receber navios de grande porte (que estão cada vez maiores) e posição econômica e geográfica estratégicas. Mas, como diz o próprio Jasmin, vocação só não basta.

Desde que assumiu o comando do Tecon, junto com a privatização, Jasmin corre atrás do mesmo objetivo: aumentar a eficiência operacional e diminuir custos. Para isso, fez acordo de transferência de tecnologia com a HPC de Hamburgo (considerada uma das melhores operadoras de portos do mundo), investiu em sistemas de informatização, reformou as instalações e equipamentos e criou novas rotinas de trabalho. As mudanças, observa, Glen Gordon Findlay, diretor de Tráfego e Operações da Evergreeen -- a segunda maior armadora de contêineres do mundo - foram da água para o vinho. "A produtividade no terminal dobrou depois da privatização. Os equipamentos não quebram mais como antes e a qualidade do serviço melhorou significativamente", afirma o cliente da Tecon. E deverá melhorar ainda mais. Até o início do ano 2000, Jasmin espera estar atendendo 50 contêineres por hora e ter reduzido a espera dos navios a zero.

A batalha, no entanto, continua. Na verdade, vai entrar na pior etapa de reestruturação. O porto de Santos continua sendo o mais caro do Brasil. O custo de movimentação de contêineres caiu para menos da metade do que era antes da privatização, mas nessa faixa, entre US$ 220 e US$ 250, na qual se encontram o Tecon e os demais terminais, ainda é muito alto. "Esse valor mata a nossa vocação. Temos de reduzi-lo para um padrão aceitável internacionalmente, algo em torno de US$ 150 por contêiner. Caso contrário, não vamos sobreviver", enfatiza Jasmin. O problema é que a redução de custos, segundo o presidente da Santos Brasil, não depende só da sua empresa ou das outras que integram o complexo do porto de Santos. Segundo ele, esbarra em velhas questões, como a tarifação portuária, a estrutura tributária brasileira e a remuneração dos trabalhadores avulsos. Assuntos tão antigos quanto o porto de Santos, mas que resistem em ser discutidos por todos os envolvidos - leia-se o governo e os sindicatos.

A remuneração dos trabalhadores avulsos talvez seja o problema mais complexo. As empresas, mesmo que torçam o nariz, são obrigadas por lei a contratá-los. Isso foi estabelecido para proteger a economia da Baixada Santista, que depende primordialmente do porto. Quase toda família da região tem um membro que trabalha num dos terminais. No entanto, apesar de todo o conflito que possa gerar, esse tema não poderá ser ignorado por muito tempo. Segundo Jasmin, o custo médio com mão-de-obra avulsa, hoje, varia de R$ 130 a R$ 140 por contêiner. Ele come cerca de 35% da receita líquida obtida pelo Tecon com os serviços de operação de cais. "É um ônus muito pesado, insuportável", garante Jasmin. Na Argentina, esse custo é de apenas US$ 10 por contêiner.

Envie esta página para um amigoApesar dos grandes desafios que terá pela frente, Jasmin acredita que até o final do primeiro semestre de 2001 o custo de movimentação de contêiner deverá estar enquadrado nos padrões internacionais. Afinal, não é só ele que quer que o comércio exterior, principalmente as exportações do País, se fortaleçam. Além disso, depois de tantos milhões investidos, não há espaço para pessimismo. Há metas a serem cumpridas. Este ano, o Tecon deverá faturar R$ 115 milhões, cifra 18% superior à alcançada em 1998. Para 2000, a expectativa é de um salto bem mais alto, que alcance pelo menos R$ 150 milhões. Para os anos seguintes, não é preciso nem dizer que os acionistas da Santos Brasil vão querer ainda mais. Já foi o tempo do amadorismo.

Copyright© 1999 Revista Dinheiro. Todos os direitos reservados. All rights reserved.