24 de novembro de 1999 - nº 117 

A Guerra dos anões
Vira vira na RTP
Internet à mineira
Nova rota do lucro de Cabral

Santos desembarca no futuro

Pokemón invade o planeta

A regente do Mozarteum

Reduto de mulher bonita

A nova trilha de Duda

Esteé Lauder vem às compras no Brasil

Quem constrói o mosáico?

A máquina de idéias da Citroën
Terra faz estréia bilionária
A fraude das margarinas







BELEZA
Esteé Lauder vem às compras no Brasil
Líder americana do mercado de cosméticos quer conquistar o País comprando Natura ou O Boticário

Luiza Pastor, de Nova York

(Foto: ANDREA HAGGE )

LEONARD: "Perdemos tempo com medo da instabilidade econômica, mas agora a prioridade é o Brasil"

Leonard Lauder não gosta de admitir, mas reconhece que está atrasado. Chairman e CEO da empresa de cosméticos e perfumes fundada por sua mãe, Estée Lauder, há 53 anos, ele sabe que o Brasil é um mercado já ferozmente disputado por todos os concorrentes do ramo, mas só agora a The Estée Lauder Company se prepara para entrar por aqui para valer. De imediato, até meados do próximo ano, com três pontos-de-venda próprios, para marcas diferentes - Clinique, MAC e a pioneira, Estée Lauder. A médio prazo, a ofensiva é maior: ele tem planos de comprar ou, no mínimo, se associar a uma grande empresa do ramo já instalada no Brasil. Preferencialmente, Natura ou O Boticário, às quais faz elogios rasgados. Ele prevê que essa ofensiva "permitiria lançar no Brasil as linhas mais baratas, compensando os altos custos de importação das mais sofisticadas". Consolidando esse mercado, o grupo certamente poderia aumentar sensivelmente sua participação no mercado latino-americano (hoje conta com irrisórios 3%).

Os contatos com as duas empresas citadas pelo empresário não são oficialmente confirmados pelas brasileiras, como era de se esperar, mas o interesse com certeza foi bem recebido. "Não existe nada formal, mas nós sempre estamos abertos a parcerias e novos negócios", desconversa laconicamente Miguel G. Krigsner, presidente de O Boticário. Já o presidente-executivo da Natura, Guilherme Peirão Leal, também trata de desmentir que exista qualquer negociação em andamento. "Mas há um grande respeito mútuo e sempre estamos abertos a negociar com empresas do porte e da qualidade de uma Estée Lauder", resumiu ele.

Até hoje, na verdade, a Estée Lauder, embora presente em mais de 100 países, só está representada no Brasil por Christiana Arcangeli, da ph/Arcangeli, que importa os produtos da marca Clinique, e que administra o primeiro ponto-de-venda da marca, aberto no Shopping Center Iguatemi, de São Paulo. Mundialmente, a empresa é uma gigante do ramo, dona de 45% do mercado americano, onde aparece três vezes maior que sua concorrente mais próxima, a L'Oréal. Um grupo que, no exercício encerrado em julho passado, faturou US$ 4 bilhões, com lucro líquido de US$ 273 milhões. Só a marca Clinique sozinha responde por US$ 1 bilhão do total de vendas das 14 marcas que compõem o grupo, tendo se tornado um carro-chefe internacional muito mais forte que a própria marca-mãe, mais arraigada junto à mulher americana de classe média e a mercados mais conservadores, como o mexicano.

A divulgação internacional da companhia, garantem unanimemente seus executivos, é uma prioridade dentro da empresa, exigida inclusive pelos acionistas - o grupo abriu seu capital no ano passado, apesar de quase todos os membros adultos da família Lauder ainda estarem ligados à sua administração. Mesmo com essa nova orientação, até o final deste ano a Estée Lauder terá investido pouco mais de US$ 3,6 milhões na divulgação da marca em todos os países latino-americanos juntos, uma ninharia em relação aos US$ 1,1 bilhão investidos mundialmente. No Brasil, admitem eles, nem um centavo foi aplicado nessa rubrica. Não é à toa, portanto, que poucos brasileiros sabem quem foi Estée Lauder. E, afinal, quem foi Estée Lauder?

A fundadora do grupo era o que os americanos gostam de chamar de "uma empreendedora". Uma mulher teimosa, que produzia creminhos e perfumes em sua própria casa e que vivia pedindo aos gerentes da tradicional loja de departamentos Sacks, na Quinta Avenida, que lhe deixassem vender uma essência que havia criado, a Youth Dew, sem sucesso. Para mostrar-lhes que o produto era bom, ela teve a idéia de deixar cair o conteúdo de um frasco no carpete da entrada da loja, o que despertou o interesse das freqüentadoras. Começava aí uma história que daria à Youth Dew o primeiro lugar nas vendas de perfumes no mercado americano por décadas - e que permitiria à família Lauder consolidar seu atual império.

O segredo da empresa, segundo seu filho Leonard, é a diversidade das linhas que foi adquirindo, sempre atenta aos nomes que vão despontando no efervescente mercado da moda americano. Hoje, tanto a mais conservadora senhora cujos ancestrais desembarcaram do Mayflower como a jovem adolescente que vive de curta mesada, passando pelos mais modernos nova-iorquinos ou os alternativos zen, têm à disposição algum produto desenvolvido nos sofisticados laboratórios da Estée Lauder. "Atendemos a todos os estilos de vida", conta o chairman com orgulho. A regra dentro da empresa, segundo Fred H. Langhammer, é equilibrar as empresas chamadas de rule makers, as que ditam as regras convencionais do mercado e as seguem religiosamente, com as rule breakers, que fazem sucesso exatamente ao romperem com os padrões formais do mercado. No primeiro caso, estariam a Estée Lauder, a La Mer e a Jane. No segundo, incluem-se a exagerada MAC, a alternativa Origins e a fashion Bobbi Brown Essentials. Entre elas, com um pé em cada ponta, podem-se incluir a própria Clinique, Donna Karan Cosmetics e Tommy Hilfiger. "Não vivemos só de vendas e lucros. O conceito que deu certo é o de localizar e promover idéias, descobrir talentos e tendências e identificar nichos de mercado", explica Langhammer. Ele vai assumir, em janeiro próximo, o cargo de CEO da empresa, ficando Leonard Lauder apenas como presidente do conselho de acionistas.

Envie esta página para um amigoMas o homem-chave no processo de ampliação dos mercados é um francês, Patrick Bousquet-Chavanne, presidente internacional do grupo. É ele que precisa explicar aos acionistas o que está sendo feito para evitar os riscos provenientes de uma concentração de 50% das vendas no mercado interno. "Eles querem pulverizar esse percentual por outros mercados", conta ele. Atualmente, a Europa responde por 23% das vendas, ficando outros 34% concentrados no Japão. "Todos apostam na América Latina como o grande potencial e é para lá que vamos ter de nos voltar", acrescenta. Assim como até hoje muitos americanos fazem questão de trazer sua própria garrafa de água mineral quando visitam os trópicos, a desconfiança em relação à estabilidade das economias da região e, no caso brasileiro, as dificuldades de distribuição impostas pela extensão territorial impediram que essa ofensiva se efetivasse antes. "Foi um receio conservador, hoje sabemos que perdemos muito tempo em relação a outras marcas, que se arriscaram mais cedo investindo em fábricas próprias, como a Unilever e a L'Oréal, ou que aproveitaram a abertura às importações, como as grandes grifes européias", admite Bousquet-Chavanne. Ele garante que a companhia vai usar todo o seu know-how para tentar recuperar o tempo perdido, mas ainda não sabe quanto vai poder investir por aqui. "Acionistas querem ação, mas não gostam de botar a mão no bolso...", brinca ele.

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