DENÚNCIA
Esse
Bamerindus...
Banco Central
abre investigação contra atual liquidante do banco. Acionistas minoritários
levam dossiê à Justiça para contestar a operação de venda
Estela Caparelli
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(Foto:
LEOPOLDO SILVA)
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Sob suspeita:
responsável pela liquidação, Loscilha é acusado de desvio
de dinheiro |
No mês em que se comemora o quarto aniversário do
Proer - a famosa linha de socorro aos bancos criada em 1995 para
evitar a quebra de grandes instituições financeiras
-, volta a pairar uma névoa de suspeitas sobre uma de suas
operações mais conhecidas: a venda do Bamerindus,
em março de 1997, para os ingleses do HSBC. Na semana passada,
o Banco Central começou a apurar denúncias de desvio
de dinheiro da parte do Bamerindus que ainda se encontra em liquidação.
O alvo das acusações, surpreendentemente, é
Gilberto Loscilha, indicado pelo próprio BC para comandar
o processo de venda dos ativos do banco de José Eduardo
Andrade Vieira que não foram comprados pelo HSBC. Simultaneamente,
o próprio BC está sendo investigado na Justiça
devido a três ações movidas pelos ex-acionistas
minoritários do Bamerindus. São 52 mil pessoas,
que detinham 40% das ações da instituição,
no valor de R$ 400 milhões, em 1996. Elas se queixam de
que as suas ações viraram pó no dia seguinte
à venda, e acusam o BC de ter feito um amontoado de péssimos
negócios na venda do banco - sempre em prejuízo
deles, minoritários. O processo ganha um peso maior porque
o interventor na época era Luiz Carlos Alvarez, justamente
o atual diretor de Fiscalização do BC e responsável,
entre outras atribuições, pela apuração
de qualquer irregularidade em liquidações de banco.
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O BC decidiu investigar o liquidante do Bamerindus e sua equipe
de 35 pessoas a partir de denúncias feitas por uma carta
anônima, enviada ao BC em Brasília. Na carta, o acusador
demonstra conhecimento detalhado sobre as ações
e até mesmo da vida pessoal dos representantes do BC em
Curitiba. Entre as várias irregularidades que a carta aponta
no processo de liquidação, inclui-se uma seríssima:
a de que os liquidantes estariam recebendo comissões ilegais,
propinas, pelos créditos recuperados de uma carteira de
R$ 3 bilhões. O acusador anônimo diz que funcionários
da equipe de liquidação em Curitiba, onde se localiza
a sede do Bamerindus, ficam com uma parcela de cada real de crédito
recuperado. Pode ser apenas mais uma acusação venal,
mas o BC achou a história peluda o suficiente para ser
investigada.
"Esse tipo de coisa nunca aconteceu. O grupo do BC que está
verificando o caso vai chegar a essa conclusão", afirma
Loscilha, que trabalhou mais de 20 anos no Banco Central, parte
deles no departamento de liquidações extrajudiciais.
Antes de se aposentar, em 1997, era o procurador da instituição.
Há seis meses comanda a liquidação do Bamerindus
- seu primeiro trabalho como liquidante - em substituição
a Flávio Siqueira, que hoje faz o mesmo trabalho no Banco
Crefisul. Os cinco técnicos deslocados de Brasília
para ajudar na apuração do caso pretendem concluir
as investigações dentro de um mês. Afinal,
sob a responsabilidade dos liquidantes estão 200 mil imóveis,
R$ 3 bilhões em créditos e uma dívida de
R$ 7 bilhões contraída quase integralmente com o
governo. Para evitar que situações embaraçosas
como essa ocorram novamente, o BC decidiu, a partir deste mês,
intensificar o monitoramento de outras liquidações
de bancos que ocorrem no País. O próprio Alvarez,
porém, não se pronunciou sobre o assunto.
Enquanto essas investigações não são
concluídas, a polêmica em torno do Bamerindus segue
em duas frentes, alimentadas pelos ex-acionistas minoritários
da instituição. Na primeira delas, os dirigentes
da Associação dos Acionistas Minoritários
do banco conversaram em Brasília, na sexta-feira 19, com
o diretor de Fiscalização Luiz Carlos Alvarez, para
tentar encontrar uma solução para o impasse.
A segunda frente, menos pacífica, é o processo
judicial movido contra a venda do Bamerindus. Há três
ações em curso na 14a Vara de Justiça Federal
em São Paulo. Uma delas contesta a venda da Inpacel, a
endividada empresa de papel do grupo Bamerindus, realizada em
1997. Na época, a empresa foi avaliada em R$ 300 milhões
- descontado o passivo - pela empresa carioca NMR, contratada
por licitação pelo BC. No entanto, o preço
mínimo de leilão estipulado pela própria
NMR foi de R$ 85 milhões. Motivo: os potenciais compradores
disseram para a NMR que se recusariam a participar do leilão
se o valor da empresa fosse superior a R$ 100 milhões.
"Nas conversas com compradores, eles disseram que não
apareceriam no leilão com o preço da avaliação.
Por isso, reduzimos o valor", diz Patrick Drummond, diretor
da NMR. "E se o mercado não quiser pagar isso, não
paga." A Inpacel acabou sendo vendida pelo preço mínimo
ao único participante do leilão, a americana Champion.
Os responsáveis pelo negócio na Champion não
foram encontrados para comentar o assunto até o fechamento
desta edição. "É inadmissível
que a NMR, a empresa que fez a avaliação econômica,
derrube o preço por ela mesma estipulado", diz Sandro
Pereira dos Santos, advogado dos minoritários. São
essas versões que a juíza Regina Helena Costa deve
ouvir na Justiça de São Paulo ainda este mês.
Além da NMR, foram intimados para depor a Ernst & Young,
auditoria responsável pelo balanço da Inpacel, e
o liquidante do Bamerindus na época, Flávio Siqueira.
Os ex-minoritários também contestam, em outra ação,
o contrato de venda de R$ 200 milhões de imóveis
do Bamerindus para o HSBC. Os imóveis, incluindo agências,
foram escolhidos pelo HSBC em um prazo de 180 dias, conforme contrato
assinado com o BC. O problema é que, segundo condição
imposta no mesmo contrato, os imóveis foram adquiridos
pelo valor contábil e não pelo preço de mercado,
o que reduziu muito o valor das propriedades. Um exemplo: um edifício
do Bamerindus no centro cívico de Curitiba foi adquirido
pelo HSBC por R$ 940 mil em julho de 1998. Na mesma época,
a prefeitura de Curitiba avaliava o imóvel para efeito
de cobrança de impostos em R$ 1,6 milhão.
O advogado dos minoritários cita outra vantagem oferecida
aos novos donos do Bamerindus: os mesmos serviços de recuperação
de crédito dos ativos mencionados na carta anônima
ao BC. Esses créditos, recusados pelos ingleses na hora
da compra como "parte podre" do Bamerindus, voltaram
às suas mãos, agora como um serviço remunerado
ao BC. Além de ficar com a parte "boa" do banco,
o HSBC passou a ganhar dinheiro com a recuperação
dos créditos da parte "ruim" do Bamerindus. Pelos
serviços, a Midland recebeu uma comissão de 3% ao
ano sobre o valor nominal dos créditos, além de
uma taxa de êxito de 6% pelos valores recuperados. O diretor
de Relações Governamentais do HSBC, Hélio
Duarte, afirma que os serviços são parte de um contrato
perfeitamente legal. Também diz que as taxas citadas pelos
minoritários foram praticadas apenas nos primeiros meses
após a compra do Bamerindus e que, atualmente, o banco
cobra apenas 3% sobre o total efetivamente recuperado.
As
novas suspeitas em torno da venda do Bamerindus comprovam mais
uma vez que, da forma como foi conduzido, o Proer acabou se transformando
em uma fonte inesgotável de denúncias. Atualmente,
a linha de socorro é investigada pela Justiça -
em quatro diferentes ações - e pela Comissão
Parlamentar de Inquérito (CPI) do sistema financeiro. Como
se isso não bastasse, há ainda sérios indícios
de que o BC escolheu mal os pretendentes das instituições
problemáticas. Quatro dos oito bancos que receberam recursos
do Proer para ser adquiridos por novos donos - Econômico,
Banorte, Banqueiróz e Martinelli - tiveram de ser novamente
vendidos por incompetência administrativa ou má-fé
dos banqueiros escolhidos pelo BC. O saldo financeiro também
não é positivo: dos R$ 22,898 bilhões emprestados
para resgatar os bancos, R$ 15,311 bilhões ainda não
foram pagos. Esse dinheiro voltará à medida que
liquidações, como aquela realizada no Bamerindus,
forem devidamente concluídas.
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