24 de novembro de 1999 - nº 117 

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De olho na lavagem
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CPI DO NARCOTRÁFICO
De olho na lavagem
Armínio Fraga cria setor especial no BC para vigiar o trânsito de dinheiro sujo no mercado de câmbio

Sérgio Lírio

Pressionado pelas descobertas da CPI do Narcotráfico, o Banco Central resolveu apertar o cerco contra a lavagem de dinheiro, nome que se dá à legalização do dinheiro sujo dos traficantes e contraventores. Estima-se que, no Brasil, sejam lavados R$ 50 bilhões por ano no mercado financeiro. É um problema tão sério que, na semana passada, o presidente do BC, Armínio Fraga, anunciou a criação de uma divisão para tratar exclusivamente do assunto. O Departamento de Combate a Ilícitos Financeiros (Decif), subordinado à Diretoria de Fiscalização, vai concentrar a equipe de monitoramento do mercado de câmbio, por onde, acredita-se, passa a maior parte do dinheiro lavado pelo tráfico de armas e drogas. Além disso, a instituição resolveu ficar mais flexível na hora de fornecer dados protegidos pelo sigilo bancário.

As medidas são tímidas, mas revelam a disposição de Fraga de responder às críticas de que o BC, ao dificultar o acesso a informações bancárias de suspeitos, impede o avanço de investigações sobre crimes financeiros. De agora em diante, o BC irá revelar a identidade de pessoas que realizarem operações financeiras suspeitas ao Coaf, o conselho do Ministério da Fazenda que cuida de crimes financeiros. Será um dedo-duro e dará nomes aos bois, mas sem fornecer maiores pistas. O banco onde a operação foi feita e os dados sobre a movimentação irregular permanecerão em segredo - qualquer dado pessoal sobre clientes de instituições financeiras só pode ser revelado a pedido de comissões parlamentares de inquérito ou com ordem judicial. Mas a entrega dos nomes de possíveis criminosos ao Coaf poderá ajudar o órgão a cruzar informações e aprofundar eventuais investigações. "Concluímos que revelar os nomes não representará quebra do sigilo bancário", afirmou Armínio Fraga. O ideal, segundo ele, seria mudar as regras envolvendo os dados financeiros das pessoas e empresas. "Mais da metade das solicitações de informações, nós simplesmente não podemos atender", conta Fraga.

Mesmo limitado, o esforço agradou. "Foi um avanço em relação à postura anterior da instituição e deve nos ajudar no trabalho de combate à lavagem", afirma a presidente do Coaf, Adrienne Senna. Na semana anterior, ela havia criticado o BC por dificultar o acesso a informações sigilosas. A criação do Decif deve mesmo dificultar a vida de bancos, casas de câmbio e agências de turismo ligados à lavagem de dinheiro. Estima-se que, no mundo, esse tipo de operação movimente US$ 1 trilhão por ano. Em qualquer país, a investigação desses crimes é uma tarefa difícil, mas aqui ela se torna quase impossível por causa do sigilo bancário. Desconfia-se que a maior parte da lavagem é feita em bancos, mas, por causa das limitações legais e da falta de estrutura, o governo e os parlamentares só conseguem chegar a casos pequenos.

Envie esta página para um amigoA CPI do Narcotráfico, por exemplo, tem se concentrado em rastrear operações ilegais realizadas em casas de câmbio, algumas delas usadas também pelo esquema PC Farias. O único depoimento que acusou funcionários de bancos de participarem de lavagem de dinheiro, por enquanto, é duvidoso e inconsistente. Foi dado há duas semanas pelo colombiano Joaquim Hernando Castilla Jimenez, preso no Ceará por ligações com o Cartel de Cali. Segundo Jimenez, o cartel lavou US$ 720 milhões no Brasil nos últimos seis anos e contou com a ajuda de funcionários de seis instituições financeiras de porte: Unibanco, Bradesco, HSBC Bamerindus, Bozano, Simonsen, Real e Safra. As instituições negam o envolvimento de contratados seus nessas operações - na maioria, ex-funcionários -, mas se disseram dispostas a colaborar com as investigações da CPI. No caso do Safra, o banco nega que a pessoa citada por Jimenez tenha trabalhado lá. Não se espera que instituições respeitadas participem de esquemas como esse. Mas a criação do Decif pode ajudar o governo a chegar aos tubarões da lavagem de dinheiro.

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