CPI DO NARCOTRÁFICO
De
olho na lavagem
Armínio Fraga
cria setor especial no BC para vigiar o trânsito de dinheiro sujo
no mercado de câmbio
Sérgio Lírio
Pressionado pelas descobertas da CPI do Narcotráfico,
o Banco Central resolveu apertar o cerco contra a lavagem de dinheiro,
nome que se dá à legalização do dinheiro
sujo dos traficantes e contraventores. Estima-se que, no Brasil,
sejam lavados R$ 50 bilhões por ano no mercado financeiro.
É um problema tão sério que, na semana passada,
o presidente do BC, Armínio Fraga, anunciou a criação
de uma divisão para tratar exclusivamente do assunto. O
Departamento de Combate a Ilícitos Financeiros (Decif),
subordinado à Diretoria de Fiscalização,
vai concentrar a equipe de monitoramento do mercado de câmbio,
por onde, acredita-se, passa a maior parte do dinheiro lavado
pelo tráfico de armas e drogas. Além disso, a instituição
resolveu ficar mais flexível na hora de fornecer dados
protegidos pelo sigilo bancário.
As medidas são tímidas, mas revelam a disposição
de Fraga de responder às críticas de que o BC, ao
dificultar o acesso a informações bancárias
de suspeitos, impede o avanço de investigações
sobre crimes financeiros. De agora em diante, o BC irá
revelar a identidade de pessoas que realizarem operações
financeiras suspeitas ao Coaf, o conselho do Ministério
da Fazenda que cuida de crimes financeiros. Será um dedo-duro
e dará nomes aos bois, mas sem fornecer maiores pistas.
O banco onde a operação foi feita e os dados sobre
a movimentação irregular permanecerão em
segredo - qualquer dado pessoal sobre clientes de instituições
financeiras só pode ser revelado a pedido de comissões
parlamentares de inquérito ou com ordem judicial. Mas a
entrega dos nomes de possíveis criminosos ao Coaf poderá
ajudar o órgão a cruzar informações
e aprofundar eventuais investigações. "Concluímos
que revelar os nomes não representará quebra do
sigilo bancário", afirmou Armínio Fraga. O
ideal, segundo ele, seria mudar as regras envolvendo os dados
financeiros das pessoas e empresas. "Mais da metade das solicitações
de informações, nós simplesmente não
podemos atender", conta Fraga.
Mesmo limitado, o esforço agradou. "Foi um avanço
em relação à postura anterior da instituição
e deve nos ajudar no trabalho de combate à lavagem",
afirma a presidente do Coaf, Adrienne Senna. Na semana anterior,
ela havia criticado o BC por dificultar o acesso a informações
sigilosas. A criação do Decif deve mesmo dificultar
a vida de bancos, casas de câmbio e agências de turismo
ligados à lavagem de dinheiro. Estima-se que, no mundo,
esse tipo de operação movimente US$ 1 trilhão
por ano. Em qualquer país, a investigação
desses crimes é uma tarefa difícil, mas aqui ela
se torna quase impossível por causa do sigilo bancário.
Desconfia-se que a maior parte da lavagem é feita em bancos,
mas, por causa das limitações legais e da falta
de estrutura, o governo e os parlamentares só conseguem
chegar a casos pequenos.
A
CPI do Narcotráfico, por exemplo, tem se concentrado em
rastrear operações ilegais realizadas em casas de
câmbio, algumas delas usadas também pelo esquema
PC Farias. O único depoimento que acusou funcionários
de bancos de participarem de lavagem de dinheiro, por enquanto,
é duvidoso e inconsistente. Foi dado há duas semanas
pelo colombiano Joaquim Hernando Castilla Jimenez, preso no Ceará
por ligações com o Cartel de Cali. Segundo Jimenez,
o cartel lavou US$ 720 milhões no Brasil nos últimos
seis anos e contou com a ajuda de funcionários de seis
instituições financeiras de porte: Unibanco, Bradesco,
HSBC Bamerindus, Bozano, Simonsen, Real e Safra. As instituições
negam o envolvimento de contratados seus nessas operações
- na maioria, ex-funcionários -, mas se disseram dispostas
a colaborar com as investigações da CPI. No caso
do Safra, o banco nega que a pessoa citada por Jimenez tenha trabalhado
lá. Não se espera que instituições
respeitadas participem de esquemas como esse. Mas a criação
do Decif pode ajudar o governo a chegar aos tubarões da
lavagem de dinheiro.
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