24 de novembro de 1999 - nº 117 

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Estevão e seus amigos
Entrada liberada
O mais temido xerife
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Temporada de queixas
Serra vira as empresas
De olho na lavagem
Como gasta o brasileiro
FHC chama os fiscais







PERFIL
O mais temido xerife
Impenetrável para empresários, permissivo para desafetos. Afinal o que pensa Cláudio Considera?

Sergio Leo

(Foto: JOEDSON ALVES)

Considera: "Detesto briga mas não apanho calado"

Ele tem desafetos poderosos no governo: o ministro da Saúde, José Serra, já o acusou de ceder facilmente aos lobbies da indústria farmacêutica, e importantes assessores de FHC chamam de "trapalhada" a divulgação do parecer preliminar em que exigiu a venda da Skol para aprovar a fusão da Brahma e da Antarctica na AmBev. O secretário de Acompanhamento Econômico, Cláudio Considera, 53 anos, funcionário público de carreira, já fez treinamento de guerrilha na juventude e não rejeita as brigas que aparecem no caminho. "Detesto briga, mas não apanho calado", disse à DINHEIRO.

Para os empresários do setor de cervejas, o secretário é "impenetrável". Teria sido arrogante ao recusar documentos para o parecer sobre a AmBev. "Recebi os representantes da indústria várias vezes, mas, a cada novo pedido de informação, sou obrigado a dar dez dias de prazo para resposta", responde o "impenetrável" que diz ter assistido a uma guerra de estudos: "No dia em que eu disse 'chega', a Kaiser foi se queixar ao Planalto". Queixou-se à toa: o parecer do secretário - que, se for levado em conta no julgamento da AmBev, pode inviabilizar o negócio - surpreendeu quem pensava que ele se inclinava a aprovar a fusão.

Até hoje apoiado integralmente pelo ministro da Fazenda, Pedro Malan, Considera mantém discussões com Serra sobre a permissão para a venda de remédios em supermercados e, contra as críticas do ministro, defende o acordo de preços com a indústria farmacêutica. Persona non grata no Ministério da Saúde, ele insiste que o acordo evitou aumentos maiores e tem mantido a cotação de R$ 1,70 para o dólar dos insumos farmacêuticos. A divulgação do parecer sobre a AmBev, apontado por inimigos como um lance de propaganda na busca por maior espaço no governo, é defendida por Considera como uma questão de transparência: "O parecer vai para a Secretaria de Direito Econômico, onde pode ser consultado pelas empresas envolvidas", explica. "Antes, elas divulgavam só as partes que lhes interessavam, e eu acabei com isso."

Ex-colega de Malan no Ipea dos anos 70, Considera foi chamado ao ministério por um amigo de faculdade, o ex-secretário do Tesouro Eduardo Guimarães, com quem havia militado no movimento estudantil. Considera fazia treinamento de guerrilha, na organização Política Operária, a Polop, quando os líderes do movimento foram presos e seus planos de pegar em armas, interrompidos. "Graças a Deus", diz ele. No mestrado, em Brasília, ligou-se a Edmar Bacha, que o chamou para o IBGE - onde sobreviveu por seis anos, a cinco chefes. De volta ao Ipea, aproximou o órgão da equipe econômica a ponto de ver a instituição acusada de oficialista. Liderou o grupo de conjuntura, numa época em que o instituto errou feio ao prever uma recessão que não se concretizou. "Entre 12 instituições que trabalhavam com conjuntura, o Ipea foi o que teve os menores erros", defende-se.

Envie esta página para um amigoEspecialista em formação de preços na indústria, Considera ganhou um prêmio nacional com um trabalho sobre oligopólios do setor de transportes, em que recomendava o controle de preços no setor. Hoje, renega as conclusões do trabalho premiado: "O controle de preços só ajudou a organizar o oligopólio", diz. Considera não esconde que o caso AmBev expõe a crescente divergência entre ele e Gesner Oliveira, o presidente do Cade, responsável pelo julgamento dos casos de ameaça à concorrência. Comenta-se em Brasília que um dos motivos da briga seria a proposta de criação de uma Agência de Defesa da Concorrência. "Falam que disputo com o Gesner a presidência dessa agência. Mas não faz sentido nenhum juntar no mesmo órgão os responsáveis pelas análises técnicas e os que fazem os julgamentos." E descarta: "Estou bem contente onde estou e a área econômica não abre mão de opinar sobre os atos de concentração econômica". Por área econômica, leia-se Cláudio Considera.

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