PERFIL
O mais
temido xerife
Impenetrável
para empresários, permissivo para desafetos. Afinal o que pensa
Cláudio Considera?
Sergio Leo
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(Foto:
JOEDSON ALVES)
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Considera:
"Detesto briga mas não apanho calado" |
Ele tem desafetos poderosos no governo: o ministro da Saúde,
José Serra, já o acusou de ceder facilmente aos
lobbies da indústria farmacêutica, e importantes
assessores de FHC chamam de "trapalhada" a divulgação
do parecer preliminar em que exigiu a venda da Skol para aprovar
a fusão da Brahma e da Antarctica na AmBev. O secretário
de Acompanhamento Econômico, Cláudio Considera, 53
anos, funcionário público de carreira, já
fez treinamento de guerrilha na juventude e não rejeita
as brigas que aparecem no caminho. "Detesto briga, mas não
apanho calado", disse à DINHEIRO.
Para os empresários do setor de cervejas, o secretário
é "impenetrável". Teria sido arrogante
ao recusar documentos para o parecer sobre a AmBev. "Recebi
os representantes da indústria várias vezes, mas,
a cada novo pedido de informação, sou obrigado a
dar dez dias de prazo para resposta", responde o "impenetrável"
que diz ter assistido a uma guerra de estudos: "No dia em
que eu disse 'chega', a Kaiser foi se queixar ao Planalto".
Queixou-se à toa: o parecer do secretário - que,
se for levado em conta no julgamento da AmBev, pode inviabilizar
o negócio - surpreendeu quem pensava que ele se inclinava
a aprovar a fusão.
Até hoje apoiado integralmente pelo ministro da Fazenda,
Pedro Malan, Considera mantém discussões com Serra
sobre a permissão para a venda de remédios em supermercados
e, contra as críticas do ministro, defende o acordo de
preços com a indústria farmacêutica. Persona
non grata no Ministério da Saúde, ele insiste que
o acordo evitou aumentos maiores e tem mantido a cotação
de R$ 1,70 para o dólar dos insumos farmacêuticos.
A divulgação do parecer sobre a AmBev, apontado
por inimigos como um lance de propaganda na busca por maior espaço
no governo, é defendida por Considera como uma questão
de transparência: "O parecer vai para a Secretaria
de Direito Econômico, onde pode ser consultado pelas empresas
envolvidas", explica. "Antes, elas divulgavam só
as partes que lhes interessavam, e eu acabei com isso."
Ex-colega de Malan no Ipea dos anos 70, Considera foi chamado
ao ministério por um amigo de faculdade, o ex-secretário
do Tesouro Eduardo Guimarães, com quem havia militado no
movimento estudantil. Considera fazia treinamento de guerrilha,
na organização Política Operária,
a Polop, quando os líderes do movimento foram presos e
seus planos de pegar em armas, interrompidos. "Graças
a Deus", diz ele. No mestrado, em Brasília, ligou-se
a Edmar Bacha, que o chamou para o IBGE - onde sobreviveu por
seis anos, a cinco chefes. De volta ao Ipea, aproximou o órgão
da equipe econômica a ponto de ver a instituição
acusada de oficialista. Liderou o grupo de conjuntura, numa época
em que o instituto errou feio ao prever uma recessão que
não se concretizou. "Entre 12 instituições
que trabalhavam com conjuntura, o Ipea foi o que teve os menores
erros", defende-se.
Especialista
em formação de preços na indústria,
Considera ganhou um prêmio nacional com um trabalho sobre
oligopólios do setor de transportes, em que recomendava
o controle de preços no setor. Hoje, renega as conclusões
do trabalho premiado: "O controle de preços só
ajudou a organizar o oligopólio", diz. Considera não
esconde que o caso AmBev expõe a crescente divergência
entre ele e Gesner Oliveira, o presidente do Cade, responsável
pelo julgamento dos casos de ameaça à concorrência.
Comenta-se em Brasília que um dos motivos da briga seria
a proposta de criação de uma Agência de Defesa
da Concorrência. "Falam que disputo com o Gesner a
presidência dessa agência. Mas não faz sentido
nenhum juntar no mesmo órgão os responsáveis
pelas análises técnicas e os que fazem os julgamentos."
E descarta: "Estou bem contente onde estou e a área
econômica não abre mão de opinar sobre os
atos de concentração econômica". Por
área econômica, leia-se Cláudio Considera.
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