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O relatório Excel
Procuradores acusam banco de montar conexão de empréstimos irregulares
nas Bahamas e Colômbia
ESTELA
CAPARELLI

EZEQUIEL NASSER: "Concordamos em vender o banco sob enorme
pressão"
(foto: RÉGIS FILHO) |
No dia 26
de junho do ano passado, um mês antes da venda do Excel
Econômico para os espanhóis do Bilbao Vizcaya, os
controladores do banco brasileiro decidiram abater US$ 19.219.162,27
de uma dívida total de US$ 24.219.762,27 da Meco Global,
uma empresa sediada em Bahamas. A decisão, por si só
inusual, foi acompanhada por outra peculiaridade: no contrato
de perdão da dívida não há assinatura
de nenhum executivo do Excel. Essa operação é
uma das que constam na nova denúncia do Ministério
Público contra o banqueiro Ezequiel Nasser e sete outros
gestores do Excel Econômico na 17a Vara da Justiça
Federal em Salvador. Os procuradores, que já haviam acusado
o banqueiro de gestão temerária em agosto, denunciaram
novamente os principais gestores do Excel, dessa vez por formação
de quadrilha e concessão irregular de empréstimos.
Em ambas as denúncias, o MP se baseou em um relatório
de cinco volumes feitos por fiscais do Banco Central após
uma auditoria realizada entre 1997 e 1998 no banco. O novo processo,
ao qual DINHEIRO teve acesso, traz revelações sobre
operações feitas pela agência do banco nas
Bahamas no primeiro semestre de 1998, pouco antes da venda da
instituição para o BBV. Somadas, essas operações
teriam feito desaparecer US$ 124 milhões dos cofres do
Excel Econômico naquele período, conforme antecipou
DINHEIRO há duas semanas. Essas são algumas das
operações descritas no processo:
. Ao longo
de junho de 1998, mais de US$ 13 milhões foram emprestados
pela agência do Excel nas Bahamas às empresas de
Maurício e Rafael Kassin, respectivamente neto e genro
de Rahmo Nasser, pai de Ezequiel Nasser e um dos acionistas do
Excel. Esses créditos, concedidos às empresas Ciplas
(US$ 4,5 milhões), Distribuidora Latino-Americana de Textiles
(US$ 4,82 milhões) e Pernicol (US$ 4,0 milhões)
- todas com sede em Bogotá, na Colômbia -, são
proibidos por lei, porque os donos das empresas beneficiárias
são parentes do controlador do banco. A Ciplas é
uma das maiores empresas de plásticos da Colômbia.
Divide seus escritórios, localizados em um edifício
comercial ao sul de Bogotá (Calle 11, número 60/63),
com a Pernicol, desconhecida dos colombianos e ausente até
da lista telefônica. A Distribuidora Latino-Americana, mais
conhecida como Diltex, vende roupas e acessórios. Sua fábrica
está a 20 minutos do escritório da Ciplas, numa
área industrial também ao sul de Bogotá.
. No dia 26
do mesmo mês, o Excel emprestou US$ 5 milhões à
Orduna Worldwide, outra empresa sediada em Bahamas. Apenas quatro
dias depois, porém, esse mesmo empréstimo foi transformado
em crédito perdido, de liquidação duvidosa.
No mercado, isso normalmente ocorre entre 30 e 90 dias depois
do atraso do pagamento, nunca antes.
. Em 27 de
janeiro de 1998, o Excel deu US$ 9,3 milhões ao Town Square
Finance Group, sediado em Bahamas. Na véspera da autorização
formal do empréstimo, o dinheiro foi liberado por Darci
Gomes do Nascimento, a controller do banco. O crédito foi
lançado a prejuízo no dia 30 de junho de 1998, um
mês antes do vencimento da cobrança, sem que qualquer
explicação tenha sido dada ao Banco Central, como
é de praxe.
Os procuradores
não encontraram respostas para essas movimentações
e querem agora a versão de Ezequiel Nasser.
A Deloitte
Touche, que auditou os balanços do Excel Econômico,
não quis se pronunciar sobre o assunto. Já a família
Nasser, diante das graves acusações, decidiu quebrar
o jejum de silêncio que durava um ano e, pela primeira vez
desde a venda do Excel, pronunciou-se. Por meio de uma nota dirigida
à DINHEIRO, Rahmo e os irmãos Ezequiel e Jacques
(todos acionistas do banco) negaram ter cometido irregularidades,
sem no entanto contestar especificamente qualquer uma das operações
denunciadas pelos procuradores. A nota limita-se, nesse aspecto,
a desmentir as relações de parentesco entre Maurício
e Rafael Kassin e os acionistas do Excel. "A pessoa mencionada
como genro de um dos denunciados não o é, nem nunca
o foi", diz o documento. "Da mesma forma, outra pessoa,
dita neto do mesmo denunciado, também não o é."
O problema
com essa versão é que tanto Maurício Kassin
como Rafael Kassin constam de uma lista elaborada pelo próprio
Excel Econômico, e enviada ao Banco Central na criação
do banco, com o nome de parentes impedidos de receber dinheiro
da instituição. Essa é uma rotina bancária
- prevista na Resolução 2099 do Conselho Monetário
Nacional - que visa impedir que os banqueiros beneficiem a si
próprios por meio de familiares. Se isso não for
suficiente para justificar as dúvidas da Justiça,
há o fato de que na própria empresa Ciplas, de Bogotá,
funcionários de Rafael Kassin não hesitam em identificá-lo
como "parente" de Rahmo Nasser - como DINHEIRO pôde
constatar com um simples telefonema. Quando se pede aos colombianos
telefones de contato com os "parentes" de São
Paulo, eles dão o número da loja Joelle Sig, que
pertence à mulher de Ezequiel Nasser.
Em 19 e 20
de janeiro do próximo ano, Ezequiel e os outros sete acusados
terão oportunidade de explicar essa situação
em Salvador, na primeira audiência do processo. Além
de Rahmo, Ezequiel e Jacques Nasser, também foram acusados
Gilberto Nobre, Darci Gomes do Nascimento, João Francisco
Negrão, Alain Bigio e Zanon Vladmir dos Santos Flores -
todos eles executivos do Excel. Darci, a ex-controller do Excel,
tem dito a conhecidos estar "desesperada" com a evolução
dos acontecimentos. Muito fiel a Ezequiel, ela trabalha com ele
há anos e nunca enfrentou uma situação tão
ameaçadora. Já Gilberto Nobre, que era vice-presidente
do Excel, e antes disso diretor do Banco Central, está
vivendo o duplo constrangimento de ser acusado de irregularidades
por seus ex-colegas do governo. Nobre também está
profundamente abatido com a situação. Os procedimentos
bancários que Darci, Nóbrega, seus colegas e patrões
terão de esclarecer aos juízes são considerados
estranhos por especialistas do mercado financeiro. "Qual
é o interesse de um banco em jogar para prejuízo
um empréstimo antes do seu vencimento? Isso pode acontecer
em qualquer processo de concordata ou falência, mas tudo
isso precisa ser fartamente documentado", diz Jairo Saddi,
professor do curso de Direito do Instituto Brasileiro de Mercado
de Capitais, o Ibmec. Já o perito financeiro Marcelo Gomes,
de São Paulo, diz que o festival de perdas é uma
rotina nas operações irregulares em paraísos
fiscais. "Elas causam prejuízos consecutivos aos bancos
que concedem os empréstimos", diz Gomes.
As acusações
do Ministério Público são apenas uma parte
da bateria de problemas que o banqueiro Ezequiel Nasser está
fadado a enfrentar. As irregularidades apontadas pelo Ministério
Público serão alvo de investigações
em duas outras frentes: nos Estados Unidos e em Brasília.
Nos EUA, membros do Office of the Comptroller of the Currency
(OCC), organismo que fiscaliza o mercado financeiro americano,
pediram ao Banco Central brasileiro informações
sobre as ações do Excel - segundo apurou o chefe
da sucursal de Brasília, Sergio Leo. Motivo: Nasser ainda
controla o Excel NA, um pequeno banco de investimentos sediado
em Nova York, e as autoridades americanas querem saber qual a
real situação do banqueiro no Brasil. Em Brasília,
os senadores da CPI do Sistema Financeiro decidiram prorrogar
as investigações por mais 56 dias para apurar os
empréstimos irregulares revelados por DINHEIRO há
duas semanas. Agora terão até o dia 30 de novembro
para apurar o caso. "Isso tudo é muito grave. Nasser
veio com a história de que foi forçado a vender
um banco tinindo e agora aparecem essas irregularidades",
diz o senador Jáder Barbalho, que apresentou o requerimento
de prorrogação. Barbalho refere-se ao depoimento
dado por Nasser na CPI em 19 de agosto. Na ocasião, o banqueiro
disse que, mesmo tendo sido vendido ao BBV por R$ 1, o banco era
saudável. "O Bilbao Vizcaya pegou um banco tinindo,
que precisava de capital. Infelizmente, eu não tinha esse
capital para colocar. Se tivesse, seria um investimento muito
bom", disse o banqueiro aos senadores.
As acusações
contra Ezequiel Nasser revelam uma face do banqueiro bem diferente
daquela que ele exibia antes da venda do Excel ao BBV. Para o
grande público, Nasser aparecia como um empreendedor brilhante
e atrevido, capaz de agarrar uma oportunidade e saltar de um pequeno
negócio financeiro para o estrelato da grande banca. Essa
imagem aventureira sempre foi contrabalançada por algo
que agora lhe causa problemas: as sólidas relações
de parentesco. Nasser é sobrinho dos lengendários
Edmond, o controlador do Republic National Bank of New York, e
Joseph e Moise Safra, os donos do Banco Safra. Foi com a compra
do Econômico, em 1996, que Nasser entrou definitivamente
para o clube dos grandes banqueiros do Brasil. Antes da aquisição,
os fiscais do BC já levantavam suspeitas em torno do seu
pequeno banco de investimentos, o Excel, que tinha um patrimônio
líquido de R$ 104 milhões. Um relatório do
BC apontava operações irregulares com as CC-5 (contas
de não-residentes), que teriam por objetivo a lavagem de
dinheiro. Assim mesmo, a absorção do Econômico
de Ângelo Calmon, cujo patrimônio era sete vezes maior
que o do Excel, foi aprovada pelo próprio BC. "Não
tínhamos provas concretas contra ele. Além do mais,
Nasser era o único que queria comprar o Econômico",
diz um ex-graduado funcionário do BC que participou das
negociações.
As acusações
dos fiscais acabaram sendo arquivadas e esquecidas. Rapidamente,
Nasser - com seu inseparável charuto - conquistou a simpatia
dos clientes e da mídia, inaugurando um novo estilo na
elite brasileira: o do banqueiro popular. Assistia a jogos dos
times que patrocinava, como o Corinthians, e dançava nos
camarotes do Carnaval com estrelas do futebol e do axé
music. Investiu pesado em propaganda para vender a imagem de um
banco do futuro que - dois anos depois - seria vendido pelo preço
de um cafezinho. E a história, se depender da Justiça,
ainda não acabou.
Leia também:
Como
a CPI dos bancos foi prorrogada
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