29 de setembro de 1999  

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O relatório Excel
Procuradores acusam banco de montar conexão de empréstimos irregulares nas Bahamas e Colômbia

ESTELA CAPARELLI

EZEQUIEL NASSER: "Concordamos em vender o banco sob enorme pressão"
(foto: RÉGIS FILHO)

No dia 26 de junho do ano passado, um mês antes da venda do Excel Econômico para os espanhóis do Bilbao Vizcaya, os controladores do banco brasileiro decidiram abater US$ 19.219.162,27 de uma dívida total de US$ 24.219.762,27 da Meco Global, uma empresa sediada em Bahamas. A decisão, por si só inusual, foi acompanhada por outra peculiaridade: no contrato de perdão da dívida não há assinatura de nenhum executivo do Excel. Essa operação é uma das que constam na nova denúncia do Ministério Público contra o banqueiro Ezequiel Nasser e sete outros gestores do Excel Econômico na 17a Vara da Justiça Federal em Salvador. Os procuradores, que já haviam acusado o banqueiro de gestão temerária em agosto, denunciaram novamente os principais gestores do Excel, dessa vez por formação de quadrilha e concessão irregular de empréstimos. Em ambas as denúncias, o MP se baseou em um relatório de cinco volumes feitos por fiscais do Banco Central após uma auditoria realizada entre 1997 e 1998 no banco. O novo processo, ao qual DINHEIRO teve acesso, traz revelações sobre operações feitas pela agência do banco nas Bahamas no primeiro semestre de 1998, pouco antes da venda da instituição para o BBV. Somadas, essas operações teriam feito desaparecer US$ 124 milhões dos cofres do Excel Econômico naquele período, conforme antecipou DINHEIRO há duas semanas. Essas são algumas das operações descritas no processo:

. Ao longo de junho de 1998, mais de US$ 13 milhões foram emprestados pela agência do Excel nas Bahamas às empresas de Maurício e Rafael Kassin, respectivamente neto e genro de Rahmo Nasser, pai de Ezequiel Nasser e um dos acionistas do Excel. Esses créditos, concedidos às empresas Ciplas (US$ 4,5 milhões), Distribuidora Latino-Americana de Textiles (US$ 4,82 milhões) e Pernicol (US$ 4,0 milhões) - todas com sede em Bogotá, na Colômbia -, são proibidos por lei, porque os donos das empresas beneficiárias são parentes do controlador do banco. A Ciplas é uma das maiores empresas de plásticos da Colômbia. Divide seus escritórios, localizados em um edifício comercial ao sul de Bogotá (Calle 11, número 60/63), com a Pernicol, desconhecida dos colombianos e ausente até da lista telefônica. A Distribuidora Latino-Americana, mais conhecida como Diltex, vende roupas e acessórios. Sua fábrica está a 20 minutos do escritório da Ciplas, numa área industrial também ao sul de Bogotá.

. No dia 26 do mesmo mês, o Excel emprestou US$ 5 milhões à Orduna Worldwide, outra empresa sediada em Bahamas. Apenas quatro dias depois, porém, esse mesmo empréstimo foi transformado em crédito perdido, de liquidação duvidosa. No mercado, isso normalmente ocorre entre 30 e 90 dias depois do atraso do pagamento, nunca antes.

. Em 27 de janeiro de 1998, o Excel deu US$ 9,3 milhões ao Town Square Finance Group, sediado em Bahamas. Na véspera da autorização formal do empréstimo, o dinheiro foi liberado por Darci Gomes do Nascimento, a controller do banco. O crédito foi lançado a prejuízo no dia 30 de junho de 1998, um mês antes do vencimento da cobrança, sem que qualquer explicação tenha sido dada ao Banco Central, como é de praxe.

Os procuradores não encontraram respostas para essas movimentações e querem agora a versão de Ezequiel Nasser.

A Deloitte Touche, que auditou os balanços do Excel Econômico, não quis se pronunciar sobre o assunto. Já a família Nasser, diante das graves acusações, decidiu quebrar o jejum de silêncio que durava um ano e, pela primeira vez desde a venda do Excel, pronunciou-se. Por meio de uma nota dirigida à DINHEIRO, Rahmo e os irmãos Ezequiel e Jacques (todos acionistas do banco) negaram ter cometido irregularidades, sem no entanto contestar especificamente qualquer uma das operações denunciadas pelos procuradores. A nota limita-se, nesse aspecto, a desmentir as relações de parentesco entre Maurício e Rafael Kassin e os acionistas do Excel. "A pessoa mencionada como genro de um dos denunciados não o é, nem nunca o foi", diz o documento. "Da mesma forma, outra pessoa, dita neto do mesmo denunciado, também não o é."

O problema com essa versão é que tanto Maurício Kassin como Rafael Kassin constam de uma lista elaborada pelo próprio Excel Econômico, e enviada ao Banco Central na criação do banco, com o nome de parentes impedidos de receber dinheiro da instituição. Essa é uma rotina bancária - prevista na Resolução 2099 do Conselho Monetário Nacional - que visa impedir que os banqueiros beneficiem a si próprios por meio de familiares. Se isso não for suficiente para justificar as dúvidas da Justiça, há o fato de que na própria empresa Ciplas, de Bogotá, funcionários de Rafael Kassin não hesitam em identificá-lo como "parente" de Rahmo Nasser - como DINHEIRO pôde constatar com um simples telefonema. Quando se pede aos colombianos telefones de contato com os "parentes" de São Paulo, eles dão o número da loja Joelle Sig, que pertence à mulher de Ezequiel Nasser.

Em 19 e 20 de janeiro do próximo ano, Ezequiel e os outros sete acusados terão oportunidade de explicar essa situação em Salvador, na primeira audiência do processo. Além de Rahmo, Ezequiel e Jacques Nasser, também foram acusados Gilberto Nobre, Darci Gomes do Nascimento, João Francisco Negrão, Alain Bigio e Zanon Vladmir dos Santos Flores - todos eles executivos do Excel. Darci, a ex-controller do Excel, tem dito a conhecidos estar "desesperada" com a evolução dos acontecimentos. Muito fiel a Ezequiel, ela trabalha com ele há anos e nunca enfrentou uma situação tão ameaçadora. Já Gilberto Nobre, que era vice-presidente do Excel, e antes disso diretor do Banco Central, está vivendo o duplo constrangimento de ser acusado de irregularidades por seus ex-colegas do governo. Nobre também está profundamente abatido com a situação. Os procedimentos bancários que Darci, Nóbrega, seus colegas e patrões terão de esclarecer aos juízes são considerados estranhos por especialistas do mercado financeiro. "Qual é o interesse de um banco em jogar para prejuízo um empréstimo antes do seu vencimento? Isso pode acontecer em qualquer processo de concordata ou falência, mas tudo isso precisa ser fartamente documentado", diz Jairo Saddi, professor do curso de Direito do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais, o Ibmec. Já o perito financeiro Marcelo Gomes, de São Paulo, diz que o festival de perdas é uma rotina nas operações irregulares em paraísos fiscais. "Elas causam prejuízos consecutivos aos bancos que concedem os empréstimos", diz Gomes.

As acusações do Ministério Público são apenas uma parte da bateria de problemas que o banqueiro Ezequiel Nasser está fadado a enfrentar. As irregularidades apontadas pelo Ministério Público serão alvo de investigações em duas outras frentes: nos Estados Unidos e em Brasília. Nos EUA, membros do Office of the Comptroller of the Currency (OCC), organismo que fiscaliza o mercado financeiro americano, pediram ao Banco Central brasileiro informações sobre as ações do Excel - segundo apurou o chefe da sucursal de Brasília, Sergio Leo. Motivo: Nasser ainda controla o Excel NA, um pequeno banco de investimentos sediado em Nova York, e as autoridades americanas querem saber qual a real situação do banqueiro no Brasil. Em Brasília, os senadores da CPI do Sistema Financeiro decidiram prorrogar as investigações por mais 56 dias para apurar os empréstimos irregulares revelados por DINHEIRO há duas semanas. Agora terão até o dia 30 de novembro para apurar o caso. "Isso tudo é muito grave. Nasser veio com a história de que foi forçado a vender um banco tinindo e agora aparecem essas irregularidades", diz o senador Jáder Barbalho, que apresentou o requerimento de prorrogação. Barbalho refere-se ao depoimento dado por Nasser na CPI em 19 de agosto. Na ocasião, o banqueiro disse que, mesmo tendo sido vendido ao BBV por R$ 1, o banco era saudável. "O Bilbao Vizcaya pegou um banco tinindo, que precisava de capital. Infelizmente, eu não tinha esse capital para colocar. Se tivesse, seria um investimento muito bom", disse o banqueiro aos senadores.

As acusações contra Ezequiel Nasser revelam uma face do banqueiro bem diferente daquela que ele exibia antes da venda do Excel ao BBV. Para o grande público, Nasser aparecia como um empreendedor brilhante e atrevido, capaz de agarrar uma oportunidade e saltar de um pequeno negócio financeiro para o estrelato da grande banca. Essa imagem aventureira sempre foi contrabalançada por algo que agora lhe causa problemas: as sólidas relações de parentesco. Nasser é sobrinho dos lengendários Edmond, o controlador do Republic National Bank of New York, e Joseph e Moise Safra, os donos do Banco Safra. Foi com a compra do Econômico, em 1996, que Nasser entrou definitivamente para o clube dos grandes banqueiros do Brasil. Antes da aquisição, os fiscais do BC já levantavam suspeitas em torno do seu pequeno banco de investimentos, o Excel, que tinha um patrimônio líquido de R$ 104 milhões. Um relatório do BC apontava operações irregulares com as CC-5 (contas de não-residentes), que teriam por objetivo a lavagem de dinheiro. Assim mesmo, a absorção do Econômico de Ângelo Calmon, cujo patrimônio era sete vezes maior que o do Excel, foi aprovada pelo próprio BC. "Não tínhamos provas concretas contra ele. Além do mais, Nasser era o único que queria comprar o Econômico", diz um ex-graduado funcionário do BC que participou das negociações.

As acusações dos fiscais acabaram sendo arquivadas e esquecidas. Rapidamente, Nasser - com seu inseparável charuto - conquistou a simpatia dos clientes e da mídia, inaugurando um novo estilo na elite brasileira: o do banqueiro popular. Assistia a jogos dos times que patrocinava, como o Corinthians, e dançava nos camarotes do Carnaval com estrelas do futebol e do axé music. Investiu pesado em propaganda para vender a imagem de um banco do futuro que - dois anos depois - seria vendido pelo preço de um cafezinho. E a história, se depender da Justiça, ainda não acabou.

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