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Filme: Beleza Americana





Cartas "Beleza americana"

De: Gerbase

Chegaram muitas mensagens. Tentei incluir o maior número possível, pois creio que, às vezes, os próprios leitores respondem-se mutuamente, mas algumas ficaram de fora. Para a seção não ficar grande demais, tentei ser econômico nas respostas.

De: André Alvarez Alves

Apesar de muitas vezes não concordar contigo, leio sempre tuas críticas com muito prazer, exatamente porque, como você mesmo diz, são textos que devem ser degustados por si só, independentemente do filme a que dizem respeito.

Como alguém que respeita tua opinião, me permito dizer que acho que você vem deixando se influenciar demais pelas expectativas que gera em torno dos filmes. Assim como você recebeu mais que esperava do Homem Bicentenário e passou a adorar o filme, parece que você criou uma expectativa errada em torno do Beleza americana e, não sendo correspondido, se decepcionou.

É lógico que pessoas não são receptores vazios de influências, é claro que cada filme atinge cada um de maneiras diferentes. Entretanto, como você mesmo disse, filmes são obras únicas e devem ser analisados por seus próprios méritos e defeitos.

Também não acho Beleza americana o filme mais contestador e pertubador (vide lista do Reichenbach...) de todos os tempos. Mas o filme é espontâneo, crítico, sarcástico, tem diálogos ótimos, é muito bem representado, e é tudo menos acomodador. Tem qualidades que podem sustentá-lo por si só, além de nunca ter sido sugerido que Beleza americana cumpriria o mesmo papel ou seguiria a mesma linha de Felicidade do Solonz.

Felicidade é muito mais inquietante e "porrada no estômago" que Beleza americana. Por outro lado, achei os personagens de Sam Mendes mais verossímeis e auto-justificados. Beleza americana, é honesto pois cumpre o que promete, sem comparações. É isso aí, gosto se discute mesmo (ainda bem...). Espero tua opinião sobre o Ripley. Valeu.

De: Gerbase

Essa comparação com Felicidade, no final das contas, rendeu bastante. É legal ver como diferentes espectadores recebem os filmes de maneiras muito distintas, às vezes até opostas. Para mim, os personagens de Felicidade são muito mais verossímeis que os de Beleza americana. E isso não é uma questão de roteiro, e sim de direção. Por mais inacreditável que seja, por exemplo, o masturbador maluco de Felicidade, o ator o encarna de modo absolutamente humano. Já em Beleza americana, a personagem de Anette Bening é quase uma "normopata", vivendo de acordo com as regras e, de repente, vira uma maluca que grita, dá tiros, ri sem motivo, etc. Pra mim, ela "sai" do filme e passa a estar num palco. E aí não acredito em mais nada. Em Felicidade, roteiro e direção puxam para o mesmo lado. Em Beleza americana, às vezes estão em conflito. Minha opinião sobre o Ripley já tá lá.

De: André Augusto Lux

Gosto muito das suas análises de filmes na página do ZAZ. Leio-o sempre, pois, mesmo não concordando com tudo que escreve, acho suas opiniões sinceras e desprovidas daquele ranço "intelectualóide" que contamina a maioria dos chamados "críticos" que escrevem por aí - os famosos PIMBAs (Pseudo Intelectuais Metidos a Besta) Quanto à sua crítica a Beleza Americana, não poderia concordar mais. Realmente me senti como você, um pouco decepcionado, embora reconheça ser um ótimo filme. Talvez toda a publicidade e aclamação do filme faça a gente entrar no cinema com expectativas demais - que dificilmente serão recompensadas.

O filme é, na minha opinião, um show à parte de Kevin Spacey. Ele realmente consegue mostrar a alma de seu personagem sem ser caricato nem forçado, como infelizmente foi a Anette Bening. Mas faltou alguma coisa ao filme para elevá-lo a uma categoria onde incluo obras primas subversivas como Brazil e Bullworth. Só acrescento que você errou ao ironizar crivo de "melhor filme do ano mesmo estando em março", pois deve lembrar que esse é um filme americano lançado ano passado e vem daí o "melhor do ano" alardeado por todos. Para mim, o melhor do ano é sem dúvida nenhuma O Informante. Esse sim um soco no estômago da hipocrisia norte-americana e, principalmente, nos idiotas que continuam fumando nicotina e jogando fumaça em nossa cara.

De: Gerbase

Não sou PIMBA? Que bom. Se bem que já fui acusado muitas vezes de ser metido a besta. Mas vamos aos fatos: como vocês lerão a seguir, a maioria dos leitores concorda comigo e com o André: Anette Bening está meio metida a besta em Beleza americana. Desculpe a ignorância, mas que filme é esse, Bullworth?

De: Magrah Vergui

Fui ver Beleza Americana porque não dava para ir à Praia com o Leo de Caprio. E acabei apaixonada pelo olhar enigmático, doentio, sensível e poético de Ricky. Algo assim meio perverso, pervertido, mas tão intensamente poético, que saí bem surpreendida. Talvez porque não soubesse nada de antemão sobre o filme. Já curti alguns filmes de Almodóvar e acredito que nossa "sombra" é nossa melhor companheira quando a reconhecemos, incorporamos e tentamos fazer o melhor que podemos para ser felizes, integrando-a à nossa verdadeira personalidade. Assim, acho curioso que um filme que trata dessa "sombra" - que todos vêem, menos seus donos, a classe média americana (e a nossa também) - seja tão pensado para o Oscar. Será que os tempos estão mudando? Será que, no novo milênio (palavra já tão desgastada), todos os "fuzileiros" vão se entregar ao seu feminino, os "executivos de sucesso" vão perceber que também choram, e os "gigolôs" vão perceber que são úteis também ao sistema, etc., etc.?

De: Gerbase

Acho que você está sendo um pouco otimista demais. Ganhar ou não ganhar o Oscar é uma questão da indústria planetária de entretenimento, que, vez por outra, precisa de renovação de linguagem e de temática. Beleza americana (e também o filme do Almodóvar, este sim, uma obra mais ousada) parece ser o "rebelde" da vez, porque conseguiu tornar razoavelmente palatável um certo estilo de filmar que tem sacudido as teias de aranha de Hollywood.

De: Letícia

Já tava ansiosa pela sua crítica de Beleza americana, até que por essa expectativa que se gera em torno de um filme, sobre a qual vc falou. Talvez seja bem melhor uma experiência como a do Homem Bicentenário, pelo qual ninguém dava nada e acabou revelando-se uma boa surpresa. Beleza americana não me decepcionou, mas confesso que esperava um pouquinho mais. Bem, nem tudo é perfeito como as aparências que "eles" lá no filme ostentam...

Só me chateia saber que outros filmes, melhores que Beleza, na minha opinião, foram totalmente esquecidos pelo público e pela Academia, como O Clube da Luta (ainda não me conformo com certos comentários burros que as pessoas fazem a respeito desse filmão!).

Como é bom ir ao cinema e sentir que valeu a pena o ingresso por uma atuação como a de Kevin Spacey (tão diferente do Nicolas Cage, né?). Me senti de fato vivendo toda a hipocrisia daquela vida de aparências. Não que ela só exista na sociedade americana, mas por lá, por alguma razão, as coisas funcionam exatamente daquele jeitinho. Tudo é tão perfeito que irrita, e as pessoas são tão falsas e vazias que surpreendem...

Acho que quem já morou por lá sabe do que estou falando. Mas não acho que a interpretação de Anette Bening (ou de qualquer outro coadjuvante) tenha sido exagerada demais. Pelo contrário! Achei naturalíssima dentro dos padrões considerados "normais" por lá. Exagero é sinônimo de americanidade. E isso vale pra atitudes e discursos arrebatados... Ser "chearleader", ter um sofá de 4.000 e manter as aparências a qualquer custo é realmente uma grande coisa pra eles. É o poder de auto-afirmação e babação acima de qualquer outro valor.

Pelo menos foi essa "lembrança" que trouxe comigo de lá, e foi exatamente essa mensagem e uma crítica sutil e bem humorada que tive de tudo isso ao assistir Beleza Americana. Beleza não matou minha sede por um filmão (do qual já estou sentindo saudades!), mas tenho certeza de que, enquanto filmes assim estiverem sendo exibidos nas salas de cinema, estaremos no mínimo bem servidos! Ah, já faz um tempinho, mas queria te parabenizar pela sua última coluna no COL. Vc disse tudo direitinho, e sem mais comentários, adorei! :))

De: Gerbase

Concordo que os americanos, de modo geral (e os suburbanos em particular), têm essa tendência de exagerar, de declarar sua breguice para o mundo em alto e bom som. Mas, cá entre nós, a Anette Bening passou do ponto. Ela fala sozinha várias vezes, e acaba gritando consigo mesma. Não precisava. Uma "chearleader" é uma exagerada natural, com suas roupas infanto-pornográficas e sua coreografia horrorosa. Ela precisa apenas ser o que é. Não precisa sublinhar cada palavra, cada movimento, ou vira uma striper. Anette Bening não "despiu", simplesmente, sua condição de esposa devotada; ela promoveu um acontecimento de proporções planetárias. E aí não acreditei mais nela. Quer um exemplo do meu "gosto" para suburbanas verossímeis? A hippe tardia da Sigourney Weaver em "Tempestade de gelo".

De: Carlos Corrêa

Concordo 101% com sua crítica sobre o filme. Realmente é uma produção muito bem feita, a história é boa, o resultado é bom, até muito bom. Mas do muito bom pro obra-prima aí também não. Vai ver porque em 1999 não teve nenhuma obra-prima, teve que se eleger um pra não se perder o ano. Não precisa. Acaba criando no público uma expectativa de que vai ver algo espetacular . Por melhor que seja o filme, fica a sensação de que faltou alguma coisa, quando o diretor nunca espalhou por aí que tinha feito uma obra-prima.

Vai ganhar Oscars? Claro, até porque na minha opinião o único filme que poderia fazer frente seria O Informante, mas como é baseado em uma história real (e recente) e trata da indústria do tabaco, o lobby pra não levar não deve ser pouco. Mas voltando ao filme: até achei Beleza americana melhor que Felicidade, entretanto ele faz uma diferenciação da realidade que o filme de Todd Solondz não utiliza. Em Felicidade, todo mundo tem seu lado "podre", digamos assim. Mas para a sociedade, da porta pra fora, são pessoas normais. E em Beleza americana não. Todos os personagens, em maior ou menor grau são caricaturais (principalmente Annette Benning), exceção feita ao casal de gays.

Ou seja, para os mais alienados, pode ficar a impressão de que aquilo é só um filme, não há a identificação imediata de Felicidade. Outro aspecto: o tom exacerbadamente irônico que prepondera até o meio do filme. Não sei... Não é que seja incorreto, mas é justamente aí que a identificação fica dificultada. Tratar o tema com ironia às vezes é um artifício mais fácil, a crítica não fica tão carregada e o público aceita mais fácil. E o filme empilha prêmios. E o estúdio de Spielberg se consagra com menos de 5 anos.

Agora, uma coisa cada vez fica mais evidente: Kevin Spacey é um senhor ator. E o melhor, suas atuações se destacam pela sutileza com que compõe os personagens. Aquele meio segundo quando ele acaba de falar com a amiga da filha, em que fica boquiaberto. Ou a expressão em seu rosto depois de morto. Sensacional. Annette Benning devia olhar essas cenas milhares de vezes, para que quem sabe por osmose ela assimile alguma coisa.

De: Gerbase

É interessante essa sua frase: "Ou seja, para os mais alienados, pode ficar a impressão de que aquilo (Beleza americana) é só um filme." De minha parte, acho que não consegui embarcar totalmente, fiquei um pouco distante, não por alienação, e sim por não acreditar no filme. Posso até ser um alienado, em muitos aspectos, mas não neste: sei quando um filme pretende, conscientemente, criar um distanciamento, e quando este acontece por uma falha estrutural. Eu jamais pediria credibilidade a um filme do Monty Phyton, ou de Lynch, ou de Buñuel, mas Beleza americana seria melhor se todos atuassem como Kevin Spacey, que consegue ser irônico e realista ao mesmo tempo.

De: Bruno.

Gostei muito da sua crítica sobre Beleza americana, bastante lúcida, dando o verdadeiro valor ao filme, mas sem a histeria de boa parte da mídia em relação a ele. Achei muito engraçado quando o Xexéo, na coluna de sexta-feira passada disse que se sentia um cidadão de segunda categoria enquanto não tinha visto o filme. De vez em quando surgem filmes que se tornam verdadeiras febres, você vira um troglodita insensível se ousa discordar do senso comum. Acho que Beleza Americana é um filme que podemos enquadrar nesse gênero, o dos filmes "imperdíveis"...

Não que eu não tenha gostado do filme. Pelo contrário, gostei muito e acredito que vai ganhar merecidamente o Oscar (como bom cinéfilo, já vi todos os outros candidatos a melhor filme e Beleza americana ganha disparado). Só fico um pouco irritado pela gritaria em torno do filme, "O filme do ano", como não cansa de alardear os jornais. Como você, acho que Beleza americana não chega aos pés de Felicidade, esse sim um filme extraordinário, inesquecível. Mas, é claro, a Academia jamais premiaria um filme tão ousado e genial.

Acho que você acertou na mosca ao dizer que o filme é na verdade bem comportado. Eu identifiquei uma "subversão light", nem tão subversão assim, feito sob medida para o Oscar... Gostei muito do roteiro, com ótimas situações. Foi uma boa sacada dizer pro público logo no começo que o protagonista vai morrer, mas ao mesmo tempo fazer suspense até o último minuto sobre quem vai matá-lo. Achei também excelente a cena final, bem montada, com o ponto de vista de cada um diante do tiro. Até chorei com o texto final do Kevin Spacey... Aliás, todo o elenco está muito bem, inclusive a Annette Bening, que você não gostou.

O que acontece é que os dois protagonistas estão em registros diferentes: o Kevin Spacey está num registro mais realista, enquanto a Annette Bening está assumidamente artificial. Pense bem, a personagem dela é uma pessoa que não consegue desgrudar por um segundo sequer de sua sozinha. Acho que ela teve uma atuação canastrona de propósito, porque a personagem age como se estivesse no palco e não na vida real. Ela ficou patética, ao contrário do personagem de Kevin Spacey, que se diz um idiota, mas de idiota não tem nada...

Bem ,vou ficando por aqui, tenho certeza que vai chover e-mails para você essa semana. Prepare-se!

P.S: Sugestão da casa: veja Quero Ser John Malkovich!

De: Gerbase

Não tenho medo de declarar que gosto de um filme e, ao mesmo tempo, apontar como ele seria melhor ainda. É o caso de Beleza Americana, assim como foi o caso de Tempestade de gelo, um belíssimo filme com um final meloso demais. Essas restrições podem ser estéticas (como a questão da interpretação) ou ideológicas (como a que você aponta: o filme anuncia-se como demolidor e depois não chega a cumprir as expectativas). É como ir a um show de rock. Se o cartaz anuncia uma banda pop, que toca nas rádios, que tem um vocalista bem penteado e um baterista que não sua, o público espera ficar sentado, curtindo a música e pensando no vinho do jantar. Se o cartaz é de uma banda punk, com um vocalista alucinado e um baterista que destrói seu instrumento, o público quer pular, dançar e tomar todas as bebidas disponíveis no momento. São coisas diferentes. Eu pensei (e a mídia me induziu a isto) que Beleza americana era punk. Mas não passa de um pop inteligente e bem feito. É legal, mas não dá pra fazer mosh.

De: Aline

Ôi... Vc jah se considerou um punk? Desculpe-me por ser tão direta, mas essa pergunta assola minha alma. Espero que responda. Tchau.

De: Gerbase

Sem dúvida, prefiro vocalistas alucinados e bateristas que suam. Não sou um "punk" clássico, nem nunca me preocupei em ser, ou "parecer", um punk. Fui, sou e serei sempre (enquanto minha banda existir) um cara interessado em punk-rock e suas derivações modernas. Assim, as perguntas que eu sempre faço são as seguintes: os punks gostaram do disco e do show? Os caras se divertiram, dançaram, se jogaram? Se a resposta é sim, acho que continuo tão punk quanto há 15 anos. O que isso tem a ver com cinema e crítica de cinema? Tudo. Ou não?

De: Fernando Vasconcelos

Qual eh o problema do filme ser de um grande estúdio? Pra ser bom tem que ser alternativo e independente? Abomino os últimos filmes de Steven Spielberg, esse do soldado Ryan eh um lixo que nem a primeira seqüência espetacular consegue salvar, pois o filme tem que ser julgado como um todo. E aí, tem que tirar o chapéu pra Beleza americana: o roteiro eh maravilhoso, os atores perfeitos, aquela trinca de adolescentes dá um show, fazia tempo que não via um filme americano tão envolvente, onde você esquece os atores e vê os personagens.

A fotografia também eh espetacular, a trilha sonora, então, nem se fala! Apesar de não gostar de comparar, gostei muito de Felicidade, mas acho que peca pelo exagero de esquisitices (por exemplo, aquele personagem da gorda assassina eh totalmente dispensável) e Seus Amigos, Seus Vizinhos eh legal, mas nao chega nem no chinelo de Beleza Americana.

E ainda ter que agüentar esses comentários de que o filme não eh subversivo de verdade, eh no fundo bem comportado e segue a cartilha de hollywood, bla, bla... Ih, cara, isso pra mim eh inveja! O filme eh delicioso de assistir, tem diálogos brilhantes, e eh claro que não vai mudar a vida de ninguém, ou Felicidade mexeu com os pilares da sociedade americana? São apenas filmes, meu caro, e que leve todos os Oscars que tem direito. OK, ano passado Felicidade bem que merecia umas indicações...

De: Gerbase

São apenas filmes, concordo, mas mulheres são apenas mulheres, mas algumas mudam nossas vidas. Por que algumas são mais "bonitas" do que as outras? Claro que não. É porque algumas fazem diferença. Quando entram (ou saem) de nossas vidas, há um momento de ruptura com o estabelecido. Filmes não mudam o mundo, mas podem mudar as pessoas, que, por sua vez, podem mudar o mundo. Tudo bem, estou sendo muito otimista, quem sabe até conferindo uma responsabilidade ao cinema grande demais para ele, mas qual é a graça de uma obra de arte que não questiona, não incomoda, não faz diferença? Acho que Beleza americana faz diferença. Poderia fazer ainda mais, se, como Felicidade, tivesse um pouco mais de coragem e de acidez.

Não tenho inveja de um bom filme, pelo contrário, eu me aproprio dele, faço com que ele seja um pouco meu, quando o discuto, o defendo, ou o esculhambo. E Oscar nenhum vai mudar minha opinião sobre um filme. Pulp fiction teve poucos prêmios, e poucos filmes são mais influentes que ele na história recente do cinema mundial. Quanto ao fato de ser de um grande estúdio, de uma produtora pequena, ou feito em vídeo, como Festa de família, realmente não faz a menor diferença.

De: Gustavo C.

É interessante observar a reação das pessoas ao término de uma sessão de Beleza americana: todo mundo fica estático, todos mudos, enquanto as luzes se acendem... A platéia se deslumbra, os críticos se derretem, e com razão: Beleza americana é, sim, um dos melhores filmes americanos dos últimos anos. Mas, como vc disse, existem filmes melhores, mas que não tiveram a campanha de grandes estúdios. É o caso do arrasador Festa de Família e também de Tempestade de gelo. Resumindo, para os iniciados em dramas de cair o queixo (inclua-se aí os dois citados na sua coluna, Felicidade e Seus amigos, seus vizinhos, q eu ainda não assisti), Beleza americana é apenas um ótimo filme, ousado para os padrões americanos e hipnótico para o grande público. Quanto aos Oscars, acho que leva pelo menos 3: filme, ator (Kevin Spacey, soberbo) e roteiro. É isso.

De: Gerbase

É. Kevin Spacey merece. E o roteiro também. Mas lembre-se que o Oscar já foi entregue a algumas bombas atômicas no passado.

De: Leonardo de Brito

É claro que Beleza americana não pode ser comparado a Felicidade ou Tempestade de gelo (outro bom filme sobre família) porque esses são melhores. Mas dos filmes que concorrem ao Oscar eu acho esse o melhor. Ele emociona, faz rir, e tem bons atores. Kevin Spacey está ótimo, e eu gostei bastante de Annette Benning (embora ela estivesse caricata algumas vezes). Wes Bentley e Chris Cooper tb estavam ótimos. Uma coisa que quero escrever é que li o roteiro na internet (que sofreu modificações) e o final do filme nesse roteiro estava bem melhor e muito mais cínico, mas no final o filme até que fica bom, não entendo porque gostei tanto do filme mas gostei muito, gostei tanto que já vi 3 vezes.

De: Gerbase

Ah... Uma informação nova. Pois você, meu amigo Leonardo, está recebendo uma missão especial: voltar ao site onde encontrou essa versão anterior do roteiro e resumi-la para nós. Como eram os personagens? Como era o final? Não nos decepcione, soldado Leonardo.

De: Eduardo Vieira

Pela primeira vez, concordo com você em quase tudo. Milagre! Vamos lá, primeiro: nada mais verdadeiro do que a sua afirmação de quão ruim é você ir para o cinema esperando ver A obra-prima. Normalmente não é isso tudo o que seria um bom filme acaba 'decepcionando'. Isso aconteceu comigo principalmente com Central do Brasil, que só fui ver pouco antes do Oscar. Falaram tanto, mas tanto, que eu fui ao cinema esperando a seqüência de Cidadão Kane. É um bom filme, mas tá longe de ficar no meu top 10. Não aceito o argumento 'pra filme brasileiro, ele é excelente'. Enquanto pensarmos assim, que o cinema brasileiro é 'café com leite', não vamos a lugar nenhum.

Mas o assunto é o Beleza americana. Aprendi a não esperar tanto dos filmes. Gostei muito do Beleza americana. Não vi os filmes com os quais você o comparou, mas li que eram filmes muito mais sérios, enquanto Beleza americana utiliza a ironia pra fazer a crítica. O filme é basicamente sobre duas coisas: hipocrisia e auto-estima. Hipocrisia porque todos no filme escondem algo, ou fingem não ver algo. O único que quebra isso é o Lester, que, ao perceber que pode ser despedido, tenta encontrar um meio de recuperar sua auto-estima, que ele já havia perdido ha muito tempo.

É, também, apesar de tudo, um filme otimista. Apesar de morto, Lester não reclama de seu destino, pelo contrário, só lembra das coisas boas. E nos avisa que será assim conosco também. Um lance que você não discutiu (e que eu achei muito importante para se entender o filme) é a alegoria das rosas. Isso me incomodou um pouco. Estariam elas ali só por uma questão estética? Acho que não. Na minha opinião, elas representavam a mulher dele, a parte boa da mulher dele, quando ele era feliz com ela (ela cultivava rosas).

Na verdade, ele queria ser voltar a se dar bem com ela, ele até tenta, mas o abismo já é muito grande. Só a tragédia do final do filme a acorda. Uma última nota: porque você reclama tanto de filmes "bem comportados". Porque cinema tem que ser pra você um ato de rebeldia, tem que agredir o sistema, ou coisa que o valha? Li que o final original do roteiro não era o que vemos no filmes. Talvez o filme tenha sido ‘domesticado' para o grande publico.

De: Gerbase

Eu quase sempre detesto alegorias. Alegoria é coisa de escola de samba, não de cinema. Então, é melhor deixar as rosas lá onde elas estão: nas roseiras. Tá certo, no filme elas também estão em outros lugares: numa banheira, na boca de Spacey, coisa e tal. Ai, ai, ai... Tá parecendo teatro. O Sam Mendes veio da Broadway, e acho que, às vezes, ele se aproxima perigosamente do palco.

É claro que o cinema não TEM que ser rebelde. Ele pode ser qualquer coisa: descompromissado, fascista, alienado, comportado, etc. Mas eu prefiro filmes que me emocionem, me façam pensar e me façam ver o mundo diferente. É uma questão de gosto pessoal, e, no caso da atividade crítica, uma possibilidade real de ampliar as chances de filmes que têm mais dificuldade de atingir o mercado.

De: Lúcia

Olá, gostei muito do Homem Bicentenário, infelizmente passou apenas uma semana aqui em Manaus. Mas, Beleza americana e O Informante não são tão bons, apesar de serem interessantes. Tudo sobre minha mãe, do Almodóvar é bem melhor.

De: Gerbase

Parece ser uma absurdo colocar O homem bicentenário e Tudo sobre minha mãe acima dos outros citados. Mas cinema é assim mesmo: às vezes, o inusitado funciona melhor que o esperado.

De: Heitor Soares de Souza

Discordo de sua posição de que o conto de Asimov seria inferior ao filme. Tenho 35 anos e passei toda a minha adolescência lendo Asimov, Arthur Clarke, Robert Heilein (você já leu sobre a vida de Lazarus Long? Daria um filmaço!) e confesso que, se o filme é muito bom, o conto não fica atrás! Foi muito bom assistir a uma muito feliz adaptação de um autor que venero, mas você percebeu que, no final do filme, quem pede para ser morta é a esposa (contrariando a 1ª lei?), quando, no conto, quem pede é o robô, o que não geraria o conflito no robô assistente? É o tipo de "licença poética" que Asimov não se permitiria, e só quem conhece sua obra poderia notar o que suponho ser uma incongruência. No mais, gostei muito de ler sua crítica; afinal, finalmente concordei com um crítico de Cinema.

De: Gerbase

Reli o conto logo depois de ver o filme. E volto a afirmar: o roteiro de O homem bicentenário é uma adaptação muito feliz, porque encontrou soluções para os problemas da narrativa e ainda acrescentou toneladas de emoção. Eu não disse que o conto era "inferior". É sempre uma sacanagem comparar cinema e literatura. O importante é destacar que Asimov, tenho quase certeza, aprovaria o resultado, mesmo com eventuais "licenças poéticas". O que é a FC se não uma interminável licença poética? Tenho dificuldade para visualizar a cena que você aponta. Se não me engano, os dois estão dispostos a morrer, e Andrew até morre antes. Se a robô Galatea desliga os aparelhos, é porque, certamente, já atingiu uma compreensão mais sofisticada do mundo e está se aproximando da humanidade. A morte e o "deixar um ser humano sofrer um mal" deixam de ser conceitos frios, para serem questões filosóficas. Galatea (que não existe no conto, não é?) fica como uma espécie de continuação de Andrew. Dramaticamente, funciona bem. "Os filhos de Matusalém", de Heinlein, seria um bom filme, mas eu, algum dia, vou filmar "Amor sem limites". Que tal? Viagens no tempo, sexo com um computador, com a própria mãe (sem culpa, nem pecado). Lazarus Long é O CARA. Perto dele, Andrew não passa de uma criança chorona.

De: Regis Felipe Schorr

Gostaria de ressaltar alguns pontos que acho importantes no filme e na sua crítica. Vamos a eles:

1) Dizer que Beleza Americana é uma crítica à sociedade americana é tão incompleto como algo que li esses tempos sobre o Walter Salles, comentando que seus filmes são anti-nacionalistas, mostram apenas o lado "podre" do Brasil. Ora, bobagem! Walter Salles costuma nos mostrar, com um teor poético e realista inigualável, as injustiças de um país que trata a maioria de sua população de forma, para dizer o mínimo, desumana. Se o chapéu serviu aí o problema é outro... Beleza Americana, por sua vez, trata de pessoas que tentam sempre mostrar o que não são, exaltar em si próprias justamente as qualidades que não têm, exatamente para que ninguém perceba suas "fraquezas". Isso pode acontecer tanto acima da linha do Equador quanto nas colunas sociais que estão diariamente nos jornais de um país chamado Brasil.

2) Em se tratando das indicações, considero-as justas, exceto pela de Anette Bening, que realmente teve uma atuação exagerada demais, mesmo para a falsidade que a personagem exigia. Talvez a garota-fetiche de Kevin Spacey merecesse a sua indicação, mas acho que as patricinhas do Ibiza iriam querer exigir o Oscar também. Apenas abrindo um parêntese, considero "A Praia" o melhor dos filmes que estão nos cinemas atualmente, pelo menos o melhor dentre os que assisti. Com "Abobadinho Di Caprio" e tudo, é uma obra, um soco no estômago, daqueles que faz pensar, e muito... Não sei por que ficou de fora do Oscar, acho que não estreou a tempo de constar nas indicações, mas quem conseguir (não está mais em cartaz em boa parte do país) deve conferir.

3) Com relação à família do ex-fuzileiro naval, não restringiria-a a uma caricatura do nazismo. Vejo-a, assim como todos os outros "nichos" abordados no filme, como uma "instituição" que tenta, a todo custo, provar ser o que não é. Alguém da área de psicologia poderia explicar melhor, mas o ex-fuzileiro tem um bloqueio com o fato que culmina na tragédia final do filme. Está tudo no subconsciente, querendo "aflorar".

4) Quanto às comparações que fizeste, não vi Seus Amigos, Seus Vizinhos então vamos para o Felicidade. Acho que, apesar da linguagem poética, Beleza Americana é mais realista que Felicidade. Afinal, mulheres falsas casadas com homens pseudo-bem-sucedidos, garotinhas com a sensualidade superdimensionada e jovens que vivem de vender maconha embaixo do nariz dos pais são encontrados em cada esquina. É claro que há muito mais pessoas abusando de crianças por aí que a nossa pior expectativa possa supor, mas a comparação, ainda assim, é desproporcional. Prefiro, particularmente, Beleza Americana, que, para mim, diferencia-se justamente pelo tom de fábula e ironia que imprime às situações. Além do mais, mostra que existe a possibilidade de reagir, que nunca é tarde para redescobrirmos os discos do Led Zeppelin, bem como o prazer de dizer uns desaforos para quem merece. Uma revolução pessoal quase sempre é auto-centrada e egoísta, o que não significa que seja "incapaz de ver além das fronteiras mais próximas", como colocaste. Por hoje é só (eu acho).

De: Gerbase

Como é? O ex-fuzileiro tem um "bloqueio"? Ela representa um "nicho"? Peraí! O cara é um nazista filho-da-mãe, isso está claro, todo mundo entende. É uma caricatura, mas funciona. Já a esposa dele, a tal morta-viva, é pior que uma caricatura – é uma figurante teatral, está ali só para reforçar o clima sombrio da casa. Não acreditei nela nem por um segundo. Mas voltemos ao militar. Ele é gay ou não? Acho que é, mas ele beija Spacey porque é uma coisa que gostaria de fazer, ou é um desafio, um anúncio do que fará a seguir? Se ele é um "bloqueado", gostaria que o filme deixasse isso mais explícito. Acho que personagens não devem, quase nunca, "representar" setores da sociedade. Eles devem ser homens e mulheres de verdade. Que o público tire suas conclusões "sociais" depois. No mais, concordo com quase tudo que você escreveu. Chamar o Walter Salles de anti-nacionalista é a piada do ano. Viu a foto dele tomando banho com o Fernando Henrique?

De: Rodrigo Vargas

Taí, finalmente alguém criticou o bicho-papão. Também tive a mesma sensação ao sair do cinema: sabia que tinha visto um bom filme, mas não a maravilha cinematográfica do ano, como disseram alguns. O roteiro é divertido, ágil, redondinho, mas não dá uma porrada tão grande assim nos oriundos da classe média, como eu e a maioria do público que estava no cinema (algo como Os Simpsons fazem na tevê há pelo menos dez anos). Não incomodou, e isso é um pecado grave. Sobre a atuação caricata de alguns atores, acho que o Sam Mendes quis mesmo dar aquela aura de sitcom americana, basta ver que o filme é feito basicamente sem externas. Achei interessante o efeito. No entanto, acredito que, dos quatro indicados que pude ver até agora (Beleza, O informante, Regras da vida e Sexto sentido), ele é realmente o melhor no quesito Oscar, apesar de ser inferior em alguns aspectos a O Informante, por exemplo - direção, movimentos de câmera, tensão, emoção. Enfim, é um bom filme, mas superestimado.

PS: Algumas dúvidas: o pai do traficante era homossexual enrustido, ou estava só testando o Spacey?

De: Gerbase

No começo, também fiquei em dúvida quanto à homossexualidade do coronel. Depois ficou evidente. Mas nosso sentimento é parecido em relação ao filme: ele poderia incomodar muito mais, e tirou o pé em função do mercado.

De: Valquiria

Não assisti a nenhum dos últimos filmes que vc comentou, mas não interessa; eu queria mesmo é saber o significado de uma palavra que vc usa muito: "decupagem". O que seriam "idéias de decupagem"? Discurpa a inginoranssia!

PS: Aguardando a crítica de Meninos não choram. E a tal da Hilary Swank?, até onde sei ela já fez uma ponta no famigerado seriado Barrados no Baile.

De: Gerbase

O termo "decupagem" vem do francês e significa, literalmente, "cortar". Decupagem é a atividade, geralmente executada pelo diretor, de planejar, cena a cena, plano a plano, como o filme será realizado: posições e ângulos de câmara, movimentações da câmara e dos atores, etc. É pensar o filme em suas mínimas unidades significativas e deixar isso explícito para toda a equipe técnica.

De: Edman

Não assisti Felicidade, nem Seus Amigos, Seus Vizinhos. Mas, mesmo assim, achei a história de Beleza Americana meio "vamos destruir o american way of life pela milésima vez!". E olha que o filme era até bom, uma comédia de alto nível (leia-se: com um ator de verdade, não com um comediante de olho na bilheteria). Estava me divertindo até que levei uma bala na cabeça: aquele final meio "não queremos fazer um filme revolucionário, queremos um Oscar" me pegou de jeito, até fiquei com vontade de chorar, mas a reviravolta soou muito falsa.

Nem a ousadia do diretor, nem a boa atuação do Kevin Spacey e nem o meu humor do tipo "nada de filmes inteligentes, eu quero me divertir e pronto!" fizeram com que eu aceitasse aquele final "spielbergiano" (aliás o dono do estúdio que bancou o filme é o próprio), desculpem-me os dawsons e fãs do tiranossauro rexe do E.t.

E olha que eu aceitei a atuação da Annete Bening! Só para comentar: o Sam Mendes dirige uma peça onde Nicole Kidman tira a roupa e é chamado de gênio. Mas qualquer diretor espada tiraria a roupa da Nicole Kidman! Eu despiria Nicole Kidman! Então eu sou um gênio, certo? Ou você não despiria a Nicole Kidman? Ah, eu gostei do filme, mesmo com o tal final (mas aquele final...)

De: Gerbase

Certo, mas tem uma coisa: quando você despe a Nicole Kidman, ela está nua em "De olhos bem fechados", ou em "Da magia à sedução"? A nudez, em si, realmente não significa nada, e sim o seu efeito dramático (ou, no caso, erótico). Em Beleza americana, apesar de comedidas, achei as cenas com a loirinha tarada bem feitas e sensuais. Sam Mendes não é um gênio, mas, com certeza, é um cara talentoso e muito esperto.

De: Souza

Como você fui assistir Beleza Americana com enorme expectativa e também sai do cinema um pouco decepcionado. Colocaram o filme nas alturas e já estão até comparando o diretor, um estreante, com mestres como Stanley Kubrick e Robert Altman. Achei apenas um filme inteligente e com boas interpretações, principalmente de Kevin Spacey. É cedo para classificá-lo como obra-prima. Entretanto é bem superior aos dois últimos vencedores do Oscar e sua eventual vitória será mais do que justa. Eu só discordo de você quando diz que não é um filme que tem alma rebelde. Um filme onde um pai de família fuma maconha, se masturba na frente da mulher, tem sonhos eróticos com a amiga da filha, um militar se revela gay e você ainda diz há preservação dos valores da sociedade e que a família de Spacey é razoável. Pra mim isso é uma completa desmoralização da classe média americana e da imagem que ela tinha no mundo (quem sabe assim perdemos a mania de copiá-la em tudo).

De: Gerbase

Eu não disse que era um filme comportado, e sim que era mais tradicional do que parecia ser. Mas não há uma completa desmoralização da classe média. Há uma seqüência de ironias, que não chegam a derrubar nada.

De: Irene Dias

Vi Beleza Americana e adorei, mas na real estou escrevendo para responder ao Marco Antonio (acho que o nome era esse) sobre O Talentoso Ripley - o final é aquele mesmo - o que para mim coroou a grande decepção que foi para mim este filme - muito inferior ao maravilhoso O Sol por testemunha, que eu recomendo.

De: Gerbase

Tá respondido. E agora também vi o filme. O final é a velha volta para o prólogo, sem graça, apesar de compreensível.

De: Fred Steca

Bem, na verdade não venho aqui para concordar ou discordar, mas sim para colocar o meu ponto de vista com relação à beleza de Beleza Americana". Este é um filmaço com "F" maiúsculo! O enredo é fascinante, os atores parecem ser escolhidos a dedo, o casal Space e Bening dá show à parte. Mas o que eu queria dizer é: "que grande vício de comparações que você tem, Gerbase!" É impressionante como você sempre faz comparações dos filmes. Sabe, quando você diz ter ficado um pouco decepcionado com Beleza Americana eu já lembrei em outros casos de críticas que você faz comparando o filme assistido com outros que estão em nossa memória. O que acontece é que sempre que você compara algo não sai legal.

Como você mesmo disse, cada obra é uma obra. Por que compará-lo com outros filmes? Felicidade e Seus Amigos e Vizinhos tratam da mesma temática (relacionamentos pessoais), mas cada um de um modo diferente, tem uma estrutura diferente e nos mostra a mesma situação de ângulos diferentes. Cabe encaixar nesta lista de filmes o sueco Festa de Família (seria sueco mesmo?), o excelente italiano Parente é Serpente e o singular Segredos e Mentiras, mas eu acho que cada um tem seu universo particular e nos surpreende pela originalidade de cada história. Torço por Beleza Americana, Kevin Space, Annette Bening e por toda nova safra do cinema mundial!

PS: Acho que as caras e bocas de Bening no filme soam tão falsos como sua própria personagem, assim como a cena em que ela abraça as roupas do marido, no final do filme. Não seria isso proposital?!?!

De: Gerbase

Festa de família é dinamarquês, e, apesar de ter o mesmo tema de Beleza americana, não é uma comédia, por isso não fiz a comparação. Tento resistir ao meu vício por comparações, mas às vezes, o vício é terrível, você sabe. Vou procurar uma ACA (Associação dos Comparadores Anônimos).

De: Daniela Rejane Krause

No geral, concordo com as suas críticas. Realmente os filmes que geram grande expectativa tendem a decepcionar um pouco. Por isso, gostaria somente de fazer uma observação sobre Seus Amigos, Seus Vizinhos. Não consegui achar grande coisa nesse filme. Tá bom, tem umas tiradas legais, mas os personagens masculinos são caricaturas; na minha opinião, abordados muito superficialmente. A estória parece sem fio, meio sem explicação para as coisas. Nessa leva de filmes, talvez o melhor seja o Felicidade, pela crueldade da "normalidade" dos personagens. Neste aspecto, Beleza Americana é mais adequado ao grande público, pela apresentação mais poética, não tão realista, como você muito bem comentou. De qualquer forma, um bom filme que vale a ida ao cinema.

De: Gerbase

O que acho legal de Seus Amigos, Seus Vizinhos é justamente a sua quase despretensão. É uma história sobre cotidianos, e não sobre grandes "viradas" de personagens.

De: José Ricardo Pinto

Talvez o grande problema de ver um filme depois que o marketing tomou conta de toda sua expectativa, seja essencialmente este pelo qual, você passou. Se sente um pouco decepcionado com o resultado final e enche o filme de "buracos" com os quais fica evidentemente esvaziado para avaliar a real intenção do filme. Conheço gente bem cabeça que foi ver Tudo sobre minha mãe recentemente somente porque o filme explodiu em termos de marketing e saiu chateado e decepcionado com o filme, não o achando "lá estas coisas".

Acho que aconteceu o mesmo com a Bruxa de Blair (olha ela aí de novo, minha gente!). Quando vi Beleza Americana há 4 meses atrás tive uma grata surpresa por ter encontrado numa realização "de grande qualidade técnica" um filme pertubador e inteligente. Dane-se os Oscar e suas indicações. Depois do que vi ano passado, com aquela loirinha gelada e sem sal (sem açúcar e sem nada), ganhar um Oscar de interpretação feminina barrando Emily Watson (no estupendo desempenho por Hillary and Jackie) e a densa interpretação de Fernanda Montenegro (por Central do Brasil), deixei de acreditar TOTALMENTE nessa instituição. Portanto as indicações de Beleza Americana de nada valem e são somente uma marca do marketing intenso que os grandes estúdios fazem em torno de seus produtos.

No entanto Beleza Americana além de ser um retrato bem acirrado de famílias que se decompõem em prol do seu bem estar social, tipicamente norte americana (e por sinal, com alguns respingos bem familiares aos nossos costumes), tem uma direção corajosa e comovente em todo o seu relato e um roteiro digno de merecimento. A grande sacada do filme seja talvez o seu desenrolar. Começa como uma comédia de erros e gracejos sem grandes expectativas, e vai cedendo seu lugar a um denso drama que em alguns trechos chega a nos colocar em situações bem constrangedoras juntos aos seus personagens.

O sorriso leve e faceiro que temos no início do filme, vai cedendo a um sorriso amarelo, constrangedor, que nos leva a uma indignação surpreendente em seu final. Todos são belos, perfeitos, moram bem, comem bem, mas, no entanto, como em toda a sociedade decadente, seus problemas internos são tão corrosivos e podres que acabam se desenvolvendo em tragédia, que é como filme acaba. Assim é Beleza Americana: um filme sobre a podridão com cobertura de glacê colorido e com confeitos de chocolate. Simples e inteligente!

De: Gerbase

Pra mim, o filme está bem no quesito confeitos de chocolate, mas exagera na cobertura de glacê colorido.

De: Roberto Tietzmann

É isso aí: Beleza americana é um bom filme, mas após vê-lo pela segunda vez tive a sensação que não vai resistir no panteão dos grandes filmões da história uma vez passado o hype publicitário a respeito. Provavelmente porque ele não vá tão longe quanto poderia.

O personagem de Kevin Spacey acaba "queimando as pontes" para sua vida naquela sociedade e isso decreta a sua morte. Fora das regras do meio não existe vida possível? De onde vem isso? Desde o teatro grego e suas tragédias? E se ele tivesse pego uma carona com o Dennis Hopper em sua moto, ou seguido alguma outra trilha de liberdade? O personagem padece do mesmo mal do carteiro do Carteiro e o Poeta: ele precisa morrer para se libertar, já que dentro do mundinho dele não tem saída e ele (quer dizer, o roteirista, o diretor, os produtores, etc.) também não busca outro caminho.

Afinal das contas, a "libertação" do personagem serve para que? Fazer musculação e fumar maconha transgênica?? Bolas!!! Que coisa mais adolescente! Sua "libertação" é tão limitada e quase tão careta quanto a sociedade onde ele vivia. O que pode ser uma crítica a mais do filme a seus alvos. Felicidade realmente vai mais longe, colecionando bizarrices sem nunca amarrá-las ou domesticá-las.

A propósito, me lembrei de mais um filme que tangencia essa temática: De Olhos Bem Fechados. Restou a sensação que o desequilíbrio do personagem de Tom Cruise foi mais intenso (e mais interessante) que o Beleza americana, apesar da cara eterna de bom-moço de Mr.Cruise!

De: Gerbase

De olhos bem fechados estabelece o conflito do casal a partir de uma conversa franca, em que a mulher diz ter sentido desejo por outro homem. Os dois, em nenhum momento, insinuam que suas vidas podem ser radicalmente diferentes das que experimentam há algum tempo. Assim, o périplo de Cruise é quase uma "noite de vingança". Temos, pois, um fiapinho de história, que vai sendo ilustrada e amplificada com a força do cinema. Em Beleza americana, temos um roteiro cheio de reviravoltas, que, em seu final, é quase policial (quem matou?). Um filme é mais de direção; o outro, de roteiro. Mas, cá entre nós, que diferença entre o final previsível de Beleza americana e aquele maravilhoso diálogo de Cruise e Kidman, em que ela resume maravilhosamente o problema dos dois.

De: Mauricio Bumba

Ate que enfim alguém concorda comigo em algo: Beleza Americana é um grande filme, mas existiram tantos filmes bons (e melhores) esse ano, que a chuva de indicações ao Oscar soa meio intragável. O filme realmente possui um bom roteiro, Kevin Spacey merece o Oscar (o filme não seria metade do que foi sem a presença dele) mas que exagero da mídia em cima dele. É o "queridinho da mídia" desse ano. Realmente o Oscar fica menos sério a cada dia. Assisti a 4 indicados ao Oscar (falta assistir Regras da Vida) e o único que realmente merece estar lá é À espera de um milagre. Esse sim deveria ser considerado genial. Frank Darabont não é um cineasta, e um contador de historias. (Espero que tenha sido claro).

Agora vamos ao Homem Bicentenário: tive acesso a várias críticas no exterior e alguns "user reviews" no Internet Movie Database, e todos chamavam o filme de chato, cansativo e sem graca. Quando eu vi a chamada do filme no Brasil eu entendi: a Warner tentou vender o filme como uma comédia "do mesmo ator e diretor de Uma Babá Quase Perfeita! Conseguiram um feito único: assustar aos amantes de ficção-científica (que gostariam do filme e falariam bem dele) e atrair o público que gosta dos pastelões do Robin Willians. O fracasso do filme se deve a isso: péssimo marketing, tanto que eu só assisti porque era o único filme em cartaz que eu ainda não tinha visto.

Quanto a mim, adorei o filme e não vou me alongar na mensagem. O filme é sensível, tocante e a atuação do Robin Willians está bem contida e sutil, extremamente adequada ao filme.

De: Gerbase

Acho que você matou a questão: o filme tá certo, mas o marketing tá errado.

De: João Daniel Nuvolari

(ainda sobre Vivendo no limite e os compromissos sociais do cinema)

Entendi seu raciocínio. Realmente pensamos o cinema sob aspectos bastante distintos. Acho que valeu a pena o confronto de experiências. Essa resposta é para você em particular, não se trata de publicá-la ou não. Costumo buscar em todos os discursos (por mais ingênuos que possam parecer) sempre novas idéias, novos pontos de vista, ou até mesmo novas soluções para velhos problemas que nós enfrentamos diariamente e que nem sempre temos o hábito de repensar para buscar novas alternativas.

Num mundo onde mudanças são extremas e rápidas, qualquer fiapo de originalidade pode ser profundamente inspirador. Por isso eu acredito que, não só o cinema mas todos os meios de comunicação, devam sim tratar de senão encontrar, ao menos mostrar as soluções que pessoas encontraram. E por mais que "você ache que não e eu ache que sim", acima dessa discussão, o cinema tem feito isso.

Vou colocar dois exemplos: o que os filmes Amor além da vida (ou What Dreams May Come - WDMC) e Matrix têm em comum? (Vou descrever com calma algumas características dos dois filmes, mas não pretendo avaliá-los enquanto dramaticamente sustentáveis, ou como filmes de ação/drama, não me arrisco a dizer nada a respeito pq não sou cineasta, não estudo arte/dramatização ou qq coisa do tipo, sou apenas espectador.) Voltando ao raciocínio, o que os dois filmes têm em comum é uma nova forma de pensar a realidade. Sendo ou não essa a intenção dos autores/diretores/equipe (sei lá), uma mensagem (talvez sem querer) é passada ao público (como eu) mais consciente: "A realidade não existe. Mas ela pode ser criada."

No filme WDMC, o protagonista descobre que, para viver enquanto espírito, ele necessita criar com sua mente a realidade onde vai estar. Então ele tem aquele pequeno paraíso particular criado pelos seus sonhos mais íntimos, inconscientemente. E, paralelamente, sua esposa encontra-se numa realidade perturbadora, parecida com um inferno, onde ela mesma se projeta cada vez mais fundo... Num ato heróico, Robin Williams resgata sua amada desse inferno particular e a conduz ao seu pseudo-paraíso, blá-blá-blá.

No filme Matrix, Keanu Reaves é um avatar moderno que acorda de um sono eterno para descobrir, com sua consciência, que sua vida na "realidade", é controlada por uma máquina que dominou o mundo. Neste filme ele também é introduzido na arte de criar os seus próprios limites (incrível como ele aprende rápido) e controlar seu próprio organismo da maneira como desejar, dentro de uma realidade virtual. O resto da estória dos dois filmes não tem a menor importância nem aqui, nem na vida de ninguém. Para mim, é apenas um meio de manter o público sentado na cadeira.

Neste tipo de filmes o enredo é a última coisa de que me recordo. Entretanto, essas pequenas nuances, raciocínios fantasiosos, criações até mesmo infantis da cabeça dos escritores são a minha verdadeira paixão. E aí muita gente pode dizer, "mas de que adianta isso? Nenhum ser humano é capaz de inventar a própria realidade! Você é louco?" Bom, Julio Verne fantasiou o mundo em que vivemos hoje... Mas, deixando a nostalgia de lado, eu tenho descoberto muitas experiências, muitas teorias e novas formas de se utilizar a mente em livros de autores desconhecidos, com argumentos bastante rigorosos, cientistas com leituras muito diferentes e interessantes sobre a Bíblia.

Alguns cientistas passam a vida observando um fenômeno muito estranho, porém muito real, que é o modo como o pensamento humano, ou melhor ainda, a intenção de uma pessoa com relação a um evento ou objeto, pode afetar o seu estado no Universo. Experiências com plantas e animais que demonstram que um é capaz de pressentir o risco de vida do outro, mesmo estando separados. Tudo isso me obriga a pelo menos experimentar essa nova proposta, sob o risco de ser um absoluto sucesso. E se for um fracasso? E daí? Quem liga? O importante, como eu acredito que diria Tomas Edson se estivesse aqui, é tentar, tentar e tentar. Ou mesmo Winston Churchill: "...nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca desistir!"

De: Gerbase

Só o fato de estarmos discutindo tanto a respeito de Amor além da vida e das responsabilidades do cinema já prova a importância da ousadia autoral nos filmes. Por mais que eu não goste, Amor além da vida realmente é um filme pouco comum. Já Matrix é uma FC visualmente fantástica, com um roteiro um pouco complicado demais. E você achou uma ponte entre eles, ponte que talvez exista para muitas outras pessoas. Isso também é admirável.

De: Fábio Cardozo

Confesso que filmes como Beleza Americana não me atraem muito. Se tivesse que atribuir uma nota, não passaria de 6,0. Por mais questionador, inovador ou diferente que o filme possa ser, Beleza Americana é um filme chato, salvo somente pela atuação do Kevin Spacey, que realmente é digna de um Oscar. Que ator esse cara, não? A Annette Bening continua sendo, para mim, uma atriz de filmes tipo Meu querido Presidente, nada mais.

O ponto alto do filme, no meu entender, é a cena da garagem em que o "machão" do ex-fuzileiro naval tenta algo mais íntimo com o personagem do Kevin Spacey. Aquela cena me surpreendeu, não que seja algo novo ou diferente, mas o filme já estava arrastado demais, o que viesse naquele momento era lucro. Dos cinco indicados, Beleza Americana é o pior filme. Conseguiu ser pior que o The Insider que mereceu uma nota 6,5 no meu ponto de vista.

Queria deixar aqui o meu protesto contra a Academia, que esqueceu-se do excelente Tom Hanks. Ele está simplesmente ótimo em The Green Mile. Não concordo com algumas críticas que disseram que Tom Hanks estava de má vontade ou indisposto para fazer o filme. Ele encarnou perfeitamente o personagem que lhe foi proposto, um carcereiro sério, honesto, calmo e com problemas de infecção urinária. O Oscar de melhor ator vai para Tom Hanks. Não se assuste, eu sei que ele não foi indicado, mas merecia muito mais do que aquele chato do Russel Crowe do O Informante. Na falta dele, vai para Kevin Spacey. Espero ler sua crítica a respeito do A Espera de um Milagre. Esse sim é um grande filme, um pouco longo, mas muito interessante.

De: Gerbase

É, a cena em que ex-fuzileiro assiste seu filho conversando com Spacey e acha que os dois estão tendo um caso é, de longe, a melhor do filme. E é muito sofisticada, pois sua armação é toda de roteiro, mas sua conclusão é absolutamente visual. Já que você gosta de notas, dou nota onze, com miul estrelinhas. É engraçada, faz a história dar uma volta interessante e faz uma relação inusitada entre drogas e sexo.

De: Nivaldo Barros Coelho

Concordo com praticamente tudo que vc falou sobre Beleza Americana. É um produto bem feito, mas no fundo profundamente enquadrado naquele mesmo sistema que critica. Minha única ressalva é em relação à família do ex-fuzileiro. Não acredito que o cinema americano vá mexer com o influente lobby gay, portanto a homofobia histérica (e forçada, pelo menos dramaticamente, como está no roteiro) do ex-fuzileiro é apenas para reforçar a normalidade do casal gay vizinho. Eles são tão família (a grande bandeira defendida pelo filme) quanto seus vizinhos hetero. Nesses tempos politicamente corretos, Hollywood não ia cair na besteira de fazer chacota de gays! Além disso como acreditar na "crítica à sociedade americana" de um filme cuja rebeldia do personagem é comprar um conversível vermelho e fumar maconha ouvindo rock dos anos setenta a toda a altura?

Beleza Americana está concorrendo ao Oscar justamente por ser mais uma vez a reafirmação de todos aqueles valores americanos que estamos cansados de consumir nos filmes hollywoodianos, como vc já bem observou. Isso faz dele uma filme ruim? Claro que não. É bem dirigido, bem interpretado, uma boa história! Nos dias de hoje não é pouco!

De: Gerbase

Tô contigo. Mas pensa bem sobre duas coisas:

a) se Beleza americana ganhar o Oscar, não estará abrindo caminho para outros jovens diretores e roteiros igualmente interessantes?

b) se a "homofobia histérica" do ex-fuzileiro servisse apenas para reforçar a normalidade do casal gay vizinho, sem trazer outros problemas para o enredo, eu concordaria com ela. Mas, como o filme não é sobre isso, fica mais forte a impressão de que um bom (e importante) personagem foi caricaturizado em função de dois figurantes.

De: Marcos Antonio Feitoza

Muito boas suas observações sobre o filme Beleza Americana. De qualquer forma, é um filme bem acima da média. Mas não é sobre ele que quero falar: estou precisando desabafar, pois ontem passei três horas assistindo ao horrível À espera de um milagre, um enorme melodrama, onde cada detalhe busca descaradamente levar o espectador às lágrimas, sem falar dos rídiculos toques sobrenaturais, sem falar do maniqueísmo doente, dos soldados quase santos, dos condenados quase santos, à exceção de um preso e de um soldado absolutamente diabólicos, é claro.

E o miserável do diretor ainda estragou a melhor seqüência quando ressuscitou o maldito rato. Publique, por favor, pois estou precisando ler alguma crítica negativa àquela porcaria, nem que seja a minha mesma. Até mais.

De: Gerbase

Tá publicada. Pô, você arrasou o filme! Depois falamos sobre ele.

De: Eduardo Vieira

(ainda sobre Spielberg e o conflito arte x entretenimento)

Não sei se faz sentido publicar esta mensagem, pois ela é réplica de sua resposta. Mandarei outra sobre o Beleza Americana. Realmente, a continuação de Jurassic Park é ruim. Mas não por ser chata. Chato é A Igualdade é Branca. JPII é ruim porque tem um roteiro sem pé nem cabeça, atuações equivocadas, quebra totalmente o primeiro filme (que já não foi nenhum primor de adaptação; o livro é muito melhor, uma ficção-científica clássica, com detalhes e com questionamento dos limites da genética). JPII foi feito apenas para ganhar dinheiro (certamente para cobrir gastos de algum filme como A Lista de Schindler ou o próprio Amistad, que não vi.).

Você não gosta das trilhas sonoras dos filmes do Spielberg? Acho o Jonh Willians fantástico como compositor de cinema. Suas trilhas sonoras caem muito bem nos filmes. Tanto que seus motivos ficam na cabeça por anos. Temas como o de Guerra nas Estrelas, Tubarão, Caçadores da Arca Perdida...

Quanto à necessidade ou não dos recursos que o Spielberg utiliza, lembre-se que seus filmes são feitos para pessoas no mundo todo, de todas as idades. O que pra você parece redundante, para outras pessoas pode não ser. Tudo bem que você prefira uma coisa mais sutil, mas não acho que seja algo que estrague ou atrapalhe a narrativa de um filme. E, além do mais, os filmes hoje em dia são feitos pensando no público de vídeo também.

Voltamos à estaca zero: cinema é entretenimento ou arte? Pode ser as duas coisas ao mesmo tempo? Até que ponto o diretor pode ceder para que seu filme atinja um público maior? No caso do Soldado Ryan, não acho que tenha sido o patriotismo do filme que o tenha tornado menos interessante. Até porque o filme questiona a decisão de se arriscar um pelotão para salvar apenas um soldado. O maior problema do filme é que existe um tremendo buraco entre o desembarque na Normandia e o combate final do filme.

Fora o personagem do Tom Hanks, os outros todos ficam muito mal desenvolvidos. Na verdade, o meio do filme funciona meio como um descanso entre as duas batalhas. A culpa é mais do roteiro do que do diretor, na minha opinião.

De: Gerbase

Você me pegou no contrapé. Realmente, uma das marcas registradas de Spielberg é a sua parceria com Williams, que já rendeu frutos fantásticos, como os filmes citados (principalmente Caçadores e Tubarão). Mas fique registrado que você também acha o segundo Parque dos Dinossauros um lixo, e ninguém lembra da música dele. Spielberg gosta de desafios de produção, gosta de filmes complicados e gosta de torná-los altamente competitivos no mercado. Tudo isso é bom e, de certa forma, define um autor importante. Mas comparar o o Spielberg com Kieslowsky (A Igualdade é Branca) é como comparar um carro com um romance. Carros nos levam rapidamente alguns quilômetros à frente. Romances nos levam a qualquer ponto do universo em segundos. Carros e romances são úteis, cada um à sua maneira, mas cada um deve ser julgado de acordo com seus méritos específicos e comparados a seus semelhantes metálicos ou literários.

De: Nelson Rogerio Alves

Concordo com quase todas as colocações que você fez em relação a Beleza Americana, e me atreveria a ir um pouco além. Não obstante a acidez lúdica (poderíamos chamá-la assim?) da história, pareceu-me que em momento algum a direção sobressaiu-se. Ficou a impressão de que Sam Mendes limitou-se a executar o roteiro, sem marcar presença criativa. Por certo ele desenvolve uma gramática elegante de condução do filme, uma direção segura de atores (Kevin Spacey, desnecessário dizer, está sublime), mas o filme a todo momento passa a idéia de roteiro filmado, não muito mais que isso. Onde está a mão instigante de um Hal Hartley? De um John Sayles? Porque a de um Sam Mendes ainda não é desta vez que foi mostrada - acho eu.

De: Gerbase

Concordo. Mendes se preocupa em enquadrar com precisão e elegância, mas esquece de colocar a direção a serviço do roteiro. Tenho a impressão que Hal Hartley tem muito mais a nos dizer que ele.

De: Rodrigo Neto Dinnebier

Discordo um pouco de seu ponto de vista a respeito do filme Beleza Americana, embora estejamos de pleno acordo quanto à competência dos outros diretores que você citou (Hartley, Solonz). Acredito que, mesmo tendo sido financiado por um grande estúdio (a Dreamworks), um filme tem plena capacidade de criticar determinados segmentos econômicos e/ou sociais. E nesse aspecto tanto Beleza Americana (que questiona de modo muito eficaz o "american way of life" e a aparente harmonia das famílias de classe média dos States) quanto O Informante (um ataque nem um pouco sutil à indústria de cigarros e à imprensa covarde - você já viu? Se sim, o que achou?) são muito bem sucedidos, em minha opinião.

Tudo bem, houve expectativa exagerada em torno do filme de Sam Mendes, mas, quando fui assistir, procurei me isentar da influência de toda e qualquer propaganda prévia, e confesso que saí bastante satisfeito com o resultado. Concordo que o Oscar realmente não sirva como uma referência, pois a academia nem sempre parece saber o que faz (até hoje não entendi porque deram o prêmio de ator ao Roberto Benigni no ano passado, pois creio que Ian McKellen teve desempenho muito superior em Deuses e Monstros. A Vida é Bela, a propósito, também teve uma grande estratégia de marketing em seu lançamento e foi anunciado antecipadamente como vencedor na categoria de filme estrangeiro, mas não deixou de ser uma crítica bem fundamentada ao nazismo e outros regimes totalitários, certo?).

De qualquer forma, respeito e não subestimo a sua opinião. Até porque vale a pena discutir sobre cinema com quem realmente entende do assunto. P.S.: Você não está sendo um pouquinho implicante com o Spielberg?

De: Gerbase

Eu sou muito implicante com os filmes ruins do Spielberg e gosto dos filmes bons. Pra que colocar um rótulo permanente na testa do diretor? Esse cara é sempre ruim, aquele é sempre bom. Mesmo os gênios fazem besteiras, e até os medíocres, eventualmente, fazem coisas boas. Tento escrever sem preconceitos. Meus conceitos vem dos filmes que assisto.

Recentemente, soube de um caso interessante sobre o marketing de A vida é bela, que foi lançado na Itália durante o Natal. Para atrair o público, em vez de usar as referências óbvias da história - nazismo, holocausto e medo – o cartaz italiano mostra os três personagens do filme sorrindo para a câmara, como uma família feliz, a esposa vestida de vermelho (lembrando um Papai Noel) e um céu bem estrelado (só faltou pintar a estrela de Belém). Tá bom, ou quer mais? Os caras fazem de tudo para vender um filme.

De: Andrezeira

Concordo com a sua opinião acerca de Beleza Americana. Ao me deparar, certo dia, com a manchete do caderno Ilustrada, da Folha, "acusando" Beleza Americana de "melhor filme do ano", já fiquei com um pé atrás. Quando finalmente vi o filme, meus temores se concretizaram. Beleza Americana, a despeito de pretender demolir o americano médio e sua "não-vida" talhada pela hipocrisia e conformismo, é um filme careta. Muito mais pertinentes foram as palavras de Inácio Araújo, também na Folha, para quem o filme é "oportunista e teatral". Não vou tão longe, nem diria que desgostei. Mas, depois de terminada

a sessão, ficou uma sensação de incompletude muito grande em mim, como quem acaba de comer e já está faminto. Gosto de filmes viscerais, desesperados, digamos, e Beleza Americana não me deu isso, nem de longe. Um filme caretão, em suma, e os tijolos de maconha fumados por Kevin Spacey não me tirarão essa impressão.

De: Gerbase

Mas é um excelente filme careta, não é mesmo? Entre um "visceral" em que as vísceras não estão bem amarradas e Beleza americana, fico com o segundo. Me parece que é quase unânime: Beleza americana esteve a um passo de ser um grande filme e ficar na história (como Pulp fiction ficou), mas preferiu tentar o Oscar e ser amado pelas multidões. Não é um defeito, é uma estratégia compreensível. E que o cinema brasileiro precisa aprender a usar, com ou sem os tijolos de macaonha.

De: Jacqueline Guedes

Esse filme Felicidade, que falas tanto, já tem em vídeo?

De: Gerbase

Acho que ainda não. Quando sair, dá uma olhada, que vale a pena.

De: Daniel Galera

Achei teu comentário sobre o Beleza Americana perfeito. Traduziu minha opinião pessoal sobre o filme. Uma crítica social comportada, feita de clichês narrativos, porém muito bem filmada, roteirizada, e com toques de inteligência e poesia que o colocam acima dos outros filmes do gênero. Com exceção, é claro, do Felicidade, que achei uma obra-prima. O fato é que nenhuma crítica social contundente, seja no cinema, na literatura ou em qualquer arte, agrada ao grande público. O que explica o sucesso de Beleza Americana e a estranheza provocada pelo Felicidade, que desagradou muita gente. Já viu Quero ser John Malkovich? Achei genial. Cinema de técnica e criatividade, inventivo e divertido.

De: Gerbase

Na mosca. A crítica social contundente, e contundente MESMO, terá que ser tão rebelde na forma quanto é no conteúdo. Xingar a sociedade é fácil. O difícil é xingar de um jeito novo, criativo, inusitado, destruidor. Acho que Felicidade consegue, e Beleza americana, ainda um pouco preso aos clichês, não consegue. Não vi ainda o Malkovich.

De: Rodrigo Ramiro

Os personagens deste filme passam por faces distintas: no início são mostradas as máscaras deles, o pai medíocre, a mãe ambiciosa e a menina rebelde com sua amiga imbecil. Depois acontece uma revolução em que estas máscaras caem e os personagens se mostram mais "autênticos", o pai assume sua tara pela amiga da filha, começa a fumar maconha e malhar, volta ao velho emprego da adolescência; a mãe começa a ter um caso com seu ídolo no trabalho e a filha bica a amiga para namorar com o estranho vizinho. No final (eu acredito que por pena desses personagens) ocorre a redenção em que o pai se nega a transar com sua musa, a mulher volta para casa para se redimir (na cena em que ela chora no armário) e a filha para se livrar daquele inferno pretende fugir. Lógico que esta descrição merecia o título "rapidinho" e que o filme é agradável e bem acima da média (por isso merece uma crítica mais cautelosa), mas como aconteceu em O clube da luta fica a impressão que Beleza Americana poderia ser um clássico, inesquecível caso houvesse mais coragem ou um diretor

De: Gerbase

A "redenção" de que você fala também me incomoda um pouco. Acho que funciona dramaticamente, mas enfraquece o filme como obra de arte (coisa que ele é, vamos ser generosos). É a velha história do final feliz, que, no caso, é construído apesar da morte do personagem principal. Pensando melhor, não chega a ser feliz, estaria exagerando, mas também perde a oportunidade de ser demolidor.

De: Thiago R. Meirelles

Gostaria apenas de dizer que tenho aprendido muita coisa através de suas críticas e respostas aos leitores. Aprendido não só sobre cinema mas também algo que considero ainda mais importante: a formação própria de opinião. O que vem sendo exposto pra mim aqui é a possibilidade de crescer como pessoa. Devido às divergências de opiniões - suas, minhas e dos outros leitores, naturalmente a gente evolui nossas perspectivas. Oportunidades pra ampliar nossa visão sobre um tema - seja ele real ou não, e pra aprender a defender nossas opiniões são sempre bem-vindas.

Sendo assim, venho lembrá-lo da seriedade que você deve ter ao fazer esse trabalho. Mesmo sendo remunerado apenas pela função de crítico (risos) você assume nessa coluna a função de professor - orientador.

PS: Em certas ocasiões, eu também o vejo como um "saco de pancadas de boxe" e, felizmente pra você, essa função não é remunerada !

De: Gerbase

Encaro esse trabalho com a maior seriedade possível, mas isso não significa que eu fique me policiando antes de dar a minha opinião e falar a respeito dela. Às vezes, ser sério é resistir à auto-censura demasiada. Outras vezes, é ter coragem de bater boca com alguém que você nunca viu, e provavelmente nunca verá, mas mantendo o eixo discussão no filme, e não nas visões de mundo de quem o debate. Sou professor há algum tempo, e uma das coisas que aprendi é que não se pode ter medo de se dizer o que se pensa. Os alunos podem até discordar, mas, no final do semestre, geralmente te respeitam e te agradecem. Até mais.

Beleza Americana (EUA, 1999). De Sam Mendes

Carlos Gerbase é jornalista e trabalha na área audiovisual, como roteirista e diretor. Já escreveu duas novelas para o ZAZ (A gente ainda nem começou e "Fausto"). Atualmente finaliza seu terceiro longa-metragem, Tolerância, com Maitê Proença e Roberto Bomtempo.

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