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MAIS QUE O ACASO
De Don Ross
 

De: José Ricardo Pinto

Filme com Gwyneth Paltrow e Ben Affleck não é lá um grande chamariz para uma ida ao cinema num dia chuvoso. Mas depois de 1/2 hora de projeção, a dúvida conflitante torna-se um delicioso programão de fim de tarde. O filme "Mais que o Acaso" é uma bobagem deliciosamente descompromissada e com isso torna-se curtível até a última lágrima, que são muitas no decorrer do filme. Não há quem não segure o choro ao ver a carinha (como vc mesmo disse) de "eu te perdôo, neguinho" da insossa Gwyneth. Eu não agüentei.

O engraçado deste filme é que apesar de estar carregado de clichês bem esquematizados, tudo se encaixa perfeitamente e você acaba aceitando todo o absurdo romance entre os dois galãs. Tudo comove no filme, portanto tudo funciona. É um típico exemplo de como fazer um baita dum clichezão dar certo. Até a musiquinha melosa entra nas horas certas, apertando o gogó da gente. Está tudo lá: a família americana, a amiga solidária, os filhos sensíveis, o alto padrão de vida, o cachorro serelepe. Enfim, é o próprio American Way of life, mas com uma enorme cumplicidade com a platéia.

Também notei um grande merchandising da Coca Cola, pois latas e garrafas de Diet Coke sapecavam na frente dos personagens o tempo todo. Nada contra, uma vez que nenhum personagem fala: "Ui, que delícia é esta Coca Cola", como acontece em certos merchandisings escancarados das novelas brasileiras. Bom mesmo é saber que Gwyneth continua fiel ao seu estilo de loira gelada e, como eu mencionei numa antiga crítica de Shakespeare Apaixonado, ainda gostaria de vê-la num papel de lésbica ensandecida, de uma presidiária drogada, ou de uma maníaca depressiva com problemas sexuais. Quando chegar este dia, eu me rendo aos talentos de Gwyneth. Resumindo: curti pacas o filme e recomendo geral. Mesmo com o manjado biquinho de Gwyneth.

De: Gerbase

Mesmo para fazer um filme cheio de clichês é preciso um pouco de talento. (Esta, na verdade, é uma paráfrase de "Até para picaretagem é preciso um pouco de talento", de autor desconhecido).

De: Fábio Rubenich

Oliver Stone é um picareta? Pq vc diz isso de um cara que vez Platoon, Platoon, véio??!!! Te lembra, 1986, o primeiro filme sobre o Vietnã a desglamourizar o soldadinho ianque??? Ele não foi nada picareta naquele filme. Foi autêntico, muito pelo contrário. De onde viria esta picaretagem?

De: Gerbase

Ele é um picareta com algum talento, isso não se discute. E a sua picaretagem mais explícita é aquela história de trabalhar com "grandes temas", que certamente renderão mais espaço na mídia que o filme em si: a guerra do Vietnã, os "serial-killers", o assassinato de JFK, o presidente deposto, a maior banda alternativa de todos os tempos, o esporte mais popular dos Estados Unidos, etc. É claro que algumas dessas picaretagens transformaram-se em filmes bem interessantes, mas isso é outra história.

De: Gladstone Barbosa Alves

Não sou de acompanhar muito cinema, por falta de tempo principalmente, mas considero sua coluna um bom meio de se manter atualizado, mesmo que não possamos substituir nossas próprias percepções pelas suas. Mas estou te escrevendo apenas para manifestar minha indignação com alguns protestos que você anda recebendo. Mais especificamente quanto ao direito inalienável de todas as pessoas de se dirigir a uma sala de cinema meramente para se deleitar com algum belo exemplar de ser humano. Não devemos nos cegar em relação às qualidades do filme por causa de nossa empatia especial por um dos atores, mas considero essa motivação completamente legítima. Algumas vezes podemos até nos surpreender com eles. De qualquer maneira ainda sou mais a "boa e velha" Julia Roberts.

De: Gerbase

O cinema e as artes em geral, neste início de século, afastam-se cada vez mais do ser humano, o que até pode ser lógico e já foi motivo de vários trabalhos filosóficos, mas isso não nos obriga a gostar do afastamento. Por isso concordo contigo: "se deleitar com algum belo exemplar de ser humano" não é um ato alienante. É, de certa forma, um ato de resistência. Como Heidegger já provou (e faz tempo), enganam-se os que, inocentemente, pensam que a tecnologia está aí apenas para nos servir, como se pudéssemos pensá-la, controlá-la, usufruí-la, tendo a ciência, ou "o espírito da arte" como grandes garantias de orientação. A tecnologia, cada vez mais, pensa os filmes e pensa o cinema, porque pensa o homem. Não gosto de pensamentos deterministas, muito menos de apocalípticos, mas desconhecer que a tecnologia deixou, há muito, de ser ferramenta, é o primeiro passo para tentar uma defesa, mesmo que destinada ao fracasso, do homem.

De: Boliver Torres

Queria comentar duas críticas tuas. A primeira é sobre DR.T, que eu, grande fã de Altman também não gostei. Não achei um Altman autêntico, concordo contigo. E o que mais me incomoda são os atores. É como se eles não combinassem com a mise-en-scèene, como se houvesse uma escala errada entre ela e os atores. O personagem que eu menos gosto é o da Helen Hunt. Ela, que é uma atriz maravilhosa, está totalmente fora de sintonia, mal dirigida. Mas o Altman continua feroz com a cultura norte-americana (especialmente texana). Tu disseste que os personagens parecem ícones e não tem humanidade - concordo, mas também não foi assim em The Player ou Cenas de um Casamento? Personagens humanos mesmo, só em Kansas Citty ( (e olhe lá). Mas a primeira longa cena no consultório médico, aquele entra e sai incessante que o Altman mostra com um plano só, é perfeito. Aquilo é puro Altman, parece o começo do The Player.

Quanto a Traffic, eu adorei o filme, mas não é o melhor do Soderbergh, embora seja o mais ousado. Depois da picaretagem pra enganar critico que era Irresistível Paixão, eu pensava que o cara tinha sido corrompido pelo sistema. Nesse sentido, até que Traffic é um alívio. Eu acho que tu acertou em cheio, se tem uma coisa que incomoda, é o lado pretensioso. Não adianta, é uma característica do Soderbergh. Vc tem que ver os filmes dele dentro de um contexto. Ele parece um estudante de cinema, faz filmes universitários. O filme Kafka era assim, parecia um estudo sobre o expressionismo alemão, embora o filme fosse bastante sedutor e plasticamente era um colírio.

Pra mim o melhor filme do cara é King Of the Hill, o único realmente sincero, livre, autentico. Por fim, eu queria te parabenizar pelo Brava Gente. De todos os outros episódios da série, foi o único que tinha uma proposta, tanto no roteiro, quanto na mise-en-scène. Os outros eram ilustração barata made in Globo. O teu era o único que tinha uma idéia. Pra mim, é um filme sobre a arte do simulacro. Desde o início, quando a família tenta enganar o comprador, isso fica claro. É uma puta sacada, pq isso acaba justificando a teatralidade dos atores. Eu acho que o grande problema das minisséries e outras parada do gênero que a Globo produz é a direção de atores, é uma teatralidade mal assumida, é um lance muito estranho. Tu desviou esse problema, foi uma grande jogada.

Aquele diálogo entre o Bruno Garcia e a Feldens durante o luar (paródia de Porto dos Milagres?) em que os dois se beijam é perfeito. É totalmente teatral e depois a gente descobre que eles estão ensaiando. É isso aí, o limite que separa a ficção e a realidade é muito tênue. É uma parábola perfeita, uma atualização de Monteiro Lobato. O filme leva pra várias direções, parece um olhar pessimista sobre o cinema brasileiro e acaba uma critica à desesperança. Mas eu não vou me alongar muito. Valeu.

De: Gerbase

Acho que já falei bastante sobre Altman e Soderbergh, mas não custa dizer que concordo com quase tudo que escreves. Quanto ao Brava Gente, só posso agradecer e dizer que tive a sorte de contar com um elenco excepcional, que me ensinou muito sobre televisão e sobre comédia (além de ter um co-roteirista como Jorge Furtado). Foi muito difícil fazer, o tempo de realização para TV é muito escasso, mas o resultado também me surpreendeu. Valeu.

De: Francisco Galliez

Restou dizer que Peter Frampton no final dos anos 60 e inicio dos 70 era o exímio guitarrista de uma banda das mais engajadas e respeitadas do mundo Rock o "Humble Pie" varias vezes citado no filme, participando até da cena da troca das "groupies". O Humble Pie se equivalia a bandas naquela época tais com Led Zeepelin, Who, Allmand Brothers e o que Black Crowes faz hoje em dia. Frampton só se tornou comercial, como você tanto menosprezou, no final dos 70's quando assumiu a carreira solo o qual se inseriu por um caminho sem volta. Portanto, ninguém melhor do que ele para dar assessoria a Crowe sobre uma história que se passa em 1972/73, época esta em que eu morava na Califórnia e tinha quase a mesma idade do Diretor o que me levou as lagrimas em diversas cenas do filme. Seria melhor um pouco da cultura relacionada ao verdadeiro Rock & Roll antes de fazer uma crítica sobre o filme.

De: Gerbase

Humble Pie NÃO foi uma banda da estatura de Led Zeppelin ou The Who. Não é preciso ser um erudito do rock para saber deste fato. Talvez Humble Pie tenha sido melhor que a carreira solo de Frampton, mas isso, convenhamos, é uma barbada. Confesso que nunca ouvi um disco inteiro de Humble Pie e sou incapaz de assobiar uma única melodia. Portanto, mantenho minha opinião sobre a assessoria dada por Framptom ao filme. Ou melhor, posso modificá-la, se admitirmos que Crowe pretendia fazer um filme sobre uma má banda de rock, e por isso chamou um músico de segunda linha e de limitado talento para dizer como é que se fazem belas canções e grandes shows. Mas acho que isso não é bem o que Crowe pretendia.

E até mais. Dessa vez, um pouco mais. Estou me afastando do Terra por um tempo, porque preciso escrever (urgentemente) minha dissertação de mestrado e um novo roteiro de longa. Gosto muito de fazer minha coluna e ainda mais desse diálogo que estabelecemos aqui. Mas não estou conseguindo mais administrar meu tempo, de modo que prefiro parar um pouco, em vez de fazer os textos de modo desleixado (ou ainda mais desleixado que o usual...). Mas a vida é assim mesmo. Não é bela. É complicada. É dura. E poucas vezes fazemos o que realmente queremos fazer. Tive meus momentos de beleza e alegria neste espaço, e pretendo voltar a tê-los assim que a vida permitir.

Mais que o Acaso (EUA, 2000). De Don Roos

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