"Não sou criança, não. Fumo, cheiro, matei, roubei. Sou sujeito-homem". A fala chocante de um personagem com cerca de 12 anos de idade é a síntese maior de Cidade de Deus, produção de Fernando Meirelles e Katia Lund que estréia dia 30 em circuito nacional. O filme, baseado no romance homônimo de Paulo Lins, foca a infância perdida em meio à guerra do tráfico nos morros cariocas - tudo isso sob a ótica inocente do personagem central, Buscapé (Alexandre Rodrigues).
Pela proposta, pode-se esperar por duas horas tensas e atordoantes. De fato, elas os são. Mas ao mesmo tempo em que o espectador choca-se com a cena de uma criança sendo assassinada, em outra gargalha com as trapalhadas e a falta de sorte de Buscapé.
De acordo com Fernando Meirelles, essas diversas impressões devem-se, em parte, ao fato dele ser um paulista que mal conhecia as gírias cariocas quando as filmagens começaram. "Tudo era surpresa para mim, tudo me motivava. Acho que isso acabou gerando um olhar estrangeiro ao filme", conta o diretor.
Buscapé é um garoto criado na favela que dá nome ao filme. Depois de ter o irmão bandido assassinado, ele decide fazer o caminho contrário da maioria de seus colegas: não aderir ao crime e lutar pelo sonho de de tornar fotógrafo. Enquanto conta sua saga, o personagem narra diversas vidas que fazem de Cidade de Deus um pedaço do inferno: os jovens traficantes Zé Pequeno (Leandro da Hora), Bené (Phelipe Haagensen), Mané Galinha (Seu Jorge) e Cenoura (Matheus Nachtergaele).
Direto do morro - Com exceção de Nachtergaele, o elenco de Cidade de Deus é quase todo composto por crianças e jovens recrutados em subúrbios e favelas cariocas. Leandro da Hora, por exemplo, nunca havia atuado antes. "Queria ser militar de carreira", diverte-se diante do contraste.
A idéia inicial era de que todos os atores fossem "crus". "Como nós treinamos os garotos para atuar no improviso, eles tinham uma postura diferente diante das câmeras. Chamamos vários atores conhecidos para interpretar o Mané Galinha, por exemplo. Quando os colocávamos em cena com os meninos, que não têm técnica alguma, não ficava legal", explica Kátia Lund.
Meirelles conta que, para não sobressaltar na tela, Matheus Nachtergaele se comprometeu a não ler o roteiro, assim como todo o restante do elenco. "Quando ele começou a ficar famoso, eu já havia convidado para o filme. Cheguei até a comentar que o fato dele ser conhecido estragaria tudo. Mas deu certo. Matheus é tão bom ator que conseguiu manter o mesmo ritmo com os garotos".
Cannes - Ao lado de Madame Satã, Cidade de Deus foi exibido para a imprensa internacional durante o Festival de Cannes, em maio deste ano, e foi elogiado por diversos veículos especializados em cinema. "Só a Cahiers du Cinema (uma das revistas mais conceituadas do meio) nos deu uma bolinha preta", comenta Meirelles.
O que mais impressionou os jornalistas, porém, foi o trabalho dos atores novatos. Eles comemoram o sucesso. "Acho legal ser reconhecido na rua", diz Jonathan Haagensen. Alexandre Rodrigues, que estuda interpretação há cinco anos no grupo Nós do Cinema, prefere manter os pés no chão: "hoje posso ser famoso, mas um mês depois 'nego' vai me esquecer. É apenas uma fase. Uma das boas fases na minha vida".