Ranking
Colunistas
Festivais
Chats
Newsletter
E-mail
Busca
 

Nelson Pereira dos Santos dá continuidade antigos projetos

Sexta, 20 de julho de 2001, 14h00

Para sempre investido dos papéis de pai do Cinema Novo e de responsável pelo atestado de maioridade do cinema brasileiro, Nelson Pereira dos Santos vive os incômodos da reputação unânime. "É muito chato falar sobre Nelson; tudo já foi dito e só resta fazer elogios." Difícil discordar das sábias palavras de outro cineasta talentoso, Roberto Santos (1928-1987). Mas também é justo dizer que seu comentário brincalhão se aplicaria melhor a um realizador que já considerasse seu ofício como águas passadas e ficasse a relembrar a carreira em nostálgicas rodas de amigos. Não é, em definitivo, o que acontece neste caso.

Há ainda muito o que conversar com o mestre paulistano que efetivou no Rio de Janeiro dos anos 50 um conceito original e viável de realizar sua arte, remodelou-a algumas vezes, contornou-a outras, mas é influência duradoura para sucessivas gerações.

Aos 73 anos, Nelson trabalha, e muito. Mesmo assim, talvez não tanto como gostaria. Tem projetos de longa-metragem para o cinema, a biografia de Castro Alves sempre à frente, mas também quer celebrar amigos e parceiros como o próprio Roberto Santos e o sambista Zé Keti, a quem vai dedicar um curta-metragem. Paralelamente, dedica-se à televisão. Adaptou Gilberto Freyre e se prepara para outro pensador fundamental do Brasil, Sérgio Buarque de Holanda.

Se não aceita ser apenas um medalhão, é inevitável que também o seja. No seu "set" cotidiano, um escritório no salão superior de uma cobertura no bairro carioca de Humaitá, Nelson está cercado de uma prodigiosa biblioteca e videoteca onde é possível marcar os passos da carreira dele e da história do cinema. Em breve, até o fim de 2002, estarão restauradas as cópias de todos os filmes da primeira metade de sua obra, e há planos para lançá-los em DVD. Sobre a mesa, repousam cartas e fax com convites para homenagear o criador de Rio 40 Graus e Vidas Secas, pedidos para palestras ou empréstimo de filmes.

O cineasta havia participado horas antes da solenidade de abertura de uma escola de cinema. Mas se retirou cedo. O motivo se vê nos grossos volumes abertos num canto da mesa. Raízes do Brasil, Visão do Paraíso e outros títulos de Buarque de Holanda.

É seu sonho mais imediato. Ainda não há acordo firmado com alguma emissora, mas não será difícil emplacar o projeto televisivo em meio às comemorações do centenário do autor, no próximo ano. Para abordar o pensamento de Gilberto Freyre, Nelson elegeu a conversa entre um anfitrião, o especialista Edson Nery da Fonseca, e sua assistente como recurso narrativo para dar conta do colossal Casa-Grande & Senzala. Agora quer que os descendentes de Holanda (Chico Buarque inclusive) levem às câmeras as explicações que resumiram o Brasil. Cada um escolheria seu momento predileto da obra e o enunciaria ao público. "Esse será sempre meu tema; tentar entender este país", diz.

Dois grandes pensadores na literatura
Material genuinamente nacional que sempre foi a peça fundamental na engrenagem do cinema de Nelson. Ambos vêm se somar a um time irrepreensível: Graciliano Ramos (Vidas Secas, Memórias do Cárcere), Machado de Assis (Azyllo Muito Louco), Jorge Amado (Tenda dos Milagres, Jubiabá), Guimarães Rosa (A Terceira Margem do Rio). Ao observar que ultimamente Nelson saiu do campo da ficção para se debruçar sobre a obra de cientistas sociais, impossível não lembrar de uma famosa frase do passado. "Chega de sociologia", bradou Nelson em 1974, anunciando que se dedicaria, depois de uma fase experimental, a filmes de teor popular, a começar por O Amuleto de Ogum.

Nelson ri da lembrança e conta de onde a frase surgiu. Certo dia, foi chamado a um escritório de seguridade social, desses tipo Capemi, comuns na época, e recebeu a proposta de realizar um documentário. "Talvez sobre Chico Xavier, não me lembro bem." O diretor do escritório, seguidor do espiritismo, falava ao telefone e repetia: "Chega de sociologia." Depois que desligou, o visitante lhe perguntou o que queria dizer com a frase. "É para interromper alguém que erra e depois não pára de se explicar", ouviu.

Nelson, mais uma vez, adotava a voz popular e lhe dava conotação maior. Fez e faria essa ponte no cinema muitas vezes, ao subir o morro para entender a favela no filme de estréia, Rio 40 Graus, e mesmo depois, para enxergar o que não viu ("ou não quis ver") na primeira vez, no díptico dedicado ao candomblé (O Amuleto de Ogum/Tenda dos Milagres). A mesma atenção ele devota à própria formação familiar, no bairro de classe média do Brás, em São Paulo. Hoje o bronzeado morador do Rio não exibe nenhum traço da cultura industrial que imperava naquele reduto de italianos. Mas é sempre necessário voltar àqueles tempos para se moldar o artista, mesmo que este pareça ter virado as costas à metrópole que o criou.

É um grande momento para tanto. Sem nostalgia, Nelson quer recuperar, em dois projetos, o universo em que passou a infância. Numa animação criativa de garoto, ele bolou um roteiro em homenagem a São Paulo e a José, um de seus três irmãos, designer numa fábrica de vidros. "Ele tem histórias incríveis da industrialização no pós-guerra e um olhar semelhante ao do operário; e isso ainda me permite falar de um tema familiar." Tudo se liga com outras lembranças que lhe são caras, a cultura italiana e a do interior de São Paulo, onde seus pais nasceram. A mãe já está homenageada em outro roteiro ainda não filmado. Angelina Binari dos Santos é filha dos "oriundi" do Vêneto que se fixaram em Caçapava. Nelson foi encontrar ali a trajetória da Banda do 6º Regimento do Exército, formada nos anos 20 por imigrantes e até hoje na ativa. Quer contar história dos seus e do encontro de duas nações.

Família, as idas ao interior, a cultura italiana, as matinês do Cine-Teatro Colombo. Poucas vezes, apenas duas, Nelson refletiu sobre esse tempo em seu cinema. Ambas puramente casuais. A primeira foi indireta e motivada pelo já citado amigo Roberto Santos, coincidente no sobrenome e no ano de nascimento (1928), mas sem parentesco com Nelson. Roberto foi assistente de direção de Rio 40 Graus (1955) e quis repetir a fórmula de cooperativa no primeiro filme que dirigiria. Resultado: Nelson acabou atuando como produtor de O Grande Momento. Naquela história de noivos sem dinheiro no dia do casamento, o cenário era o Brás. Além da sintonia geográfia entre os dois cineastas, havia outra: a inspiração neo-realista. Não por acaso, numa série de TV em andamento, Nelson vai se encarregar da memória do amigo.

Muito diferente foi a outra experiência paulista, Estrada da Vida, já em 1980. Obra de encomenda, esse retrato da cultura sertaneja estrelada pela dupla Milionário e José Rico despertou muitas cobranças ao realizador. Nelson mais uma vez recorreu às raízes e confirmou que sua infância era razão suficiente. Lembrou do pai que ouvia música sertaneja no rádio, de suas idas ao interior, e achou o projeto digno.

Não foi a primeira vez que Nelson se encontrou em posição que não previa ocupar. O diretor chegou como mestre à turma do Cinema Novo, cooptado, como costuma dizer, por Glauber Rocha. Foi ser o montador de Barravento. Certo dia, quem acompanhava o trabalho na moviola era François Truffaut, de passagem pelo Brasil. Nelson seria e ainda é muito querido pela França da Nouvelle Vague. Aquele era o momento em que se preparava para rodar sua obra-prima, Vidas Secas, em 1963. Já prestava contas, portanto, de Rio Zona Norte (1957), tentativa de formar um painel temático com a estréia em Rio 40 Graus, mas bem menos impactante, e com Boca de Ouro(1963), outro projeto encomendado e baseado em Nelson Rodrigues. Começava a se esboçar para o cineasta a dificuldade em experimentar novos registros.

Veio, então, a fase mais conturbada, iniciada com Fome de Amor, em 1968, no chamado "período Paraty", cidade que lhe serviu de cenário em três filmes. A fase tornou-se folclórica, como momento de "desbunde". Nela se incluiriam obras de reconhecimento do público e da crítica, caso de Como Era Gostoso Meu Francês - que se passava nos século XVI, entre os índios, cuja nudez atarantou os censores da ditadura militar - com filmes herméticos como Quem É Beta?, realizado em 1972, para muitos puro delírio. O título corresponde a um dos cortes mais rigorosos e radicais na obra de Nelson. Só para sintonizar a polêmica, o filme ocupou o centro das discussões numa reunião dos cinemanovistas realizada em 1974 e registrada por Alex Viany em seu O Processo do Cinema Novo. Os colegas questionavam como um filme poderia ser genuinamente brasileiro sendo também co-produção com a França, bancada pelo milionário Geraldo Lecléry. O anfitrião, Cacá Diegues, foi o único a defender a obra.

Com a serenidade que lhe valeu a fama de mestre zen, um "japonês" na direção, Nelson concorda que hoje seus filmes descansam em paz. Ou seja, filtrados por diversas visões no tempo, estão em sua maioria "bem registrados e bem lidos". Mesmo ele se dá o direito a uma surpresa ao considerar Fome de Amor o filme de que mais gosta. Muitos viram no embate entre dois casais isolados numa ilha, o tema do filme, um sintoma de alienação em pleno 1968. Nelson propunha uma experiência estética, não política. "Foi a obra em que mais me soltei, na qual melhor consegui exercitar uma linguagem nova; queria me desvencilhar de um momento anterior, precisava disso; era um jovem rebelde e queria transgredir." Responderia aos críticos, no ano seguinte, com um primor de ironia, ao adaptar O Alienista, de Machado, como Azyllo Muito Louco, sua visão política do país naquele momento. Com essa fase, Nelson encerrava um ciclo, o da influência neo-realista, que se iniciara ainda em São Paulo.

Antes da mudança definitiva para o Rio, impulsionada pelo colapso dos estúdios paulistas (Maristela, Vera Cruz), o garoto Nelson viveu seus anos de formação. Primeiro, no cinema, pelas mãos do pai, Antonio Pereira dos Santos, alfaiate que passava os domingos com a família na sala do bairro; depois, na militância política no colégio de segundo grau, quando se aproximou do Partido Comunista Brasileiro; finalmente, na veia de cineclubista, em grêmios estudantis e num centro de cultura judaica do bairro do Bom Retiro. "É o tempo que eu chamo de conhecimento pelo sovaco, pois as bíblias como A Teoria da Montagem, de Eisenstein, estavam sempre debaixo do braço."

Foi nesse período que Nelson conheceu as primeiras vozes do neo-realismo italiano, como Roberto Rossellini. Só compreenderia realmente seus mestres numa curta estada em Paris, quando amigos como os pintores Carlos Scliar, Otávio Araújo e Mário Gruber ou seu futuro iniciador, o cineasta Rodolfo Nanni, lhe indicaram a cinemateca de Henri Langlois. Conheceria, então, Vittorio de Sica e franceses como Jean Renoir, Marcel Carné e René Clair. Não é uma passagem apenas charmosa. "Com meus amigos pintores aprendi a ver; entendi o que era forma, perspectiva e cor." E também apreendeu a luz, que teria um tratamento revolucionário em Vidas Secas.

Aluno de Direito no largo de São Francisco, na virada da década de 40 para 50, Nelson precisou jurar que nunca exerceria a carreira para que um professor o diplomasse. Mas foi como universitário que viu o Rio pela primeira vez, como delegado de um congresso da UNE. Na época, com o equipamento de um amigo, realizou a primeira experiência em 16mm, Juven-tude, sobre operários de São Paulo. De filme em filme, Nelson acabou assumindo, em 1952, a assistência de direção em Agulha no Palheiro, a estréia de Alex Viany, geralmente considerada precursora do Cinema Novo.

Nelson encontrava seu "padrinho". Viany lhe deu a possibilidade de participar de um projeto que apresentava as características depois efetivadas em Rio 40 Graus. Mais importante foi a convivência com personagens da época num folclórico apartamento na praça da Cruz Vermelha. Ali moravam o câmera Hélio Silva, também assistente de Viany, o ator Jece Valadão e o compositor Zé Keti. Este seria colaborador de Nelson em seus primeiros filmes. Daí a homenagem pensada pelo diretor em "Meu Compadre Zé Keti".

No caso de Nelson, toda experiência é fonte de criação. Quando era assistente em "Balança Mas Não Cai" - versão cinematográfica do famoso programa da Rádio Nacional -, costumava subir o morro do Jacarezinho. Daí surgiu o roteiro de Rio 40 Graus, descascada visão da Cidade Maravilhosa, tendo como protagonistas meninos de favela vendedores de amendoim. Uma boa amizade veio a calhar. O veterano cineasta Humberto Mauro emprestou uma câmera. O resto é história. "Reunimos, então, amigos e família e vendemos cotas da produção; depois, ninguém recebeu aquilo que esperava, claro." O filme foi censurado sob alegação de depreciar a imagem do Rio de Janeiro. Ficou famosa uma das razões apontadas pelo chefe de polícia do Distrito Federal, Meneses Cortes, segundo a qual a temperatura do Rio nunca atingia 40 graus. Liberado quatro meses depois, o filme tornou-se um marco divisório do cinema brasileiro, mas não um sucesso de bilheteria.

Mesmo assim, a fama foi suficiente para atrair novos projetos, entre eles um trabalho documental com Jean Manzon e Isaac Rosemberg, de 1956 até 1960. Para estes, Nelson rodou o país e conheceu o sertão, a seca. Começou a imaginar uma história ali. Pesquisou e leu Vidas Secas. Juntou-se ao então fotógrafo, hoje produtor, Luiz Carlos Barreto, e produziu o título-síntese do Cinema Novo.

Recentemente, o cineasta Júlio Bressane assinou um ensaio celebrando a luz de Vidas Secas. "Acho muito importante falar desta questão primordial para o cinema que é a luz e Nelson a utilizou com dramaticidade para seu filme; ele foi pioneiro", diz Bressane. "Eu imaginava uma fotografia como a de Gabriel Figueroa, o mestre mexicano", lembra Nelson. "Mas o Barreto, sabendo das minhas intenções em mostrar um sertão verdadeiro, decidiu tirar os filtros, deixar a lente nua."

Além de todos os méritos pelos quais é famoso, Vidas Secas também é um exemplo do método e dos interesses de Nelson ao pensar um filme. "Sempre foi assim; eu nunca escolhi uma obra específica para filmar, como muitos pensam; eu me interessava por um tema, pensava nele durante alguns anos e aí um dia um livro vinha a calhar."

A única experiência inversa não foi muito feliz. Antes de Vidas Secas, Nelson leu São Bernardo, também de Graciliano Ramos, e decidiu filmá-lo. Só não concordava com a morte da protagonista ao final. Enviou uma carta sugerindo a mudança para o filme. O autor foi seco, como de hábito: "Na minha obra é assim; se você assim quiser, será a sua obra, não mais a minha." Nelson diz não ter esquecido o recado. Ainda viriam muitas incursões literárias, na obra do próprio Graciliano inclusive, com Memórias do Cárcere. Nelson encontra nelas a sua postura básica de conhecer o país, não imitá-lo apenas, nas telas. Começou assim, desde o momento em que o neo-realismo lhe serviu de inspiração. Ninguém melhor para continuar a tarefa.

Orlando Margarido - Investnews/ Gazeta Mercantil

mais notícias
 
Copyright© 1996 - 2001 Terra Networks, S.A.
Todos os direitos reservados. All rights reserved