Pode ser entendido como um manifesto do cinema puro. Sergei Eisenstein, Dziga Vertov, Pudovkin. Sãos mestres da cinematografia russa, nomes que já fazem sentido para quem acompanha o circuito alternativo. É raro, mas suas obras constaram de mostras ou mesmo estão disponíveis em vídeo, caso de Um Homem com uma Câmera (1929), de Vertov, que a Continental levou ao mercado. Essa mesma distribuidora trata agora de reparar outros (muitos) esquecimentos. Além dos títulos máximos daqueles precursores, desvenda outros no pacote em DVD que lança agora. Contempla, no mínimo, um tesouro. Chama-se Eu Sou Cuba, o filme que Mikhail Kalatozov rodou em 1964 nos domínios de Fidel Castro. Há mais 14 títulos, uma antologia que vai de O Encouraçado Potemkim (1925) a Ivan, o Terrível (1945). Também o moderno Tarkovsky. Todos serão exibidos a partir de terça-feira, junto com seminários, em evento do Teatro Popular do Sesi, em São Paulo.É necessário sempre voltar a eles quando se quer dar expressão aos movimentos no cinema. Eisenstein e Pudovkin definiram os preceitos em que se iria basear a arte em sua noção mais séria e investigativa. Um tema recorrente - a luta pelo poder da classe trabalhadora - envolvido em pesquisas de recursos, no caso do primeiro, a preferência absoluta pela montagem, no caso do segundo. No tempo do cinema mudo, era preciso inventar e conhecer os limites. Ambos foram pioneiros e vítimas de um universo de reconhecimento, pagando o preço muitas vezes do não domínio de seu trabalho, como acontece a Eisenstein com seu 'Que Viva México', inacabado por falta de dinheiro e depois retalhado e quase perdido.
Que Viva México não comparece no resgate da Continental. Mas há A Greve (1924), Outubro (1928), o magnífico painel de reconstituição da revolução, o pouco visto Traição na Campina (1937), Alexander Nevsky (1938), o monumental Ivan, o Terrível (1944/48). Uma síntese de Eisenstein, que ainda terá sua concepção de cinema esclarecida no ótimo Sergei Eisenstein - Uma Autobiografia, de Oleg Kovalov, em que o próprio diretor dá sentido ao seu trabalho. De Pudovkin, seu título de resistência, A Mãe (1924), e talvez sua verdadeira obra-prima, Tempestade Sobre a Ásia (1928), no qual exercita sua habilidade. São os tiros certos. Mas há descobertas propostas. Aelita (1924), de Protazanov, é um título precursor da ficção científica, transformando uma comunidade de Marte no espelho do que o diretor assistia na Terra.
É exatamente o contrário o que faz Mikhail Kalatozov. O diretor de Quando Voam as Cegonhas, título que o projeto e lhe rendeu a Palma de Ouro em Cannes de 1958, tem os pés bem no chão de sua terra amada. Ela se chama Cuba, e o filme, Eu Sou Cuba. Ali, para ele, está a perfeição. A ilha é o cenário de um dos mais fascinantes projetos cinematográficos da época. Ou melhor, volta a ser, agora que recuperado e quem sabe valorizado como não foi no lançamento. Talvez um descaso que se explica pela gênese da obra, nascida engajada, peça política panfletária assumida que é. Mas também uma aula de cinema. É o que justifica sua atualidade.
Tão rara que seu vários recursos - da narrativa às técnicas refinadas de filmagem - valem um alerta. Kalatozov queria um painel realista do povo cubano em direção à revolução de 1959. As imagens, ele garantia. Afinal, é herdeiro direto dos mestres de seu país. Mais que um documento, queria um registro a sua maneira, portanto também ficcional. Emprestou da poesia o formato de narrativa. O cubano Enrique Piñeda Barnet e o russo Eugeny Yevtushenko assinaram o roteiro e deram ao diretor o material de que precisava. Assim, nas quatro histórias, uma voz em off alinha os dramas com os poemas. Algumas vezes em espanhol, na maior parte em russo, e outras com as vozes sobrepostas.
Uma jovem cubana que se torna prostituta para os turistas americanos; os estudantes que ocupam escadarias e ruas de Havana, conclamando pela queda de Batista; o camponês que queima sua plantação para não entregá-la a uma companhia americana e por último o nativo miserável de Serra Maestra que aceita se integrar às forças de Fidel, depois de perder tudo. É um painel trágico mas também de amor a uma causa. A de Kalatozov é política, revolucionária, mas também estética. Ele não esquece de sua fé no regime. Nem tão pouco de que é um artista. Ele e o fotógrafo Sergei Urusevsky. Realizaram imagens de rara beleza, no contraste da sombra com a luz magnética da ilha, nos enquadramentos dignos de uma pintura, na comoção e força do elenco, a lembrar Sérgio Corrière e Salvador Wood, ambos atores de Tomás Gutiérrez Alea, o mestre cubano.
A importância em ver reunidos esses clássicos é também verificar como a audácia dos primeiros se repetiu (e se refletiu) em seus sucessores. Nada melhor para essa representação do que enfrentar as três horas e meia de Andrei Rublev, o brilhante painel de Andrei Tarkovsky sobre o pintor do século XV e o questionamento em participar dos movimentos políticos de seu tempo. Tarkovsky pode ser considerado mais próximo - a exibição de sua obra, bem entendido - do público, mas nenhum dos seus títulos é mais tributário de Eisenstein, no formato de relato de um drama histórico, do que este. É um fecho de ouro para quem for se municiar com as tábuas dos mandamentos do cinema.