ROTAS DA RIQUEZA
A CARTOGRAFIA DA
DESIGUALDADE

O capital redesenhou as fronteiras econômicas e países continentais como o Brasil transformaram-se em pouco mais que penínsulas
POR ADRIANA WILNER

Flavia Gonsales

O mapa-múndi redesenhado na proporção da riqueza de cada país é uma obra desconcertante , certamente constrangedora para os cartógrafos, acostumados a ver fronteiras do mundo demarcadas por montanhas, vales, rios e mares. O mapa do capital também define linhas bem distintas daquelas traçadas nos discursos de globalização. O que se observa é que a viagem cada vez veloz de recursos tem como destino o bolso de poucos.

Para ser mais exato, de 358 bilionários, com uma riqueza que supera a renda conjunta dos países onde vivem 45% da população mundial, conforme o The Human Development Report das Nações Unidas publicado no jornal londrino The Guardian. O clube dos bem-afortunados é cada vez mais seleto. Em 1960, os 20% mais ricos da Terra possuíam o equivalente a 30 vezes o quinhão dos 20% mais pobres. A diferença dobrou. Hoje, é de 61 vezes.

A Nova Ordem Mundial se sustenta nas velhas desigualdades entre os habitantes, assim como nas velhas distinções entre classes de países. Os caciques da aldeia global são os 23 países desenvolvidos, que concentram nada menos que 80% do Produto Interno Bruto (PIB) do globo, US$ 20,5 trilhões, mas onde moram apenas 15% da população: Estados Unidos, Canadá, países da Europa Ocidental, Austrália, Japão e Nova Zelândia. Neste grupo exclusivo, a renda per capita média é US$ 24 mil. Nos outros 162 países, US$ 1 mil.

"É fácil de constatar as disparidades, basta dar uma volta nas ruas", disse o lingüista norte-americano Noam Chomsky, ao visitar em novembro pela primeira vez o Brasil. Diariamente, circulam US$ 3 trilhões nos mercados financeiros mundiais. Diariamente também, um quarto dos habitantes do planeta vai dormir com fome, o que corresponde a cinco vezes a população dos Estados Unidos.

Há cada vez menos barreiras para o percurso do capital. O volume de comércio exterior, base da internacionalização econômica, cresceu em média 5,3% nos quatro primeiros anos da década de 90, o maior avanço desde o início dos anos 70. Não houve, porém, contrapartida no aumento da riqueza mundial. Ao contrário: a taxa de crescimento do Produto Interno Bruto anos 90 tem sido a mais baixa da segunda metade do século 20,1,71% ao em média, segundo mostra um estudo do economista Simão Silber, professor da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo. A conclusão é que a intensificação das trocas, um signo da globalização, não tem melhorado a vida da maioria das pessoas nem tampouco da maior parte dos países. O capital circula com mais velocidade, mas o produto continua praticamente o mesmo.

Foto: Olga Vlahou
A economia sem limites
é inevitável, uma espécie
de furacão varrendo
a face da terra
Herman Wever,
presidente da Siemens





UNS GANHAM. Por enquanto, só uma minoria está muito contente com a aceleração das transações: são os armadores, estaleiros, companhias aéreas, produtoras e distribuidoras petrolíferas, instituições financeiras, empresas de informática e de telecomunicações, beneficiários diretos da vertigem global. Sem esquecer dos protagonistas, que são os proprietários dos bens trocados no mercado mundial. O papel principal cabe às multinacionais, responsáveis por dois terços do comércio mundial e 95% do investimento direto entre países. São elas que levam à frente a internacionalização econômica, as estrelas de uma disputa na qual os cicios de vida dos produtos diminuem, os investimentos aumentam, os mercados locais não são suficientes para arcar com os custos e o comércio sem fronteiras torna-se inevitável. "Não há como um país ficar de fora," diz Herman Wever, presidente da Siemens. "É um furacão varrendo a face da Terra. Derrubou a Rússia, vai ,acabar com os sistemas corporativos nos países desenvolvidos e, quem sabe, com o corporativismo brasileiro."

Para Wever, não há sujeito neste processo de abertura econômica. Simplesmente acontece como se fosse um fenômeno natural, inevitável, inquestionável, como um tornado. Um dinheiro sem pátria, alocado conforme a produtividade das máquinas, da tecnologia e dos trabalhadores. A rentabilidade é um resultado automático, que sai do outro lado da equação matemática e determina a parcela justa de cada um. Eis o neoliberalismo: cada indivíduo deve buscar sua satisfação sem restrições, e, qualquer divisão que resulte, será a melhor possível. Interferências de regulamentação só atrapalham. Os mercados são perfeitos, mas desde que seja obedecido um pressuposto que nem memo os mais fundamentalistas crêem valer fora dos livros: todos os participantes têm igual acesso às informações e idênticas condições. O Prêmio Nobel de Economia deste ano foi justamente para dois estudiosos das distorções que ocorrem quando uns sabem mais do que outros, James Mirrlees e William Vickrey.

No mundo concreto e no do pensamento econômico, acumulam-se derrotas. A mão invisível dos neoliberais, ideólogos desse processo, é distinta daquela dos liberais clássicos. O Adam Smith de A Riqueza das Nações tinha plena consciência de que o mercado era apenas o resultado não-intencional dos interesses comezinhos de indivíduos egoístas. E a constatação o incomodava. Os vícios privados eram os males necessários ao desenvolvimento do capitalismo, apesar de não levarem necessariamente ao bem-estar coletivo. O mercado não era perfeito, somente satisfatório.

O Estado teria um papel além de simplesmente garantir o direito de propriedade: manter algumas funções públicas, aquela que, nenhum indivíduo sozinho vai querer bancar porque não lhe dão lucro, mas que mais do que se paga para a sociedade como um todo, diz o pai do liberalismo. Atividades como educação e infra-estrutura seriam exemplos destas funções públicas.

PENSAMENTO ÚNICO. No Novo Testamento do liberalismo, não há espaço para essa ,e outras discussões. Trata-se de uma questão de simples realismo e pragmatismo. O Pensamento Único, de acordo com o criador do termo, o redator-chefe do jornal francês Le Monde, Ignacio Ramonet, surge como um discurso anônimo, dogmático e arrogante. A cartilha do Pensamento Único dita as seguintes normas: Banco Central independente, transparente e apolítico, redução no déficit público, moeda estável, desregulamentação, privatização, liberalização, abertura de mercado, internacionalização da produção industrial, assim como dos fluxos financeiros, competitividade e modernização empresarial, divisão internacional de trabalho com reivindicações sindicais reduzidas. Em resumo, o deus mercado assume a soberania no lugar do Estado.

Diz Ramonet: "O Pensamento Único nada mais é do que uma pretensão de universalizar interesses que pertencem unicamente às forças econômicas que o criaram, principalmente o capitalismo internacional". As raízes desta doutrina, foram fincadas em 1944, com o Acordo de Bretton-Woods, que abandonou o padrão ouro e definiu o dólar como moeda que serviria a partir de então como parâmetro para o mundo, oficializando a posição dos Estados Unidos como principal potência econômica. O novo líder se juntou aos demais países ricos na criação de organizações como o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial ou a Organização para Cooperação do Desenvolvimento Econômico (OCDE), por meio das quais cunharam os princípios fundamentais das atuais políticas econômicas e depois os divulgaram em centros de pesquisa, universidades, fundações e imprensa.

A definição do modelo que todos iriam seguir ficou a cargo daqueles 23 países hoje responsáveis por 88,4% dos fluxos internacionais de crédito, por 70% dos investimentos externos diretos e por 87,5% do valor total das empresas listadas em Bolsas de Valores do mundo, de acordo com dados elaborados por Octavio de Barros, diretor-técnico da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e daGlobalização Econômica. Integrantes de segundo escalão, os 115 países em desenvolvimento (incluindo o Brasil) escancaram seus mercados para receber recursos que passam apenas de raspão por seu território. E os 47 restantes, a maioria países da África, como Etiópia, Somália e Togo, desaparecem no mapa do capital.

EM BUSCA DA RECUPERAÇÃO. O rearranjo teria efeitos de longo prazo. Nos anos 80, década perdida, os excluídos da cartografia econômica ficaram com o pires na mão. Era a ressaca da crise da dívida, dos países em desenvolvimento. Enquanto isso, o capital cruzava frenéticamente o mundo acima do Equador. De acordo com dados da consultaria Lafis - Informação e Pesquisa de Investimento em Ações na América Latina, os investimentos diretos internacionais multiplicaram-se por 13 desde 1973 e chegaram a US$ 325 bilhões no ano passado. O mercado internacional de ações, praticamente inexistente antes da década de 80, deve fechar o ano com movimento de US$ 45,9 bilhões.

Foi um crescimento desigual. Segundo Octavio de Barros, da Sobeet, entre 1990 e 1995, os países desenvolvidos tomaram no mercado de crédito 14,7 vezes mais do que entre 1976 e 1980, enquanto os países em desenvolvimento apenas dobraram suas captações no Exterior. O crescimento ainda modesto destes se deu unicamente nos anos 90, quando reestrearam no mercado internacional, ainda que continuassem pagando juros e principal de títulos da dívida acumulada nos anos 70. A participação dos países em desenvolvimento no crédito privado mundial passou de 5,7% em 1989 para 11,6% em 1996. Os fluxos de investimento direto acompanham esta tendência: os países em desenvolvimento absorviam pouco mais de 15% do total no fim da década passada, percentual que dobrou em 1995, diz Barros. O surgimento de novos países, com a queda do Muro de Berlim, e o crescimento dos países asiáticos mudaram posições no tabuleiro mundial: a China tornou-se peça estratégica e vem liderando a atração de capitais.

No entanto, os países em desenvolvimento ainda estão a léguas do lugar que ocuparam, no últímo ciclo de entrada de capitais – distantes, por exemplo, dos 45,8% de participação no crédito mundial que tiveram no final dos anos 70. É que o sistema financeiro internacional não esquece o passado. E "a recompensa exigida aumentou muito em relação ao surto anterior", diz o consultor de investimentos Igor Cornelsen, ex-executivo do West Merchant Bank. "O Brasil paga hoje uma taxa de juro três a quatro vezes maior do que a taxa internacional." O evangelho do Pensamento Único vem sendo seguido à risca pelos governos latino-americanos, mas nem por isso evita-se uma crise cambial como a que abalou o México no final de 1994. Vêm as críticas: o esforço não tem sido suficiente. O Brasil continua tentando se diferenciar. Alguém já viu este filme antes?

Foto: Olga Vlahou
Em 1924, Wall Street
Jornal já dizia que o
Brasil era um maná
para os exportadores
Noam Chomsky, lingüística

RECEITA ANTIGA. A experiência histórica mostra que falhou a crença dos arquitetos da globalização de que o comércio internacional irrestrito permitiria aos países mais pobres chegar mais perto dos ricos. O deslocamento de montanhas de capital para os países que mandam deveria orientar uma distribuição inteligente dos poucos recursos que sobram nas demais economias nacionais. Não é o caso do Brasil, "um monumento à negligência social", como escreve o historiador Eric Hobsbawm em A Era dos Extremos. Por que esse descaso não é inteligente? O historiador explica: "Uma economia mundial que se desenvolve pela geração de desigualdades, tão crescentes está quase inevitavelmente acumulando encrencas futuras". O perigo foi admitido e o receituário levemente modificado. Em 1993, um encontro de cem representantes de dezenas de países elaborou o chamado Consenso de Washington, guia de boa conduta para a América Latina com as mesmas pílulas do Pensamento Único destrinchado por Ramonet. Em setembro deste ano, eles voltaram a se reunir para rever as propostas. Agora, enfatizam a importância de políticas internas de desenvolvimento (principalmente de incentivo à educação), mostram preocupação com a geração de poupança interna, acreditam que o Estado deve atuar com mais firmeza na supervisão bancária e criticam as privatizações, dizendo que os monopólios estatais transformaram-se em monopólios privados. Um retorno, de certo modo, aos princípios mais elegantes e ponderados do liberalismo clássico de Adam Smith.

Antes de saudar a globalização sem dizer a quem ela serve, conviria estudá-la. Ela não é acéfala, nem neutra, nem justa. Aliás, nem nova ela é. No século 19, era mais intensa, em vários aspectos, tem lembrado o economista americano Paul Krugman. Naquela época, o Reino Unido ditava os rumos do capitalismo internacional. Investia mais fora do que dentro do país, um recorde nunca mais ultrapassado. As ferrovias, navios a vapor e cabos telegráficos foram talvez mais revolucionários então do que a Internet e as ligações por satélite nos dias de hoje. O rumo da abertura possibilitou ao Reino Unido levar bancos e empresas para diversos países e controlar suas colônias. "O livre mercado sob o imperialismo britânico abortou a tentativa de industrialização de países como Índia e Egito", diz Chomsky. Não só. "Nenhum território do mundo é mais merecedor de exploração do que o do Brasil", escreveu em tom de rapsódia o Wall Street Journal, em 1924, conforme narra Chomsky em Novas e Velhas Ordens Mundiais.

Os instrumentos do mercado financeiro se assemelhavam aos que vigoram atualmente. Quem precisava de crédito para construir, por exemplo, uma ferrovia, emitia títulos de renda fixa e os vendia diretamente aos investidores. Se quebrasse, os compradores de títulos perdiam seu dinheiro, não os bancos. Alguma diferença fundamental em relação ao que se chama hoje de securitização? Em 1914, a eclosão da Primeira Guerra Mundial destruiu a internacionalização da belle époque. Com a Grande Depressão de 1929 houve colapso dos mercados financeiros. Eclodiu uma onda protecionista, que durou todo o período entre guerras. A participação do comércio exterior na produção mundial só retornou ao nível de 1913 por volta de 1970. "Os fluxos de capitais internacionais vêm crescendo em grande parte porque estão recuperando, o terreno perdido entre as guerras mundiais", diz o economista Paulo Nogueira Batista Jr., professor da Fundação Getúlio Vargas e pesquisador-visitante do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo.

OLIGOPÓLIOS MUNDIAIS. Só que a queda das barreiras de comércio dos anos 90, diferente daquela de um século atrás, serve à con- centração extrema, da riqueza. Do total de US$ 325 bilhões de investimentos diretos entre fronteiras, três quartos são destinados a fusões e aquisições. O objetivo inicial não é construir novas fábricas, nem aumentar a produção. Ao contrário, a tendência é cortar atividades redundantes. "A busca de sinergia entre empresas no final das contas se traduz em desemprego", afirma Edson Vaz Musa, presidente dá filial brasileira da Rhône Poulenc francesa. O primeiro ciclo de fluxos externos, iniciado no final do século passado, levou as empresas locais a se juntar. Enquanto os mercados permaneciam separados, as que sobravam dominavam setores em cada país. "É de se esperar agora que se passe de monopólios e oligopólios nacionais para mundiais", diz Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa, analista sênior da consultaria Lafis.

Coelho da Costa cita o setor de aviação comercial para mostrar como estão se dando estas transformações. A desregularnentação da aviação quebrou os monopólios nacionais e deflagrou uma concorrência internacional selvagem. Hoje começam a se formar monopólios internacionais. A parceria anunciada em junho entre a British Airways e a American Airlines vai somar US$ 30 bilhões em receitas, 15% do total mundial. A nova empresa incluirá 80% do tráfego aéreo entre o Reino Unido e os EUA e 24% de todo o mercado transatlântico. Poderá ganhar ainda mais força, se incluir a aquisição da USAir, da Aerolineas Argentinas e da holandesa KLM, como prevêem especialistas no setor.

De acordo com o World Investment Report das Nações Unidas, as 200 maiores multinacionais participam com mais de um quarto do PIB mundial. E as dez principais ficam com metade dos lucros das 200 maiores. A concentração vem-se dando também em determinados países. As 100 maiores multinacionais têm sua sedes nos países ricos, mais de 30 delas nos Estados Unidos. O Japão vem aumentando o número de empresas no ranking: passaram de 11 em 1990 para 19 em 1994, principalmente pela compra de empresas eletrônicas americanas. Um quinto do fluxo das multinacionais, ou US$ 60 bilhões, destina-se aos Estados Unidos. Em seguida, vem a Inglaterra, França e Austrália. Ao divulgar o relatório das Nações Unidas, a revista inglesa The.Economist publicou na edição de 28 de setembro o seguinte título:Bom para Alguns, onde questiona o termo globalização. "Ele parece implicar que praticamente todos os países se beneficiam. Mas uma grande parcela do investimento externo tem sido feita entre empresas de um punhado de países, em um espectro restrito de setores", diz a bíblia do liberalismo econômico.

Foto: Olga Vlahou
O Brasil corre o risco
de crescer de novo e
depois ser pego com
calças curtas
Edson Vaz Musa,
presidente da Rhodia

BANDEIRA NO PAÍS SEDE. Boa parte das multinacionais tem pátria: concentra seus ativos e empregos nos países de origem. Batista Jr. cita um estudo da economista norte-americana Laura Tyson ao ressaltar que, no final dos anos 80, os ativos nacionais das multinacionais americanas industriais correspondiam a 78% dos ativos totais; as vendas internas, a 70% das vendas totais e a participação no emprego doméstico significava 70% do emprego total. "Estudos mais recentes mostram que o pais de origem continua sendo o centro das atividades das corporações das principais economias desenvolvidas" afirma Batista Jr.

A francesa Rhône PouIenc, por exemplo, faz 75% de suas vendas nos países desenvolvidos e apenas 25% nos países em desenvolvimento. Edson Vaz Musa acredita que a situação está mudando. Dos US$ 1,2 milhão de investimentos globais da Rhône-Poulenc para o próximo ano, 20% terão como destino o Brasil. Nos países em desenvolvimento estão as maiores oportunidades. Na América do Sul, o mercado cresce a uma taxa anual de 28% e na Ásia a 15%, enquanto na Europa e Estados Unidos o percentual fica somente entre 2% e 3%. Mas Musa admite que as atividades, de pesquisa e desenvolvimento, importantes geradoras de conhecimento e autonomia econômiça, concentram-se na França e nos Estados Unidos. No Brasil, a Rhône-Poulenc desenvolve alguns processos industriais específicos, apenas.

O único país de fora do Primeiro Mundo com chances de colocar suas empresas entre as cem maiores é a Coréia do Sul, diz aThe Economist. Cada um dos sete conglomerados do país fatura anualmente mais de US$ 25 bilhões. Somente a Samsung tem 11 fábricas em quatro países europeus. Contudo, a Coréia do Sul está a léguas da pregação do Pensamento Único. Seu desenvolvimento industrial não surgiu em geração espontânea, mas teve importante participação de planejamento estatal. Os Estados Unidos apoiaram a Coréia do Sul, para assegurar sua posição em área estratégica cercada de comunistas. Com uma política de incentivo à exportação, a indústria coreana saiu de uma posição pior do que a do Brasil de 20 anos atrás. "Mas mesmo a Coréia tem suas fragilidades, ao depender demais do mercado externo em alguns setores específicos, como o eletroeletrônico", diz o economista José Antonio Martins.

A competição internacional leva riscos para qualquer indústria, como a coreana, que sofre no momento atual com a superprodução daquilo em que é especialista. Se sua situação já foi melhor, a de um país como o Brasil, então, nem se fala. Aqui não faltam empresas, mas não há um grupo sequer perto de ingressar no ranking das cem maiores multinacionais. As empresas brasileiras foram pegas com- pletamente despreparadas para a abertura, ao contrário das coreanas. Não tinham investido em tecnologia: os gastos do Brasil com pesquisa e desenvolvimento correspondem a 0,7% do PIB. Na Coréia do Sul, o percentual é de 2,5%.

ESTRUTURA FRÁGIL. Nos últimos três anos, entraram no Brasil US$ 4,5 bi- lhões para fusões e aquisições. Na contabilidade oficial, consta como investimento direto, apesar de não se destinar à construção de fábricas ou ao aumento da capacidade produtiva, mas à compra de empresas existentes, em geral enfraquecidas pela globalização e vendidas barato. "E quem vendeu a empresa, vai fazer o que com o dinheiro?", questiona Musa. Se comprar outra empresa no país, os recursos continuam circulando na economia. Se aplicar no mercado financeiro, pode ser que o dinheiro vire empréstimo para outras empresas - mas o mais provável é que acabe financiando o endividamento do governo. Se remeter o valor da venda para um paraíso fiscal, o dinheiro mal entrou e já deu bye-bye. Ainda virá uma enxurrada de recursos para fusões e aquisições. Segundo esti- mativas do governo, do total de investimentos diretos estrangeiros que o Brasil deve receber até 1998, 50% se destinam a aquisição de empresas controladas por capitais nacionais ou públicas.

Os empresários que hoje lamentam a fragilidade de suas companhias preferiram tocar o barco sozinho a administrá-lo sob pressão por maior eficiência por parte de investidores. Em países com mercado de ações sólido, como os Estados Unidos, a pulverização do capital amplia o universo do controle da gestão. Aqui, há 20 anos, a criação da Lei das Sociedades Anônimas possibilitou aos empresários vender dois terços do capital de suas empresas em ações sem direito a voto, as preferenciais. Sem possibilidade de efetiva participação dos minoritários, as Bolsas se desenvolveram pouco, cresceram concentradas nos papéis de estatais. "Os investidores estrangeiros querem ações que lhe dêem direito a interferir na administração", afirma Vladimir Rioli, diretor da Pluricorp e colunista de CartaCapital.

Segundo Rioli, a popularização do mercado poderia ser um elemento importante para inibir o processo de desnacionalização da empresa brasileira. Mas o governo caminha em sentido contrário: com o pretexto de facilitar as privatizações, pretende eliminar uma das poucas salvaguardas dos minoritários quando há mudança de controle, a obrigatoriedade de oferta pública aos portadores de ações com direito a voto nas mesmas condições de compra do novo grupo controlador. Não há justificativa, pois, na atual modelagem, o governo conseguiu arrecadar US$ 15 bilhões em privatizações. A falta de minoritários exigentes já fez estragos suficientes nas empresas privadas, punindo seus donos na hora da venda. Quando o mercado se abriu à concorrência estrangeira, muitos empresários resolveram passar seu negócio à frente: a Metal Leve foi vendida por US$ 60 mi- lhões à alemã Mahle e à Cofap, quase um sétimo do que chegou a valer em Bolsa nos tempos áureos.

REVERÊNCIA. Nessa toada, o Brasil estará cada vez mais conectado a interesses que fogem ao seu controle, assim como os mercados financeiros brasileiros e de outros países da periferia já se tornaram reféns da taxa de juro dos Estados Unidos. Segundo estudo do banco norte-americano Salomon Brothers, a Bolsa brasileira sofre mais estragos do que, a da VenezueIa, Argentina e México quando sobe o juro dos títulos de 30 anos do governo norte-americano.

O mundo todo está interligado, mas alguns países têm defesas, outros não. A principal delas é moeda forte. O Brasil tem o real, já valeu mais que um dólar. É uma moeda forte? Mais ou menos que o peso mexicano, abalado rapidamente diante das pressões dos investidores internacionais? Ao desembarcar na Europa, nos Estados Unidos, na Ásia, não se encontra o real nos quadros de moedas das casas de câmbio. "Uma moeda conversível determina a possibilidade de inserção de um país" diz o economista José Martins. O mundo todo acumula reservas em dólar, com a expectativa de que quando quiser o detentor poderá trocá-lo. Os Estados Unidos podem absorver capitais externos sem preocupação. Entre 1990 e 1994, acumularam um déficit em conta corrente de US$ 427 bilhões (a maior parte financiada pelo Japão). Não importa. Todos os países precisam do dólar, assim como seu título governamental é um totem, ao qual se deve prestar reverência. E o único país que emite dólares americanos são os Estados Unidos.

Desde a implantação do Plano Real, tornou-se ganho líquido e certo para grandes investidores tomar dinheiro no Exterior para aplicar em renda fixa no Brasil. A correção cambial pequena aumenta o lucro proveniente da diferença entre os juros externos baixos e internos ainda estratosféricos. Em tese, ninguém desejaria comprar esses dólares que entram no Brasil, porque isso significaria abrir mão da maior rentabilidade dos investimentos internos para micar com as verdinhas debaixo do colchão. Mas não há problema: de um lado da operação estão bancos e empresas, do outro, o Banco Central, que acumula reservas em dólar, a moeda "fraca".

Existe, no entanto, o custos de manutenção destas reservas, pois para que os recusos de estrangeiros não circulem na economia e pressionem os preços, o governo os esteriliza, emitindo títulos. Paga custo tupiniquim, enquanto aplica os dólares combalidos a juros mó- dicos no Exterior. Quantos brasileiros têm noção disto? Quem foi que disse que todos participantes do mercado têm mesmo acesso às informações? A impressão é que o câmbio mantido perto da paridade de um para um desafia a própria lógica neoliberal.

QUESTÃO DE CONFIANÇA. Cresce o volume de dinheiro estrangeiro presente na economia brasileira. A parte dos recursos que se aproveita da lentidão da correção cambial para aplicar em renda fixa soma US$ 18 bilhões, ou 29% das reservas. Considerando que 36% dos investimentos provenientes do Exterior estão aplicados em renda variável, sobrarn 35% das reservas, ou US$ 22 bilhões, que podem ser consideradas seguras - boa parte veio para fusões e aquisições. O dinheiro entra, mas também sai. Os juros e pagamento de parcelas da dívida externa brasileira vão somar no mínimo US$ 20 bilhões em 1997, ou um terço das reservas. Para Nogueira Jr., significa que, se houver um ataque especulativo, o dinheiro que com certeza sobra quase nem dará para pagar os compromissos.

As opiniões em relação aos riscos futuros diferem. Dependendo da confiança que os investidores tiverem no país, as empresas e bancos renegociarão ou não prazos e taxas das suas dívidas. "O país vive um período de graça que deve ser aproveitado para atrair investimento e financiamento externo de longo prazo" afirma Octavio de Barros, da Sobeet. "Em um horizonte de dois anos, é fundamental que aproveite as oportunidades do processo de globalização que, de longe, são maiores do que os riscos a ele subjacentes". Pelas estimativas de Barros dois terços dos bônus emitidos por empresas e bancos brasileiros, de um total de US$ 7, bilhões, vencem no primeiro semestre do ano que vem, e ele acha que serão renovados com tranqüilidade.

A política econômica não poderia ir contra os ventos do capital, mas também não deve se deixar levar por eles. Os investidores globais, empresários e operadores de mesa dos bancos avaliam o risco de colocar o dinheiro no país, comparativamente aos outros países. As agências de classificação de risco posicionam o Brasil como investimento especulativo, melhor apenas que o Peru, na avaliação da Moody's, e a Venezuela, segundo a Standard & Poors. Até a Rússia está em melhor lugar que o Brasil. "Ainda perdura por aqui a mentalidade do calote, a tentação de romper contratos", diz o consultor de investimentos Igor Cornelsen.

ALTA VOLTAGEM. Cornelsen acredita que não houve grandes mudanças no risco Brasil desde a moratória dos anos 8O. Cita o exemplo do endividamento público crônico, a resistência dos governadores em pagar o que os Estados devem, a fraqueza do poder judiciário. A tentativa de o governo de adiar a venda da Vale do Rio Doce para não perder votos à reeleição é outro exemplo de que as regras do jogo podem mudar a qualquer momento, se isso for de interesse particular de quem tem poder para tanto.

Na visão de Cornelsen, o dinheiro precisa estar onde há grandes populações e há grande potencial de crescimento: Brasil, Rússia, China e Índia. O Brasil é o único sem riscos naturais (como de um terremoto), religiosos, raciais, e ainda tem a vantagem de um sistema democrático. De acordo com Cornelsen, seu calcanhar de Aquiles, é a "apologia do calote".

Os administradores de carteiras de aplicações mundiais alocam apenas uma parcela dos seus recursos no Brasil, aquela reservada a alto risco. O país atrai investidores com coração de ferro para correr o risco de ganhar ou perder muito. A recompensa é grande, o perigo idem. "Nós vivemos uma estabilidade de 60 dias" disse Paulo Rabello de Castro, sócio da SR Rating Consultores, em debate publicado na penúltima CartaCapital. "O nosso mercado financeiro interno ainda não teve a coragem de estender o prazo nem para 90 ou 180 dias".

Quem aplica o dinheiro volátil está em situação mais cômoda. Entra e sai com relativa facilidade. Se há percepção de problemas, voa. Na crise dos anos 80, US$ 60 bilhões de brasileiros zarparam para os paraísos fiscais, de acordo com Cornelsen. Agora, quem coloca o dinheiro de volta no Brasil acredita que o país tem potencial de recuperação, que as agências de classificação de risco superestimam o risco do país.

Se o Brasil galgar posições no ranking, começará a mudar o perfil dá sua poupança externa. Nem por isso, estará a salvo das turbu- lências causadas pela mudança nos humores dos investidores. Corneisen lembra que vários bancos que operavam no passado no Chile saíram quando o país recebeu nota boa no boletim internacional de crédito, o investment grade. As operações deixaram de ser atraentes. Era embolsar o lucro e especular em outros territórios.

BOLA DA VEZ. No caso do investimento direto, a avaliação é mais complicada. Envolve um outro horizonte, um exercício difícil num país com mentalidade de overnight. Mesmo assim, as expectativas são otimistas. O governo estima que o Brasil receberá US$ 94 bilhões em investimentos privados nos próximos quatro anos. "O Brasil foi re- descoberto, virou moda entre os investidores", diz Milton Da Vila, sócio da consultaria Deloitte Touche Tohmatsu no Brasil. Mas muitas das definições não são completamente racionais. "Vários empresários estrangeiros que nos procuram olham o globo, decidem vir para o Brasil por intuição e só depois vão procurar uma justificativa".

Os que pensam mais friamente divergem, em suas percepções de acordo com a posição que o Brasil significa na sua estratégia. "Não acredito que o Brasil representa um risco tão alto, pois pelo menos no setor produtivo a maior parte dos investimentos por aqui vem sendo bem-sucedida", diz Omar Carneiro da Cunha, presidente da subsidiária brasileira da AT&T. Carneiro da Cunha dirige uma empresa que está dando seus primeiros passos no Brasil, de olho nas telecomunicações, um setor que fora da tutela do Estado pode virar a maior fonte de lucros do País. A abertura comercial interessa a AT&T, as privatizações representam ganhos diretos. Além do mais, investir em serviços de telecomunicações é diferente de construir fábricas. "Quem está sofrendo são as indústrias de bens de capital, onde não é possível mudar de uma hora para outra", diz.

Quem já está há mais tempo continua investindo, como a Rhodia e a Siemens. Seguem agora, na medida do possível, o modelo de abertura comercial, com consciência dos riscos de uma reviravolta. "O Brasil tem condições de crescer, mas precisa de consistência de propósito", diz Musa. Há cinco anos, a Rhodia construiu uma fábrica voltada a produtos para a indústria têxtil. As empresas do setor não conseguiram enfrentar os importados. Foram à bancarrota. Antes de ter pago os investimentos, a fábrica foi fechada. "Sem política industrial você acaba descobrindo os fatos a posteriore", diz.

À MARGEM. Um exercício de abstração: como será a indústria brasileira no próximo milênio? Deixado às ondas do mercado, o Brasil vai continuar exportando suco de laranja, celulose, minério de ferro, entre os poucos produtos onde é mundialmente competitivo. Todos de baixo valor agregado, rebaixados à categoria de subcommodities, porque commodites atualmente são os semi-condutores e computadores pessoais. Na era global, considera-se que o êxito de um país é determinado pela sua capacidade de exportação. Segundo o economista Celso Furtado, a participação do Brasil nas exportações conjuntas do Terceiro Mundo declinou de 6% para 3% no correr do presente decênio. "Isso é uma indica- ção do que significa a perda de auto- nomia do setor cambial", disse Celso Furtado em artigo recente publicado na Folha de S. Paulo.

O Brasil mantém uma participação de 1% no crédito mundial, de 1% no comércio exterior e de 0,4% na carteira dos fundos de investi- inento em ações. "Significa um potencial imenso de crescimento de participação", diz Octavio de Barros, da Sobeet. Este é um lado da questão. O outro é que o Brasil ainda tem uma posição à margem no mapa-múndi do capital. As possibilidades de maior inserção, entretanto, estão condicionadas a decisões que por enquanto não vão sendo tomadas.

Coelho da Costa, da Lafis, vê uma saída no fortalecimento do Mercosul. Para os países desenvolvidos, o Brasil é um mercado muito pequeno e o Sul da Terra como um todo serve apenas como uma reserva de valor. A economia global é na realidade um único bloco hemisférico de países, os do Norte. O equilíbrio poderia se dar com a formação de seis grupos de países em desenvolvimento, autônomos em relação aos interesses do Norte: América Latina, Oriente Médio, África, Sudeste Asiático, Extremo Oriente (basicamente a China) e Sul da Ásia. "Seriam não apenas zonas de livre comércio, mas sim verdadeiras economias integradas em um projeto de desenvolvimento regional", diz Coelho da Costa. Espelhados no projeto da União Européia, os blocos permitiriam livre circulação de mão-de-obra, teriam uma só moeda, compartilhariam projetos de investimentos, legislação trabalhista, ambiental, além de instituições políticas, culturais e sociais. Formados por países de um mesmo universo cultural, cada um teria, em meados do próximo século, mais de um bilhão de consumidores potenciais, mais do que todos do Norte juntos (incluindo a Rússia).

ARRUMAR A CASA. Dinheiro de fora não está se mostrando suficiente, mesmo para os países com melhor posição entre os investidores globais. O Brasil poupou nos últimos cinco anos uma média de 17% a 18% no PIB. A parte externa, na melhor das hipóteses, chega a 3% do PIB. "Neste cenário, o produto do País vai crescer apenas 0,5%, quando necessitaria de um aumento anual de pelo menos 5%", afirma Musa. Para que seja possível atingir um novo patamar de crescimento, a poupança deve subir para entre 20% e 25% do PIB. Os países asiáticos crescem 9% ou 10% ao ano porque poupam 30% do PIB. Uma das formas seria por meio de fundos de pensão e outros mecanismos de incentivo para que as pessoas guardem dinheiro. Sem poupança, não vai haver investimento. " O Brasil corre o risco de começar a crescer novamente e depois ser pego de calças curtas", afirma Musa.

Jorram investimentos no País, correndo o risco da falta de infra-estrutura, da falta educação, da falta de criação de emprego. Sem esses pré-requisitos, não há mercado. O historiador Paul Kennedy, em Preparando para Século XXI, coloca as condições para país que deseja estar na locomotiva de economia global. Em primeiro lugar "deve-se fugir de uma cultura comercial que se tornou demasiado dependente da expectativa de lucros a curto prazo, da parte de Wall Street. " Suas dicas: estar afiado para enfrentar os mercados mundiais mais exigentes, treinar a força de trabalho, melhorar os padrões educacionais, investir em pesquisa e desenvolvimento. O Brasil, até agora, ficou apenas na promessa. Um gigante por enquanto só nos sonhos.