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A
MÍDIA SE ENTREGA
Os senhores da comunicação,
endividados, enfiam pela goela do País a abertura de capital
para estrangeiros.
Por
Paulo Henrique de Sousa e Sérgio Lírio
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Em
comitiva.
Frias, Sirotsky, Mesquita, Civita, Cabral, Guimarães.
O grupo foi a Brasília arrancar do presidente
FHC apoio formal ao projeto
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Os donos da
mídia brasileira estão perto de colher os frutos de
sete anos de idas e vindas e de dois meses de intensa peregrinação
ao Planalto Central. Com um discreto empurrão de Fernando
Henrique Cardoso e o empenho do presidente da Câmara, Aécio
Neves, os deputados devem aprovar em primeiro turno, até
o início de dezembro, o projeto de lei que altera o artigo
222 da Constituição e permite o ingresso de capital
estrangeiro nas empresas de comunicação nacionais
até o limite de 30% do controle acionário.
O projeto mais recente, cujo relator foi o deputado Henrique Alves,
circula há mais de dois anos na pauta da Câmara, mas
sua tramitação ganhou uma velocidade de cruzeiro em
agosto passado. O motivo principal para tamanha pressa é
a situação de penúria da maior parte das empresas
de comunicação, afundadas em dívidas estratosféricas,
sem dinheiro para novos investimentos e às voltas com uma
queda de publicidade de 16% no primeiro semestre do ano.
"O capital estrangeiro vem em um momento propício. O
nível de endividamento chegou ao limite do suportável",
diz José Carlos de Salles Neto, presidente do Grupo Meio
& Mensagem, especializado em comunicação. Uma
pesquisa do Ibope Inteligência estima que as receitas publicitárias,
com a abertura, subiriam de 1,7% para 2,5% do Produto Interno Bruto.
Na quarta-feira
21, um dia depois da visita de uma comitiva de empresários
a FHC, entre eles Roberto Civita, do Grupo Abril, e Luís
Frias, da Folha de S.Paulo, Aécio Neves deu o tom da urgência:
"Essa é uma das prioridades e será votada assim
que destrancarmos a pauta".
No meio da semana, o que "trancava" a pauta era a relutância
do PMDB em apoiar as mudanças na legislação
trabalhista, de máxima urgência para o governo. A resistência
peemedebista não deve durar mais de uma sessão, o
que torna possível resolver o imbróglio da CLT e aprovar
a nova redação do 222 até a quinta-feira 29.
A emenda precisa
enfrentar dois turnos na Câmara e no Senado - e com maioria
de dois terços de votos. Se não houver nenhum contratempo,
estará finalmente aprovada no final de março do ano
que vem.
Em Brasília, apesar do anunciado voto contrário dos
partidos de oposição, a fatura parece ganha. Por via
das dúvidas, o lobby das empresas de comunicação
se cerca de garantias. Desde agosto, as principais lideranças
partidárias são visitadas por empresários e
seus representantes pelo menos uma vez por semana.
Por pressão dos grupos de mídia, Henrique Alves, relator
da proposta, deixou um cargo no governo do Rio Grande do Norte para
reassumir sua vaga de deputado e comandar a votação.
Comenta-se no Congresso que as empresas colocarão jatinhos
à disposição dos deputados para evitar a falta
de quórum no plenário. Para ser aprovada, a emenda
precisa de 308 votos.
"Há propostas mais relevantes que precisam ser discutidas,
mas esse assunto, sem urgência nenhuma, está atropelando
outras discussões", reclama o líder do PPS, Rubens
Bueno. "Isso já está sendo tratado há
dois anos. É hora de votar", rebate Jutahy Júnior,
líder do PSDB.
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A
pressão, às vésperas de um ano eleitoral, tem funcionado.
O presidente da câmara, Aécio Neves, elegeu a emenda
uma das prioridades antes do recesso, com apoio dos
líderes governistas e de Fernando Henrique
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Os senhores
da mídia, em especial aqueles que receberam uma concessão
do Estado, como no caso das emissoras de rádio e televisão,
em verdade estão negociando algo extremamente importante,
frágil e caro ao País.
O que se discute é quem vai, daqui por diante, comandar a
opinião pública; por que não dizer, comandar
o País. A quem enxergar nisso um exagero, pergunte-se: quem,
no Brasil, resiste a uma quinzena de bombardeios do principal telejornal
se o telejornal se dispuser a atacar?
Perceba-se a força dos senhores da mídia, e a correspondente
fragilidade do País, na histórica foto do Palácio
do Planalto. O caixa anda fraco, mas a força para forjar
a opinião pública é suficiente para, digamos,
dobrar o presidente da República, o chefe do poder concedente.
O que se pretende
é abrir o capital quando ainda não se votou a Lei
de Comunicação Eletrônica de Massas, a regulamentação
de posse e uso da propriedade dos meios que, é óbvio,
deveria anteceder o ingresso de novos capitais, em especial o estrangeiro.
Fechado o acordo entre os senhores, bastaram 60 dias para enfiar
sua vontade pela goela do Congresso e do presidente da República.
Imagine-se, apenas por esporte, que capacidade terão um presidente
da República e um Congresso do mesmo estofo e consistência
diante de um Rupert Murdoch, o poderoso da News Corp. da vida?
"É uma irresponsabilidade fazer uma mudança desse
porte sem uma discussão maior sobre salvaguardas elementares.
O Brasil tem uma lei de radiodifusão ultrapassada e não
possui um órgão regulador autônomo e forte",
diz o professor Murilo Ramos, da Universidade de Brasília.
"Hoje não existe sequer a condição de
fiscalizar se um estrangeiro terá, de verdade, apenas 30%
do capital."
"Toda vez que a mídia está em dificuldade financeira,
renasce a proposta de abertura. Mas essa discussão não
pode ser pontual", completa Walter Pinheiro, líder do
PT na Câmara.
Por enquanto,
isso não se discute. Até a metade do ano, as Organizações
Globo concordavam com o raciocínio de Ramos. Num raro momento
de convergência, também se afinavam com os partidos
de oposição. Desde então, as coisas mudaram.
A queda da receita publicitária e a piora dos resultados
da Globocabo, do ramo de tevê por assinatura, por conta da
desvalorização cambial, minaram a resistência
da família Marinho, que sempre viu com desconfiança
a abertura aos concorrentes estrangeiros, principalmente na radiodifusão,
cuja escala de produção e faturamento infinitamente
maior poderia ameaçar sua liderança no País.
O balanço do primeiro semestre revela a fragilidade da empresa.
Parte considerável dos US$ 810 milhões levantados
com a venda de 30% do portal de internet Globo.com à Telecom
Italia, que haviam aliviado a barra no ano passado, viraram fumaça.
O caixa da holding caiu de US$ 905 milhões para US$ 620 milhões,
na comparação com 2000. A dívida subiu de US$
2,1 bilhões para US$ 2,5 bilhões - no período,
a cotação do dólar passou de R$ 1,80 para R$
2,50.
Os analistas financeiros ficaram particularmente decepcionados com
os recentes números da Globocabo. No terceiro trimestre,
o prejuízo acumulado foi de R$ 270 milhões, superando
as previsões de perdas inferiores a R$ 200 milhões.
Em nove meses, a companhia acumula um resultado negativo de R$ 659
milhões, mais de duas vezes superior ao do mesmo período
de 2000.
Procurada por CartaCapital, a Globo se limitou a enviar, por escrito,
uma declaração de princípios, na qual afirma
ter sempre defendido a abertura ao capital estrangeiro, mas com
mecanismos de proteção à produção
local. "Promover a identidade nacional é vital para
assegurar nosso espaço", diz o texto.
Em entrevista à revista Pay-TV, em outubro, Roberto Irineu
Marinho revelou as preocupações com a abertura e se
mostrou disposto a, se necessário, entregar alguns anéis
e preservar os dedos. "Não queremos perder o controle
da Rede Globo, da geração de conteúdo. Perder
o controle da Globocabo é uma coisa que pode acontecer",
afirmou.
Por sua importância e poder, a Globo sempre foi fundamental
para a aprovação da abertura do mercado. Seus executivos
têm se empenhado no convencimento dos parlamentares, mas não
é do Jardim Botânico que partem as maiores pressões
para mudar a Constituição.
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Estragos.
Casa dos Artistas bate o Fantástico, provoca briga
judicial com a Globo e assusta sócios estrangeiros
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Além
de abrir as portas ao capital estrangeiro, a emenda permite a uma
pessoa jurídica brasileira deter o controle total de uma
empresa de comunicação. Hoje, apenas cidadãos,
as pessoas físicas, têm esse direito.
Entre os maiores interessados na mudança estão os
grupos evangélicos. Por conta das restrições
legais, as igrejas são obrigadas a registrar rádios
e tevês em nome de pastores, o que cria riscos - caso, por
exemplo, de uma briga entre as partes. A fórmula também
agrada aos donos de jornais e revistas, que poderiam buscar investidores
entre bancos e fundos de investimento, sócios menos dispostos
a intervir no conteúdo editorial e na gestão do negócio.
Longe dos domínios
da Vênus Platinada, a situação financeira dos
grupos de comunicação vai do aperto ao completo desespero.
A Abril, que edita, entre outras, as revistas Veja e Exame, anunciou
700 demissões, cerca de 8% do total de funcionários.
O conglomerado dos Civita enfrenta uma reestruturação
que deve levar ao fechamento de algumas publicações.
Na TVA, tevê por assinatura, com cerca de 700 mil usuários,
o grupo anunciou uma capitalização de R$ 360 milhões.
A americana Hearst diminuiu sua participação no negócio
de 17,4% para 8,1%. O banco JP Morgan, de 8,1% para 3,8%.
O jornal econômico Gazeta Mercantil, com 81 anos de existência,
procura sócios para salvá-lo da falência. Há
cerca de duas semanas, a publicação, com salários
atrasados e dificuldade de pagar compromissos básicos como
as contas de telefone e luz, anunciou a demissão de 400 funcionários.
O advogado Thompson Flores, representante do fundo de investimento
WorldInvest, que assumiu a administração depois do
afastamento de Luiz Fernando Levy, estaria tentando reunir dez investidores
e levantar R$ 300 milhões. Mas a enorme dívida previdenciária
e trabalhista, estimada em R$ 150 milhões pela Gazeta e em
R$ 500 milhões pelo governo, dificulta o trabalho.
Há números ruins para todos os lados. A circulação
de revistas caiu 5,4% entre maio de 2000 e junho de 2001. As três
maiores semanais, Veja, Época e IstoÉ, venderam menos,
respectivamente, 5,4%, 21,7% e 12,3% de exemplares.
Os jornais Folha
de S.Paulo e O Estado de S.Paulo demitiram entre 20 e 50 jornalistas
para adequar os custos
à queda da receita com publicidade e ao aumento do preço
do papel jornal importado. O Jornal do Brasil, comprado pelo empresário
Nelson Tanure, está em pendência judicial com ex-funcionários
por ter interrompido o pagamento de seus direitos trabalhistas.
Em relação aos seis primeiros meses de 2000, houve
uma queda de 8% no investimento publicitário, mas mídias
menos tradicionais tiveram um aumento de participação
no mercado e abocanharam um pedaço do bolo de meios como
a tevê e os impressos.
Por causa das condições desfavoráveis e das
perspectivas nada animadoras para os próximos meses, os empresários
de comunicação elegeram a mudança no artigo
222 como a tábua de salvação. A não
ser que todos já tenham pré-acordos firmados - e é
possível que alguns os tenham -, a realidade talvez não
confirme o ânimo geral.
Com exceção das Organizações Globo,
por motivos óbvios, e projetos isolados como o jornal Valor
Econômico, formatado desde o início para receber um
sócio internacional, as conversas entre vendedores e possíveis
compradores podem ser frustrantes para os primeiros.
As empresas
de telefonia, principalmente as européias, candidatas ao
posto de investidores, estão fortemente endividadas. Será
difícil convencer os acionistas a fazer novas e vultosas
aplicações na América Latina. Casos de fracassos
anteriores também dificultam os acordos.
A Telecom Italia, por exemplo, anunciou em meados de novembro um
ajuste de seu investimento na Globo.com. Os italianos colocaram
US$ 810 milhões no portal, mas agora acham que sua parte
não vale mais do que US$ 4 milhões. A Portugal Telecom,
por seu lado, não tem mais esperanças de ver a cor
dos US$ 30 milhões despejados no projeto de internet da Gazeta
Mercantil.
No entanto, a depender do negócio e das condições,
de lá poderá sair parte do dinheiro que salvará
a mídia nacional. Os espanhóis da Telefónica,
por exemplo, já mostraram na Argentina sua avidez por bons
negócios na América Latina.
Fundos de investimentos estrangeiros são outros fortes candidatos.
O vice-presidente do banco francês Crédit Lyonnais,
Jose Irigoyen, desembarca em São Paulo na terça-feira
27, para acompanhar a tramitação do projeto na Câmara
e, é claro, conversar com empresários do setor. Na
Europa e nos Estados Unidos, o Crédit Lyonnais é forte
em investimentos na mídia.
Outro interessado é a Rio Bravo Investimentos, que tem entre
seus sócios o ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco.
"Mantemos contato com grupos estrangeiros, mas estamos em fase
de observação", desconversa Antônio de
Athayde, outro associado. Mas o interesse é visível.
Athayde, recém-chegado à Rio Bravo, é um ex-diretor
da TV Globo e negociou o acordo entre o SBT e a holandesa Endemol,
rompido na última hora por Silvio Santos.
Franco, comenta-se no mercado, teria feito uma proposta de compra
da Gazeta Mercantil. Além disso, o ex-BC faz a avaliação
financeira dos Diários Associados. A família Chateaubriand,
dona de 15% das ações do grupo, que edita, entre outros,
o Correio Braziliense e o Estado de Minas, pretende vender sua parte.
Integrantes da outra porção do condomínio também
cogitam repassar um naco para outros investidores, estrangeiros
ou não.
O fundo HMT&F,
com participações em clubes de futebol brasileiro,
também é lembrado por especialistas. Se seguir o modelo
de investimento nos Estados Unidos, o HMT&F poderia voltar suas
baterias para as rádios. O setor seria um dos mais promissores.
Apesar de sua abrangência, recebe apenas 8% das verbas publicitárias
e teria muito espaço para crescer.
A dúvida é saber se esses fundos irão se aventurar
em companhias familiares administradas de forma personalista e sem
muita transparência nos números. Há quem ache
que casos como o do SBT podem assustar pretensos investidores. Na
Anhangüera, é Silvio Santos quem manda. E só
ele. "Depende de como ele acorda", diz uma fonte ligada
ao grupo, que preferiu o anonimato.
A negociação com a Endemol é exemplar. Silvio
Santos desistiu na última hora do negócio com os holandeses,
que detêm os direitos do programa Big Brother. No entanto,
o dono do SBT não pensou duas vezes antes de fazer uma cópia
da atração, a Casa dos Artistas, mesmo sabendo que
a Endemol, depois de sua desistência, havia acertado com a
Globo. "Os holandeses estão olhando o Brasil com maior
perplexidade agora, por causa dos direitos autorais", garante
a fonte.
A mudança na lei, de qualquer forma, abrirá as porteiras
de um mercado de 170 milhões de pessoas. Resta saber se,
a despeito do poder da Globo e seu interesse em manter o mercado
cativo, será possível controlar a manada depois.
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OS
GRUPOS MUNDIAIS PAPAM TUDO
Se aparecerem oportunidades por aqui, eles não vão
hesitar. O poder de fogo cresce dia a dia.
Por Antonio Luiz M.C.Costa
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Relações
perigosas.
A primeira vítima
da fusão é o senso crítico
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Novas
tecnologias, tanto quanto novas tendências ideológicas,
facilitaram e estimularam a convergência de todos os
meios de comunicação social. O risco passou
a ser não só a concentração dentro
de cada meio de comunicação, mas também
a concentração do conjunto de todas as mídias.
Não só se corre o risco de encontrar os mesmos
gostos e as mesmas opiniões em todas as emissoras de
tevê, como também em qualquer mídia a
que se recorra em busca de entretenimento ou informação.
Nos EUA, por exemplo, viram-se as fusões dos grupos
Time, Warner, Turner e AOL; Viacom, Paramount, Blockbuster,
Westinghouse e CBS; GE e NBC; Capital Cities, ABC e Disney;
News Corp., Triangle, 20th Century Fox e Metromedia TV; Gannett
e Multimedia; AT&T, NCR e McCaw; Vivendi e Seagram.
Desde
o início de 2001, houve uma calmaria: no primeiro trimestre,
as fusões e aquisições nos EUA caíram
64% e ainda não voltaram a ser retomadas num ritmo
comparável ao dos anos anteriores.
Apesar de, em geral, as ações dos grandes grupos
de mídia não ter caído tão drasticamente
quanto nos setores de internet e telefonia celular e sua situação
financeira continuar permitindo investimentos de bilhões
de dólares, as empresas do setor sentem-se subavaliadas
e esperam um momento mais favorável para agir.
Mas muitos analistas sentem que logo virá uma nova
tempestade de consolidação. As ações
estão voltando a subir e os grupos menores receiam
ser marginalizados num mundo de gigantes. A recente fusão
da DirecTV com a EchoStar por US$ 30,3 bilhões (anunciada
no final de outubro), que passou a perna na News Corp. e concentrou
tremendamente o mercado de tevê via satélite
nos EUA, pode ter sido a fagulha a pôr fogo na floresta.
Além disso, comenta-se que a AOL Time Warner quer comprar
a editora britânica IPC Magazines e a Viacom quer comprar
a NBC do Grupo GE.
Não está claro se o interesse desses grandes
grupos já se estende aos países periféricos,
mas não lhes faltariam recursos para adquirir os maiores
grupos brasileiros, se aparecer a oportunidade.
Uma flutuação de 2% nos US$ 161 bilhões
que correspondem ao valor de mercado da AOL - algo que pode
facilmente acontecer em um único dia - supera o patrimônio
líquido do maior grupo brasileiro, a Globo. Ou de 4%
no caso da Viacom, que vale US$ 75 bilhões.
A cultura,
brasileira ou americana, não passará incólume
por esse processo. A primeira vítima é o senso
crítico em relação à própria
mídia: não se pode mais esperar, por exemplo,
isenção total da editoria de cinema da revista
Time em relação às produções
cinematográficas da Warner, por exemplo.
A crítica a governos e grandes grupos privados vem
em seguida: cada órgão tem de se preocupar não
só em desagradar aos seus próprios anunciantes
e governantes locais, mas a todos os anunciantes e governantes
com os quais o grupo se relaciona. Assim, o Grupo News Corp.,
de Rupert Murdoch, fez seus jornais australianos amenizarem
as críticas ao governo chinês, para não
prejudicar seus negócios com Pequim.
Perde, também, a diversidade cultural. Quando cada
emissora de rádio pertencia a uma empresa local diferente
e não relacionada a outros meios, havia mais margem
para dar oportunidades a artistas pouco conhecidos e gostos
locais ou de minorias étnicas e ideológicas.
Incorporadas em massa a grupos nacionais e transnacionais
que também controlam gravadoras e produtoras de espetáculos,
a busca de ganhos de escala leva silenciosamente a uma maior
padronização cultural.
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